Bagdá é Aquí
Saulo Abreu, secretário da Segurança Pública
:
'Quero
o Exército em ação'
|
INFORMAÇÃO:
'Desde 2002 quero integrar nossos dados com a PF.
É só um link, computador e acesso
online'
RECURSOS:
'No fim, nada para a segurança. Nem um real.
Nem para comprar carro, colete à prova de
bala'
TROPAS:
'Dá para o Exército ajudar nas operações.
Precisamos segurar três, quatro lugares grandes'
|
Marcelo
Godoy e Sergio Pompeu
São
Paulo quis, sim, o reforço das tropas do Exército
no auge da crise na segurança, em maio. E ainda
quer. Mas não para estacionar tanques Leopard do
2º Regimento de Carros de Combate debaixo da marquise
do Masp. O que o Estado pediu nos encontros com comitivas
capitaneadas pelo ministro da Justiça, Márcio
Thomaz Bastos, foi o envio de tropas da Infantaria para
participar de operações em áreas
dominadas pelo tráfico de drogas. Também
pediu soldados para fazer a guarda das muralhas de presídios,
liberando policiais para a guerra contra o Primeiro Comando
da Capital.
Os
detalhes sobre a negociação foram revelados
pelo secretário da Segurança, Saulo Abreu.
Ele desmentiu declarações do ministro, publicadas
pelo Estado há uma semana, sobre uma suposta resistência
de São Paulo em aceitar apoio. Saulo diz ter entregue
ao ministro uma lista com uma série de pedidos.
"O Márcio recebeu o papel e ficou quieto."
Outro
pedido foi o do envio de homens da Força Nacional
de Segurança Pública para liberar a polícia
da tarefa de escoltar presos e ajudar a degravar CDs de
escutas telefônicas. Além disso, o Estado
requisitou o empréstimo de equipamentos da Polícia
Federal (PF) e a liberação de R$ 740 milhões
para projetos de inteligência - entre eles, a interligação
dos dados da PF sobre criminosos com os das Polícias
Civil e Militar. Tudo mantido em sigilo e revelado por
Saulo.
Conhecido
pelo estilo bateu, levou, Saulo é um personagem
desconcertante. Avesso a entrevistas, concordou em receber
o Estado às 11h30 de sexta-feira para uma hora
de conversa. Falou durante cinco, sem pausa para almoço.
No
balanço sobre os encontros com o ministro, Saulo
garante que, em suas raras intervenções,
Thomaz Bastos disse apenas que estava ali para prestar
"solidariedade" ao Estado. De prático,
nada. "Solidariedade é campanha do agasalho",
diz Saulo. Mas o secretário elogia o Exército,
que acenou com o empréstimo de helicópteros
e a cessão de fotos de satélite para o mapeamento
de alvos no combate ao PCC.
Processado
por abuso de autoridade - em maio de 2005, o secretário
mandou algemar o sócio do restaurante Kosushi,
onde jantava, por acreditar que ele tinha bloqueado uma
rua no Itaim -, Saulo se diz vítima de perseguição
política no Ministério Público Estadual.
O motivo é a oposição pública
que faz ao procurador-geral de Justiça do Estado,
Rodrigo Pinho. "Querem impregnar minha imagem de
truculência."
Saulo
raciocina rápido e se impacienta quando o interlocutor
não o acompanha. Dono de uma franqueza rara, é
rápido no gatilho também nas tiradas bem-humoradas.
Como quando contou que, na juventude, se formou torneiro
mecânico numa escola técnica. Então
Saulo tem pelo menos algo em comum com o também
torneiro mecânico Luiz Inácio Lula da Silva?
"Não. Porque eu estudei. Ele, não."
Leia abaixo trechos da entrevista:
EXÉRCITO
Falei
pro Márcio: o Exército aqui para quê?
Para fazer operação na 23 de Maio? Isso
não tem necessidade. Na segunda-feira em que tudo
parou (15 de maio), não dava nem tempo para a tropa
vir. Então eu disse: Vamos dar coisas concretas
para o Exército. Aqui em São Paulo, dá
para o Exército cuidar das muralhas dos presídios
para nós, porque ele já faz a guarda de
quartéis. Depois dá para o Exército
ajudar nas operações saturação
(em redutos do crime organizado). Nós estamos precisando
segurar três, quatro lugares que são grandes.
Temos tudo já mapeado, fotografado. Colocaríamos
a Cavalaria, o Choque, mas não adianta pôr
tanque de guerra. Como dar tiro de canhão? Tem
de pôr gente, cercar. Só entra ou sai quem
mora na favela. A parte social deles funciona bem. Aí,
é pôr o trailer do policiamento comunitário,
identificar as lideranças do crime e prender. Dava
para fazer isso em Santos, São Vicente e Guarujá,
em três morros já identificados. Ele, o Márcio,
anotou lá, recebeu o papel e ficou quieto.
PRIMEIRA
REUNIÃO
Na
primeira reunião (em 19 de maio), tínhamos
uma listinha de pedido de recursos. Eu disse: vamos dar
prioridade aos que desde 2002 não foram repassados
(R$ 562 milhões). Daí, ele falou do Exército.
Da minha parte, disse, não vejo problema. Só
não acho que o militar tenha formação
para prender criminoso. Lembra quando mataram o segurança
do filho do Lula? O cara disse: "Sou tenente do Exército".
E o ladrão atirou na cara dele. Depois disso, o
Lula passou a ter 24 PMs que fazem segurança quando
vem a São Paulo.
PROPOSTAS
PARA A PF
Outra
proposta que eu fiz: vamos desonerar a PF. Você
me repassa aeroportos, a fiscalização das
empresas de segurança, a concessão dos portes
de armas e emissão de passaportes, que a gente
toca esses serviços aí. O passaporte era
só jogar no Poupatempo. A gente emite 7 mil RGs
por dia. Você acha que expedir mais 200, 300 passaportes
vai ser problema? (...) Numa das reuniões, o Paulo
Lacerda (diretor-geral da PF) estava lá. Perguntei
o que ele achava dos nossos pedidos. Ele disse que achava
bom, mas estava com problemas de verba. A PF aqui nem
helicóptero tem. O que eles tinham caiu há
dois anos. Fomos nós que socorremos o pessoal na
época. E até hoje não teve a reposição
daquele helicóptero.
FORÇA
DE SEGURANÇA
Falei
com o cara da Senasp (Luiz Fernando Corrêa, da Secretaria
Nacional de Segurança Pública). Ele mesmo
disse que a Força Nacional de Segurança
não ia resolver a situação em São
Paulo. Perguntei quantos homens poderiam mandar para cá.
Ele respondeu que seriam uns 200, por até 60 dias.
Eu falei: então, manda. Precisamos de gente para
fazer escolta de presos (no primeiro semestre a secretaria
recebeu 23.631 pedidos de escolta), para ajudar a tirar
as fitas com a gravação de escutas de celulares
usados nas cadeias. Eles não têm nada. Na
primeira operação que a Força fez,
em Vitória, emprestamos coturnos e fardas da PM
daqui. Sabe como é que eles pagaram a gente? Mandaram
duas Paratis.
SEGUNDA
REUNIÃO
Na
segunda reunião (em 14 de junho), ele (Thomaz Bastos)
havia se comprometido a nos ceder um equipamento de escuta
telefônica, um grampinho, pois nós precisamos
ampliar a escuta de Nextel. Estavam chegando dois aparelhos
e eu quis importar um, mas o ministério deu parecer
contrário.
RESULTADO
Ele
(Bastos) disse: São Paulo está dando conta
da crise, mas não podia deixar de vir, dar solidariedade.
Ok. Muito bonito. Mas solidariedade é a campanha
do agasalho. Estou esperando (dinheiro) até hoje.
Ele saiu da reunião para dar entrevista. Veio um
rapaz e me contou que ele tinha anunciado a liberação
de R$ 100 milhões. Levei um susto. Até fiz
brincadeira: "Estou com prestígio". Mas
disseram: "Não é para você, é
para a Administração Penitenciária".
(...) Agora, para reformar Araraquara (presídio
destruído onde detentos estão amontoados
no pátio), é só pegar presos federais
de São Paulo e espalhar pelo Brasil. Depois que
a gente arrumasse aqui eles voltariam. Com a prisão
vazia é rápido. Em 15 dias, você entra
e reforma. Mas você acha que o PT quer ter trabalho
com preso? Não responderam. No fim, não
deram nada para a segurança. Nem um real. Nem para
comprar carro, colete à prova de bala.
"União
cobra de SP por uso de helicóptero"
Entrevista
- Saulo Abreu, secretário da Segurança Pública
MARCELO
GODOY E SERGIO POMPEU
O
gabinete do secretário da Segurança, Saulo
Abreu, é austero. A camisa branca que ele guarda
para a eventualidade de precisar trocar de roupa, por
exemplo, fica pendurada na torneira do chuveiro do banheiro
privativo. Saulo trabalha em meio a uma cordilheira de
papéis na mesa. Entre esses papéis, na sexta-feira,
estava a minuta do primeiro convênio a ser assinado
com o Exército. O documento agradou a Saulo. Trata-se
do acordo para que a polícia use os helicópteros
HM-3 Cougar e HA-1 Esquilo, do 1º Grupo de Aviação
do Exército, com sede em Taubaté.
"Não
temos problemas com o Exército nem com a PF",
diz Saulo. Mas ele vai pedir ao governo federal que altere
um dos pontos da minuta, para que o custo do uso dos aparelhos
seja bancado pelo Ministério da Justiça.
Pelo convênio, o ônus cabe a São Paulo.
Para utilizar o Cougar, o maior helicóptero do
Exército, São Paulo teria de desembolsar
US$ 5.060 por hora de vôo. O aparelho transporta
22 soldados, além da tripulação,
e uma carga externa de 4,5 mil quilos. Em cada lado, leva
uma metralhadora calibre 7,62 mm. Já o custo da
hora de vôo do outro aparelho oferecido para o combate
ao crime organizado, o Esquilo, é de US$ 633.
Para
Saulo, porém, mais importante que helicópteros
é a possibilidade de usar fotografias dos satélites
militares no monitoramento de áreas dominadas por
bandidos. No segundo trecho da entrevista concedida ao
Estado, o secretário conta ainda que propôs
usar a Lei de Segurança Nacional para punir os
chefes do PCC:
HELICÓPTEROS
Eles
viriam de Taubaté para o Campo de Marte e seriam
postos à disposição da polícia.
Mas quem vai custear a hora de vôo, pela minuta,
é o governo de São Paulo. O dinheiro deverá
ser recolhido ao Fundo do Exército. Seria bom,
em caso de necessidade, poder contar com o Cougar para
transportar tropas e presos, mas queremos que o Ministério
da Justiça assuma os custos.
SATÉLITE
Temos
tudo fotografado por satélite. Essa é uma
das coisas em que o Exército nos ajudará.
Temos fotos normais. O sistema é o israelense.
O satélite é pequeno, comporta poucas fotos
e passa aqui no Estado toda terça e sexta-feira.
Fizemos uma operação em Campinas assim.
Durante um mês monitoramos uma casa. Pelas fotos
víamos quando a janela ficava aberta, víamos
quando punham um vasinho para fora, coisas que mostram
que alguém mora ali.
PRIORIDADES
Queremos
usar verbas federais na digitalização dos
rádios da polícia e das impressões
digitais e para ter palmtops nas viaturas. Depois, queremos
integrar o Registro Digital de Ocorrência com o
Projeto Ômega (que faz análise de dados criminais).
Por fim, quero integrar nosso banco de dados com o da
PF. Desde que assumi, em 2002, quero isso. É só
fazer um link, precisa de um único computador e
acesso online.
LEI
DE SEGURANÇA
Vamos
usar a Lei de Segurança Nacional contra o PCC.
Eles não queriam desestabilizar o governo, o Estado?
Ora, a lei diz que é crime tentar mudar, com o
emprego de força ou grave ameaça, o Estado
de Direito ou impedir o livre exercício dos poderes
do Estado. Para o primeiro, a pena é de 3 a 15
anos de prisão, mas aumenta pela metade se há
lesão corporal e dobra com morte. No segundo, a
pena é de 2 a 6 anos. Não foi terrorismo
o que fizeram? Matar policial, quebrar o patrimônio
público... atacaram o Estado. Lei de Segurança
Nacional neles!
PÂNICO
Naquela
segunda-feira (15 de maio), a TV punha imagem de ônibus
queimado da manhã como se fosse ao vivo. A TV deu
que duas bombas explodiram no Metrô. Desmentimos
na hora, mas a informação só entrou
no telejornal seguinte. A internet deu que dois estudantes
foram mortos na frente do Santo Américo. Não
sei de onde tiraram isso. Começou uma histeria.
No colégio dos meus filhos, um monte de mãe
foi buscar as crianças. Me perguntaram: "É
pra buscar os filhos do senhor?" Disse que não.
A cidade tem de mostrar que não está acuada.
Reagimos e rápido. São 515 presos, 302 dos
ataques de maio e 213 de julho.
TRÁFICO
Sabemos
onde é vendida a coca mais pura na cidade e de
onde vem. Temos um aparelho que analisa as amostras e
pelo grau de pureza identificamos o caminho. Vem da Colômbia,
passa pelo Mato Grosso do Sul e Goiás. As armas
vêm do Paraguai.
FRONTEIRAS
O
Estado brasileiro precisa pressionar esses países
(vizinhos). Você pode, por meio diplomático
ou econômico, ter retaliação. Que
raio de Mercosul é esse? Tem de chegar para o governo
paraguaio, o colombiano, chamar esse Hugo Chávez,
sei lá quem. E a lavagem de dinheiro por meio do
Uruguai? Todo mundo sabe disso e o País não
toma uma posição. Vê se França,
EUA, Portugal ou qualquer outro não tomariam uma
decisão.
SAÍDA
Estou
na secretaria por um tempo. Em breve vou embora. (No fim
do ano?) Estou pensando no que fazer, mas a ligação
com o partido (PSDB) sempre vou ter.
PT
O
PT não vai ter peito de discutir segurança.
Quer apostar? O Mercadante (senador Aloizio Mercadante,
candidato petista ao governo do Estado) foge do pau porque
não tem proposta. O Genoino (José Genoino,
candidato ao governo estadual na eleição
passada) estudou segurança 15 anos e não
falou nada. O que a Marta fez com a Guarda Civil é
uma vergonha. Em uma sala tinha 95 assessores. O PT não
vai ter peito de discutir segurança.