Bagdá é Aquí
Escuta do PCC: 'Matem o pessoal do PSDB'
Diálogo de criminosos determinou interrogatório
de líderes da facção no Deic
Rita
Magalhães
"Matem
o pessoal do PSDB. Os irmãos que não cumprirem
a missão também ficam sujeitos à
morte." Essa foi a ordem que a Polícia Civil
interceptou na tarde de sexta-feira nos celulares de criminosos
ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
A
gravação provocou correria nas Secretarias
da Administração Penitenciária e
da Segurança Pública. Inicialmente, pensava-se
que o crime organizado tinha ordenado o assassinato de
autoridades políticas: governador e secretários
de Estado. A interceptação telefônica
levou o secretário da Administração
Penitenciária, Nagashi Furukawa, a pedir a intervenção
do Departamento Estadual de Investigações
Criminais (Deic) custodiar os oito principais líderes
da organização, entre eles o número
um, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola. O objetivo
era tentar identificar o mandante e os possíveis
executores.
O
tiro saiu pela culatra. Os líderes, transferidos
para São Paulo anteontem, permaneceram calados
e, duas horas depois da chegada de Marcola, os ataques
foram deflagrados. Nessa hora, por volta das 20h30, constatou-se
que as conversas dos criminosos faziam referência
apenas a servidores da segurança pública.
ARROGÂNCIA
Convocado
para uma conversa com o delegado Godofredo Bittencourt,
Marcola, provocou: "Eu posso entrar numa delegacia
e matar policiais. Vocês não podem entrar
no presídio para me matar." A petulância
do líder revoltou os policiais civis que fizeram
a segurança do prédio do Deic. Armados de
fuzis e metralhadoras, cerca de 50 policiais da elite
da Polícia Civil fizeram vigília na frente
do departamento para evitar ataques.
Algumas
delegacias da periferia funcionavam com efetivo reduzido.
No 40º DP (Vila Santa Maria), apenas um escrivão
e dois investigadores trabalhavam. "Se os ladrões
invadirem aqui, o que nós vamos fazer?", questionou
um plantonista.
Amedrontados,
os policiais se diziam alvos ambulantes dos criminosos.
"Estamos assistindo ao massacre de nossos colegas
e estamos de mãos atadas. O que nós podemos
fazer? Sair à caça deles com a viatura de
sirene ligada para morrermos também?", questionou
indignado um policial.
Por
volta de 1h30 de ontem, os secretários Nagashi
Furukawa e Saulo Abreu convocaram uma reunião de
emergência para definir medidas para pôr fim
aos ataques. O encontro durou quase quatro horas.
Quando
deixou a sala, o secretário da Segurança
apresentou o saldo de 21 mortos, sendo 15 policiais e
seis criminosos - números que iriam aumentar ao
longo do dia. Naquela hora, em tom de alívio, Furukawa
comentava que apenas dois presídios estavam rebelados
- logo começaria a onda de rebeliões. A
expectativa da polícia era que o cessar fogo ocorresse
com o nascer do dia, mas os ataques continuaram, atingindo
principalmente as cidades da região metropolitana
e interior do Estado.