Bagdá é Aquí
Planalto
pressiona São Paulo e
Exército já prepara operação
Marcelo
Godoy
Colaborou Tânia Monteiro
De
olho nos dividendos político-eleitorais, o Palácio
do Planalto está pressionando o governo paulista
a aceitar o uso do Exército no combate ao crime
organizado. Além das declarações
do ministro Márcio Thomaz Bastos (Justiça),
insistindo publicamente para que a Secretaria da Segurança
requisite tropas das Forças Armadas, os assessores
da Presidência da República prepararam para
esta sexta-feira um ato público inédito:
o presidente Lula vai visitar o quartel-general do Comando
Militar do Sudeste (CMSE), em São Paulo, para passar
em revista os 2.400 recrutas incorporados em julho. Ao
todo, o CMSE tem 20 mil homens.
O
Estado apurou que a visita de Lula foi decidida e comunicada
ao Comando Militar do Sudeste anteontem, exatamente quando
São Paulo amanheceu sob o impacto da terceira onda
de ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC), que já
deixou um saldo de ataques a 144 alvos, com destruição
de agências bancárias, ônibus, postos
de gasolina e delegacias e 5 pessoas mortas. Nos dois
ataques mais audaciosos, os criminosos jogaram bombas
nos prédios do Ministério Público
Estadual e da Secretaria da Fazenda. Oficialmente, o presidente
quer verificar o funcionamento do Projeto Soldado Cidadão.
Para
que Lula pudesse marcar presença em São
Paulo, ainda sob o impacto desses novos ataques, o pedido
do Planalto foi atendido com urgência e a solenidade
no CMSE, marcada para as 11 horas desta sexta. Lula nunca
visitou o quartel do Comando Militar do Sudeste. Desembarcará
em São Paulo na véspera do fim de semana
do Dia dos Pais, data em que, segundo a inteligência
policial, o PCC planeja fazer grandes ataques e rebeliões.
TRIPLA
VITÓRIA
Assim,
o governador Cláudio Lembo (PFL) está acuado.
Se não pedir o Exército e o PCC atacar no
Dia dos Pais, terá de se explicar. Sua situação
não melhora se pedir apoio. Estrategistas do Planalto
estão certos de que a convocação
do Exército pelo governador seria uma tripla vitória
para o governo federal porque: 1) Lula ganharia ao mostrar
que o governo paulista não conseguiu controlar
o PCC sozinho; 2) ganharia ao vincular a sensação
de segurança da população ao Exército
nas ruas; 3) e ganharia ainda mais caso, após o
regresso do Exército aos quartéis, o PCC
voltasse a atacar - o que funcionaria como uma espécie
de prova dos nove de que a crise de segurança paulista
não se resolve sem a ajuda da gestão de
Luiz Inácio Lula da Silva. Assunto que seria pautado
como tema do horário político-eleitoral.
Enquanto
União e Estado estão envolvidos nessa queda-de-braço
política, o Exército preparou suas tropas
para a utilização em São Paulo. Em
Brasília, uma fonte graduada disse ao Estado que,
"numa escala de zero a 10", as chances de o
Exército ser convocado "estão perto
de 10".
Algumas
unidades militares viriam de quartéis no próprio
Estado, como a da 12ª Brigada de Infantaria Leve
(Aeromóvel), sediada em Caçapava. Esses
soldados serviram duas vezes em operações
de manutenção da ordem pública no
Haiti, na missão de paz organizada pelas Nações
Unidas (ONU). Além deles, há a perspectiva
de empregar os homens da 11ª Brigada de Infantaria
Leve, com sede em Campinas, e os da Brigada Pára-Quedista,
que seriam trazidos do Rio.
Outras
tropas de emprego rápido e de grande mobilidade
poderiam ser usadas. O Exército teria, no fim,
capacidade de mobilizar até mais do que os 10 mil
homens que o ministro Márcio Thomaz Bastos disse
estarem preparados para entrar em ação no
prazo de 48 horas. Esse contingente corresponde a quase
metade dos 25 mil soldados empregados na Força
Expedicionária Brasileira (FEB) na 2ª Guerra
Mundial.
A
entrada dos militares no combate ao crime organizado em
São Paulo teria como principal função
o efeito dissuasório, ainda que temporário,
de intimidar o crime. Do ponto de vista técnico,
os componentes das Polícias Civil e Militar não
precisariam de apoio, neste momento, para a manutenção
da ordem pública, o que só ocorreria em
caso de caos completo na segurança - como na deflagração
de uma greve na PM.
O
governador e o Exército acreditam que a tropa na
rua impediria, sim, novos ataques, mas avaliam que as
raízes do problema estão na indisciplina
nas prisões e na dificuldade de cortar a comunicação
entre chefes do PCC e sua base - tudo isso continuaria
intacto. Um novo ataque do PCC, depois da ação
do Exército, fortaleceria o governo federal e enfraqueceria
politicamente o Estado. Além disso, o cliente é
que deve pagar a conta. Ou seja, quem solicita o Exército
arca com os custos.
Lembo
sabe disso, pois está em contato constante com
o general-de-exército Luiz Edmundo de Carvalho,
comandante militar do Sudeste. No caso do convênio
que permitiu ao Estado utilizar o helicóptero HM-3
Cougar, o custo de US$ 50,6 mil pelo uso do aparelho ficou
com o governo estadual.
O
emprego da tropa levanta temores entre os próprios
comandantes do Exército. Os militares temem virar
uma espécie de "patinhos em parque de diversão".
A imagem que mais os atormenta é a de uma motocicleta
com dois homens passando por um posto de comando e disparando
na tropa. Em caso de morte de um soldado, o Exército
ficará às voltas com um problema institucional
sério.
Para
os militares, os atentados cometidos pelo PCC utilizam
táticas de guerrilha e são praticados por
grupos reduzidos de pessoas. A tática para derrotá-los
deve ser policial. Por isso, teme-se o desgaste da imagem
da corporação.
INTELIGÊNCIA
Enquanto
Lembo não assina o pedido de usar as tropas, a
inteligência militar continua colhendo dados sobre
a situação no Estado. Ela está muito
bem informada sobre a situação interna da
Secretaria da Administração Penitenciária
(SAP). O Exército dispõe de uma minuciosa
análise sobre os erros e acertos administrativos
da gestão Nagashi Furukawa no combate ao crime
organizado.
Segundo
informes recebidos pela inteligência, há
problema relacionados à gestão feita por
ONGs em presídios. A frouxa disciplina interna,
mantida nos últimos anos pela omissão de
diretores de presídios quanto às ações
do PCC, levou ao fortalecimento da facção.
O grau de conhecimento do Exército sobre essa situação
surpreendeu a cúpula da SAP.
Outro
problema ligado à segurança no Estado seria
com a banda podre da polícia, que cobra propina
do PCC nas ruas. Outra análise feita é de
que a inteligência das polícias precisa ser
aprimorada, principalmente a da Polícia Civil,
que não teria capacidade para processar devidamente
as informações recebidas - a situação
na PM seria pouco melhor
Duas
reuniões já foram realizadas entre o Ministério
da Justiça e os comandos militares, para verificar
como poderia ocorrer o emprego de tropas. Mas ainda não
ficou definido se essa atuação seria só
na capital ou em todo o Estado. O comandante do Exército,
Francisco Albuquerque, limitou-se a dizer ontem que "o
Exército está sempre pronto para atuar".
Lembo
recusa tropas e diz que não assina pedido
Natália
Zonta
Se
depender da autorização do governador Cláudio
Lembo (PFL), os soldados do Exército não
devem ir para as ruas de São Paulo. Ontem, em evento
no Hospital e Maternidade Interlagos, na zona sul, ele
voltou a afirmar que não aprova a presença
das tropas. "Não quero o Exército nas
muralhas dos presídios, portanto, não assino
o ofício."
Segundo
Lembo, os militares não são necessários
e vão representar gasto para o Estado. "Gostaria
de saber, por parte de quem expôs na área
federal a presença do Exército, qual seria
o custo para São Paulo. Os helicópteros
custaram U$ 50.060,00. Quanto custaria o Exército?"
O
governador foi irônico ao retomar a questão
do repasse federal de R$ 100 milhões. "Não
estou preocupado com os R$ 100 milhões do governo
federal. Isso para São Paulo é tão
pouco." Lembo disse que a demora para liberação
está vinculada à burocracia federal. "Acho
que o dinheiro tem um simbolismo, mas não é
uma realidade. Os R$ 100 milhões não são
nada."
Mesmo
discordando do secretário da Segurança sobre
a presença do Exército, Lembo defendeu as
críticas de Saulo Abreu ao governo federal. "Toda
vez que o secretário tem falado, ele fala como
resposta, não como afirmação."
NATÁLIA ZONTA
Veteranos
do Haiti podem ser chamados
Know-how
adquirido nos morros cariocas é outro trunfo de
militares
Roberto
Godoy
O
Exército tem a tropa pronta para atuar no reforço
da segurança pública de São Paulo.
Ela poderia ser formada com o pessoal do Rio de Janeiro,
escolado pelas ações morro acima durante
a guerra das gangues.
Certamente
entrariam no contingente militares chamados entre os mais
de 3 mil de diversas unidades, que já passaram
pela Missão de Estabilização do Haiti.
É provável que o grupo especializado em
garantia da lei e da ordem da 11ª
Brigada de Infantaria Leve, de Campinas, seja convocado
pela primeira vez para a ação real. A mobilização
pode ser feita em etapas.
A
Força Terrestre intensificou nos últimos
três anos, em todo o País, o treinamento
para operações de intervenção
urbana. A experiência, no entanto, é limitada.
"O Exército não desenvolveu totalmente
a sua doutrina de emprego nessa situação",
analisa o cientista político Josué Anhert,
da Universidade do Rio Grande do Sul. Para ele, "agir
como se o o PCC fosse um grupo guerrilheiro seria a condenação
ao fracasso - mas isso, com certeza, não acontecerá,
é parte da boa lição aprendida na
prática na crise do Haiti".
Os
blindados nas ruas e a patrulha armada seriam sinais exteriores
da presença da tropa, embora o trabalho de resultado
positivo seja o de inteligência. "A polícia
de São Paulo é capaz de coletar informações,
mas perdeu a capacidade de extrair delas algo que permita
acionar o alerta antecipado, antes de uma ofensiva do
crime organizado. As Forças Armadas fazem isso
muito bem", diz um especialista do Departamento de
Inteligência da Polícia Federal.
Os
8.500 combatentes de Israel que passaram pelas rebeliões
dos territórios palestinos apenas a partir de 2002
somam conhecimento quando se trata da interferência
em cidades. Com o tempo, foram criadas equipes especiais,
armadas com fuzis de calibre .40, munição
menos agressiva do que a militar, 5.56. Tanques de 60
toneladas, armados com canhões de 120 mm, deram
lugar a blindados leves, dotados de metralhadoras. Os
soldados andam a pé entre as casas. Mas ainda vestem
coletes à prova de balas