Vídeo
mostra Farc ensinando bandidos
brasileiros a seqüestrar
Para
juiz, guerrilha pode criar bases no País para aumentar
receita com esse tipo de crime
O
juiz federal Odilon de Oliveira, de Ponta Porã,
na fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai, obteve
evidências da atuação de guerrilheiros
das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia
(Farc) no treinamento de bandidos ligados ao Primeiro
Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV) para
seqüestros. Segundo as apurações de
Oliveira, quadrilhas de narcotraficantes do Brasil são
os principais clientes da América do Sul na compra
da cocaína produzida pela facção
colombiana.
"Um
dos treinamentos foi filmado e dá para se ouvir,
no vídeo, a voz de um brasileiro", contou
o juiz. Seqüestros com fins econômicos garantem
uma receita anual de US$ 250 milhões para as Farc,
o equivalente a 25% do orçamento da facção.
O
juiz acredita que a guerrilha colombiana pode estabelecer
bases no País para fazer seqüestros, tanto
com fins econômicos como políticos. "Eles
já estão estabelecidos no Paraguai e agora
miram o Brasil, onde o potencial para esse crime é
maior", disse. "Eles treinam brasileiros lá
para agir aqui."
A
cocaína representa outros 45% da receita das Farc,
que produzem 39% da droga colombiana. Segundo Oliveira,
os traficantes brasileiros passaram a negociar com a guerrilha
a compra da droga, eliminando os intermediários
colombianos. A cocaína é levada para o Paraguai
antes de chegar ao Brasil. O pagamento é feito
em dólares ou armas de guerra.
Um
exemplo é o bando de 12 integrantes liderado por
Luiz Carlos da Rocha, o Cabeça Branca, e Carlos
Roberto da Silva, o Charles, que usava sete aviões
para levar a droga da Colômbia para o entreposto
paraguaio. Ela comprava das Farc e, em menor escala, de
produtores da Bolívia e do Peru.
A
droga entra no Brasil pela fronteira com Mato Grosso do
Sul, principalmente pelas regiões de Ponta Porã
e Corumbá, e é levada para São Paulo
e Paraná, para distribuição no País
e no exterior. De acordo com Oliveira, o tráfico
por aviões migrou para o Sul por causa da Lei do
Abate, que permite à Força Aérea
Brasileira derrubar aviões não identificados.
"A região amazônica é bastante
vigiada pelos sistemas de rastreamento de aeronaves."
Mas a cocaína também cruza a fronteira de
carro e ônibus, em pacotes de 10 a 50 quilos.
O
juiz lembra que os grandes traficantes deixaram de trabalhar
com maconha, preferindo a cocaína, que tem menor
volume e grande valor agregado. Mas cerca de 80% da maconha
que entra no Brasil sai do Paraguai, onde a produção
é dominada por brasileiros.
Odacir
Antonio Dametto, de Dourados (MS), tem 19 fazendas em
terras paraguaias usadas para produzir soja e maconha.
Extraditado, está no presídio de segurança
máxima de Campo Grande. Outro criminoso que seria
extraditado, Igor Fabrício Vieira Machado, comparsa
do traficante Fernandinho Beira-Mar, conseguiu fugir de
um presídio de Assunção assim que
soube do pedido. Teria pago US$ 50 mil para escapar.
O
juiz também tem pistas da ligação
de traficantes com o terrorismo do Oriente Médio,
a partir da prisão de bandidos de origem árabe,
como Joseph e Jorge Rafaat Toumani. "Há indícios
de remessa de dinheiro para sustentar o terrorismo."
Segundo
Oliveira, o Banco Central apontou Ponta Porã como
a segunda cidade do País em lavagem de dinheiro,
atrás de Foz do Iguaçu (PR). Ele encheu
uma sala de 12 metros quadrados com processos sobre esses
crimes. Um dos casos, envolvendo o ex-gerente de banco
Elesbão Lopes de Carvalho Filho, revelou a lavagem
de R$ 3 bilhões do tráfico. Oliveira o condenou
a 172 anos de prisão e multa de R$ 358 mil, a maior
pena já aplicada para esse crime.
O
esquema envolveu somas altíssimas depositadas em
contas de laranjas - os principais, como Rodolfo Castro
Filho e Pedro Paulo Romero, receberam R$ 1 bilhão
em semanas. O juiz suspeita que os laranjas também
estivessem a serviço de políticos.