COBERTURA ESPECIAL - Especial MOUT - Segurança

30 de Setembro, 2012 - 21:00 ( Brasília )

Os Conflitos entre ROTA x PCC


DefesaNet - Governo federal vê embate Rota-PCC Link


André Luís Woloszyn
Analista de Assuntos Estratégicos, especialista em conflitos de média e baixa intensidade


O relatório encaminhado pelo Governo Federal às autoridades paulistanas sobre o recrudescimento do conflito do PCC com a polícia militar,  especialmente com as Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, (ROTA)  não trás nenhum fato novo, nenhuma tendência que os órgãos de inteligência da segurança pública daquele estado já não soubessem. Até pelo fato de ser eles, dentro da  rede do Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN), um dos que  abastecem os órgãos regionais com dados e informações que posteriormente são canalizados à  Brasília. E, em nada mudou  a reação das autoridades, acostumadas a negar tais fatos, ou por subestimar o real poder da organização criminosa ou para não causar intranquilidade na população ou ainda, por temer um impacto político negativo. Assim tem sido desde a criação da organização em agosto de 1993, com os resultados que todos nós bem conhecemos.

Na verdade, esta tendência  de agravamento do quadro pode ser  concluída   pela  análise  cronológica  dos últimos e maiores episódios envolvendo ambos.  Em julho de 2010, a sede da ROTA e seu comandante sofreram atentados com disparos de armas de fogo supostamente por integrantes do PCC, um fato até então isolado.  Em maio deste ano, uma Operação da ROTA matou seis integrantes da organização  em um bar na zona leste de São Paulo.  Em junho, como retaliação,  o PCC iniciou uma série de atentados contra  postos da polícia,  tendo como principal  alvo policiais militares de folga, em diferentes bairros da grande São Paulo, resultando na morte de pelos menos 11 PM e diversos veículos incendiados.  No mês de agosto, o PCC dá um recado às  autoridades divulgando a reformulação de seu Estatuto, incluindo a cláusula 18 que expressa “Vida se paga com vida, e sangue se paga com sangue”, uma alusão a Lei de Talião “olho por olho, dente por dente”.

Em setembro,  uma nova Operação da ROTA para impedir  um suposto julgamento do tribunal do crime, em Várzea Grande, resultou na morte de nove integrantes do PCC que segundo a polícia, teriam reagido  a ação policial.  Nesta conjuntura, a execução do ex policial militar, Florisvaldo de Oliveira, conhecido como Cabo Bruno,  pode perfeitamente  se  encaixar na  tese de mais uma  vingança do grupo, uma vez que ele era a personificação do mal, uma espécie de Bin Laden para grande parte da população carcerária que comemorou sua morte.

Da  mesma forma, a  estratégia adotada pelo PCC não é  nova, sendo utilizada em conflitos assimétricos e uma tática de guerrilha  baseada nas vulnerabilidades dos alvos, situação que foi amplamente explorada  nos ataques de 2006. Como é mais difícil atacar integrantes da  ROTA que geralmente atuam em grupos reforçados com poder de fogo concentrado, os alvos mais fáceis acabam sendo policiais militares isolados, “os lobos solitários” que estão fora do serviço e consequentemente mais relaxados.  Poderíamos  afirmar que estamos diante de uma queda de braços, que para uma das partes, significa manter o poder de resposta, a mística e a união do grupo enquanto para outra,  além do mantenimento da tranquilidade e da paz pública, está em jogo sua  credibilidade perante a opinião pública  na  resolução  de conflitos desta natureza.  

O  certo é que quanto mais ações  repressivas  de parte do aparelho estatal,  maior   serão  as retaliações de grupos criminosos envolvidos, especialmente se estes possuírem organização e  efetivo para tal,  como no caso em questão, fenômeno semelhante ao que vem ocorrendo no México no combate aos cartéis de drogas. Isto obviamente não significa que qualquer abuso cometido pelas forças policiais deva ser tolerado. Mas, em tais circunstâncias, fica claro que as organizações criminosas possuem  certa vantagem  pois agem em um caráter de total anomia enquanto o aparato estatal, tem a sua frente os limites impostos pelo  estado democrático de direito.  Este é o principal fator de desequilíbrio que se aprofunda em crises e conflitos sistemáticos e cuja tendência, é de fato a de recrudescimento, como profetizou o relatório.



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