COBERTURA ESPECIAL - Especial MOUT - Defesa

08 de Agosto, 2016 - 10:30 ( Brasília )

MOUT - Guerra no Rio Grande do Norte

Ataques em série do crime organizado, em resposta a mudanças no sistema penitenciário, instalam um clima de terror nas cidades potiguares

 Camila Brandalise e Fernanda Mello


A massoterapeuta Janaina Barreto, 34 anos, jantava com a família na noite de sábado 30, em São Paulo do Potengi, a 75 quilômetros de Natal, no Rio Grande do Norte, quando a fumaça vinda de um ônibus em chamas, a 40 metros dali, começou a invadir os cômodos de sua casa.

Ouviam-se gritos vindos da rua, onde pessoas corriam sem rumo, desesperadas. “Ficamos em pânico, não sabíamos o que fazer”, diz Janaina. “Estamos vivendo uma situação de terrorismo.” Um dia depois, a paisagem mais famosa da capital potiguar foi alvo de um incêndio criminoso. Das janelas dos prédios era possível ver o Morro do Careca, na praia da Ponta Negra, pegando fogo, assustando moradores e turistas.

Também no domingo 31, um carro explodiu no estacionamento de um hipermercado. Esses foram três dos mais de cem ataques que ocorreram desde que a Secretaria de Segurança Pública decidiu instalar bloqueadores de celular na Penitenciária Estadual de Parnamirim, na Grande Natal. Em represália, os criminosos passaram a organizar uma série de ataques e têm instaurado o pânico no Estado.

Áudios circulam pelo aplicativo de mensagens Whatsapp com ameaças de atentados em escolas, prédios públicos e estabelecimentos comerciais. Na segunda-feira 1º, aulas das redes pública e privada foram suspensas em várias cidades, e faculdades adiaram o início das aulas. O medo se tornou uma constante e o clima é de guerra.

Cenário Modificado

Na quarta-feira 3, tropas do Exército chegaram a Natal para auxiliar as polícias civil e militar a conter os ataques e prender suspeitos de envolvimento com os crimes. O cenário da cidade mudou. Antes pacífico e acolhedor, o destino de dois milhões de turistas por ano agora tem militares armados por ruas, avenidas, bairros periféricos e praias.

Foi com esse quadro que o comerciante André Henrique Silva, 41 anos, dono de um quiosque na praia de Ponta Negra, se deparou ao chegar para trabalhar na quinta-feira 4. “Eu nunca tinha visto militares aqui. As pessoas se assustam com essa cena.

Dá um ar de segurança para a gente que é morador, mas para o turista é impactante”, afirma. As ruas têm ficado desertas depois das 19h. No interior, até o hábito de colocar as cadeiras na calçada para conversar com os vizinhos foi deixado de lado. Mais de 30 cidades já foram palco de ações criminosas. “Eu me sinto no meio de uma guerra. Se a situação só será normalizada com o Exército aqui, como fica depois que eles forem embora? Me parece uma medida paliativa”, diz a empresária Luciana Cavalcante, 43 anos.

Membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Ricardo Balestreri acredita que tanto o bloqueio de celulares nos presídios quanto a convocação do Exército foram medidas corretas, mas, de fato, é preciso pensar em como controlar a longo prazo o avanço do crime organizado no Estado. A organização delinquecial que está por trás da atual onda de ataques ainda é incipiente.

Apesar de ter crescido nos últimos anos, não tem o mesmo armamento visto nas facções do Rio de Janeiro e de São Paulo. Mas, por ser dissidente de grupo criminoso paulista, tem conhecimento estratégico para agir de maneira similar. “Esse grupo, apesar de não ser tão aparelhado, sabe operar. Eles queimam ônibus, inviabilizando o transporte público, incendeiam pontos turísticos e propagam mensagens de terror pela internet, fazendo estabelecimentos fecharem”, afirma Balestreri, que foi secretário nacional de Segurança Pública entre 2008 e 2009.

Para o especialista, a situação atual da segurança no Estado é resultado de anos de negligência com o sistema prisional. “Os presídios estão superlotados e não se investe em formação dos agentes e policiais”, diz. “Além disso, misturam-se criminosos de alta e baixa periculosidade nas prisões, o que colabora para que nasça uma organização com um líder de caráter psicopático que constrange os demais a fazerem o que ele manda, dentro e fora da prisão.”

Panela de Pressão

A situação atual é, portanto, conseqüência de uma complexa estrutura que Balestrini classifica como “panela de pressão”, sendo a instalação dos bloqueadores de celular a gota d´água. Já segundo o secretário de Segurança Pública do Rio Grande do Norte, Ronaldo Lundgren, os ataques são uma resposta a uma série de medidas que vêm sendo tomadas pelo governo para desmantelar organizações criminosas nas penitenciárias, como transferência de presos e revistas mais severas e frequentes, além dos bloqueadores.

Apesar de as medidas terem resultado em atentados que comprometem a vida de milhares de pessoas, o governo não vai recuar. “Vamos endurecer ainda mais a repressão e nenhum passo para trás será dado”, diz Lundgren. Ainda de acordo com o secretário, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), tomada na quarta-feira 3, de que apenas a União pode bloquear o uso de celulares em presídios, não vai afetar a deliberação no Estado, uma vez que só Bahia, Mato Grosso do Sul, Paraná e Santa Catarina estão envolvidos no processo em questão.

Enquanto a criminalidade não recrudesce, a população continua sendo a maior atingida. O auxiliar de serviços gerais Francisco Joaquim Nascimento, 48 anos, mora em Nova Natal, na zona norte da capital, e trabalha em Ponta Negra, na zona sul. Ele costuma ir para o trabalho de ônibus, mas, desde que começaram os ataques e o transporte público passou a operar com frota e horário reduzidos, o percurso de pouco mais de 25 quilômetros é feito de bicicleta. “Não posso faltar e nem chegar atrasado, então venho de bicicleta. Saio de casa 4h40 e chego no trabalho às 6h20.

É cansativo, mas é melhor fazer isso do que perder o emprego”, diz. Casado e pai de dois filhos, ele tem receio de voltar a andar de ônibus por causa dos recentes atentados. “A gente tem medo de chegar alguém e colocar fogo com todo mundo dentro, apesar de dizerem que não vão atacar a sociedade”, afirma.

O editor de imagens João Gabriel, 29 anos, chegou a criar uma espécie de toque de recolher em casa. “Tínhamos o hábito de ficar com as crianças na calçada no fim da tarde. Mas agora vai todo mundo para dentro logo cedo. A rua fica deserta e só saímos se for realmente necessário”, diz. “Nós estamos presos porque presidiários conseguem dar ordens para uma barbárie acontecer aqui fora. Não vejo a hora de isso acabar.”

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