COBERTURA ESPECIAL - Especial MOUT - Segurança

21 de Abril, 2014 - 19:57 ( Brasília )

MARÉ - Gen Escoto:Usaremos Inteligência para pegar bandidos


Publicado em O Dia 21 ABR 14

Angélica Fernandes
e Vania Cunha

 

Rio - Diante de uma ocupação atípica, com episódios de ataques às tropas militares e confrontos diários no Complexo da Maré, o general-de-brigada Roberto Escoto, comandante da Força de Pacificação, planeja mudanças estratégicas para enfrentar os criminosos. Os próximos passos serão baseados em um levantamento do serviço de inteligência, em conjunto com as polícias Militar, Civil e Federal.

A iniciativa mapeia locais que possam estar traficantes, armamentos e drogas. Em entrevista exclusiva ao DIA, o general garante que a tecnologia é sua grande aliada para concluir a missão de pacificação da Maré. As operações já contam com um ‘drone’ e um helicóptero águia, que transmitem imagens em tempo real para o Centro de Comando e Controle da Força. E, nas ruas, os soldados usam óculos de visão noturna e miras holográficas acopladas nas armas, que garantem precisão nos tiros.

O DIA: Desde o início da pacificação, as tropas estão sofrendo ataques constantes de bandidos. Como a Força de Pacificação tem encarado estes conflitos?
General ESCOTO: O ataque é resultado da postura proativa da nossa tropa. Nós fazemos um patrulhamento ostensivo de saturação: são 24 horas por dia e sete vezes por semana. Isso causa um sufocamento das facções criminosas que acabam se sentindo acuadas e reagem. Nós estamos tirando a liberdade de ação que eles tinham no passado e nosso objetivo é suprimir completamente esta liberdade.

Haverá alguma mudança de estratégia no policiamento?
Temos uma central de Inteligência muito bem constituída com articulações conjuntas entre as polícias Militar, Civil e Federal. É um trabalho progressivo e nós já temos dados que certamente vão nos levar a realização de operações maiores, em relação às operações que já conduzimos. Com o levantamento mais detalhado da Inteligência, vamos fazer operações pontuais, de precisão cirúrgica em um determinado local onde a gente tenha dados fortes de que ali estão escondidos traficantes, drogas e muito armamento pesado.

Duas mortes já foram registradas na comunidade em menos de duas semanas. Como as tropas estão sendo orientadas a agir?
A primeira morte, do Jefferson Rodrigues, já foi amplamente divulgado que ele e mais um outro dispararam contra nossa tropa. De acordo com a nossa regra de engajamento, que vem do Ministério da Defesa, quando há um ato hostil utilizando armamento letal contra a tropa, nós temos liberdade de ação para também fazer disparos com arma de fogo para proteger a tropa ou até mesmo terceiros. Quero deixar claro que nós não atiramos para matar. Nossa missão é prender traficantes, apreender drogas e armamentos. Agora, num confronto desses é inevitável que muitas vezes o disparo acabe causando óbito. A morte da Terezinha Justino, na última segunda, também já foi levantada pela nossa Inteligência. Não houve incidente com a nossa tropa, exceto aquelas viaturas da PM que circularam na área onde ocorreram os disparos. A investigação está sendo feita.

Como é a convivência com os moradores?
Logo que chegamos foi um choque para eles, mas um choque positivo. Eu entendo que a população sofre uma mudança radical de um ambiente que era totalmente dominado pelo tráfico e agora passa a ser dominado pelas Forças de Segurança. Mas já notamos uma mudança de atitude dos moradores em relação à tropa. Com o disque-pacificação, lançado na quarta-feira, eles têm uma aproximação maior conosco.

Quantas denúncias já foram recebidas pelo disque e o que está sendo feito com as informações?
Até sexta-feira foram 26 denúncias contundentes. O disque é uma ferramenta poderosa operada diretamente por nós. Tudo é aproveitado pela Inteligência. Contamos com apoio dos moradores para as denúncias de todos os tipos e garantimos o anonimato deles.

Os militares já conseguiram identificar de onde está partindo a ordem para a resistência dos traficantes?
Já temos levantamento de lideranças de diversos níveis e sabemos que ainda há líderes presentes na comunidade. É óbvio que eles não vão abandonar completamente a área porque é um negócio que gera muito dinheiro. Se eles abandonarem, outra facção vai assumir. Existe essa rivalidade e isso é uma complexidade de lá. Mas essa briga entre eles está sendo muito mais difícil porque estamos na área.

O que difere a pacificação no Complexo do Alemão, em 2010, da Maré?
O Alemão era comandado por uma única facção e, a Maré, tem três atuações: o Comando Vermelho, Terceiro Comando e a milícia. E também cada facção criminosa tem uma conduta diferente. Às vezes, o chefe do tráfico adota uma postura de baixo perfil e prefere não incomodar a tropa apostando que ela será menos agressiva com eles. Aqui tem sido diferente porque eles estão se sentindo muito acuados. Eles até tentam hostilizar a tropa, na esperança que tomemos uma postura reativa, mas é exatamente o que nós não faremos.

O que foi aproveitado da pacificação do Alemão que está sendo usado na Maré?
Estamos aprimorando a tecnologia. Já utilizávamos algumas coisas no Alemão, mas para a Maré estamos investindo mesmo. Temos um helicóptero águia, que filma em visão termal. Ele identifica o movimento de pessoas dentro de veículos pelo calor do corpo. Também utilizamos um ‘drone’, que no céu se confunde com um pássaro. Os militares usam um óculos de visão noturna, que permite enxergar à noite como se fosse dia, e também utilizam miras holográficas nas armas, que facilitam a pontaria e evitam disparos errados.

Uma reportagem do DIA na semana retrasada mostrou as condições do alojamento dos militares no Batalhão de Infantaria Blindada, onde faltava parte do telhado e havia infiltrações nas paredes.Alguma melhoria está prevista para eles?
Qualquer primeiro contingente que chega passa por isso, mas é normal em qualquer Exército no mundo. A estrutura logística vai sendo melhorada a cada dia e isso é igual em qualquer tropa, por mais dinheiro que ela tenha. Você não monta uma base com barracas com ar-condicionado e conforto num piscar de olhos. Nossa tropa já está acostumada com essas condições porque ela é empregada em qualquer parte do território brasileiro. Na Amazônia, não tem conforto nenhum. Você fica dormindo numa rede, no molhado, porque chove muito. Aqui houve sim, nos primeiros dias, uma dificuldade, mas agora o quadro já está completamente diferente. O Exército e a Marinha têm feito um esforço enorme para melhorar.Quando o segundo contingente chegar, já teremos bases com barracas climatizadas com ar-condicionado e alguns contêineres.
 



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