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Série
Missão Haiti 2007
5 -
O Uruguai na Missão de Paz no Haiti
Kaiser
Konrad
Enviado especial ao Haiti |
Defesa@Net
acompanha com exclusividade operação
de um dos melhores contingentes da Minustah
Nos três anos de mandato da Missão
das Nações Unidas para a Estabilização
do Haiti, essa foi a primeira vez que um repórter
brasileiro participou de uma missão
real com o exército uruguaio. |
Porto Príncipe
- Um dos menores países da América
do Sul, o Uruguai possui as forças armadas
com maior participação em operações
de paz de todo o continente. Fazendo uma relação
entre o efetivo total de seu exército e os
que se encontram em missão no exterior, o
país mantém o maior número
de militares em missões de paz. São
mais de dois mil soldados em operação
no Congo e Haiti. Não importa o tipo de missão
ou a dificuldade do teatro de operações,
os uruguaios sempre estão presentes.
É difícil
para um país pequeno e de escassos recursos
financeiros manter uma tropa bem treinada e equipada.
A solução encontrada pelo Uruguai
foi participar de quase todas as missões
de paz a que foi convidado. Estima-se que pelo menos
75% dos seus militares profissionais já tenham
participado de alguma missão das Nações
Unidas.
Além de ter
o Subcomandante da Força, o General Raúl
Gloodtdofsky, o Uruguai participa com o segundo
maior contingente militar da Minustah. São
1133 soldados operando nas regiões de Les
Cayes e Porto Príncipe.
Nas proximidades
da base do Grupamento Operativo de Fuzileiros Navais
do Brasil encontra-se a Companhia de Fuzileiros
Mecanizada Alfa, que é oriunda do Batalhão
General Leonardo Oliveira de Infantaria Mecanizada
n° 12, da cidade de Rocha, e também da
Companhia San Miguel, de Chuí, ambas cidades
localizadas na fronteira com o Brasil. Nessa Cia.
existem soldados brasileiros e vários outros
com familiares residentes no Rio Grande do Sul.
A Cia Alfa mantém
um efetivo de 157 militares e está subordinada
em sua zona de ação ao batalhão
brasileiro. Tem a responsabilidade de patrulhar
a área que vai do norte da pista do aeroporto
à rua Delmas 33, uma das mais movimentadas
da região. Para isso, está equipada
com 17 viaturas blindadas de transporte de pessoal
APC OT-64 – nas versões M-63 sem e
M-94 com torreta e uma adaptada como ambulância
- compradas da República Tcheca, caminhões
Ural e três veículos leves russos UAZ.
O comandante da
Cia Alfa é o Major Tomás Coelho. Natural
de Paissandú, na fronteira com a Argentina,
o oficial de 44 anos está pela segunda vez
no Haiti e fez parte do batalhão uruguaio
na missão de paz em Angola.
Com uma tropa bem
experiente – 42 militares já estiveram
anteriormente no Haiti e outros 120 participaram
de pelo menos uma missão de paz – o
Major Coelho não tem tido grandes problemas.
Como todas as tropas que operam na capital, passou
recentemente a realizar patrulhas a pé e
neste contingente ainda não teve seu batismo
de fogo.
Mas não foi
sempre assim. No início da missão
os uruguaios por terem a viatura blindada mais pesada,
equipada com um canhão anti-tanque 14.5 mm
e outro 7.62 mm na torreta, eram constantemente
solicitados a prestar apoio de fogo a diversos contingentes
em situações delicadas onde o combate
com as gangues era feroz.
Todos os fuzis utilizados
no Haiti são do modelo FAL 7.62mm fabricados
na Argentina em 1980. Com quase trinta anos de operação
estas armas deverão ser substituídas
em breve e padronizadas no calibre 5.56mm, uma tendência
internacional e que deverá ser seguida também
pelo Brasil.
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O Major Tomás
:“Aqui estamos subordinados ao Batalhão
Haiti, as ordens que recebemos são sempre
discutidas e as ações bem planejadas,
o comando brasileiro é diferente de qualquer
outro a que estive subordinado em missões
de paz." |
O Major Tomás Coelho é
admirador dos soldados e equipamentos brasileiros.
“Aqui estamos subordinados ao Batalhão
Haiti, as ordens que recebemos são sempre
discutidas e as ações bem planejadas,
o comando brasileiro é diferente de qualquer
outro a que estive subordinado em missões
de paz. Gosto muito dos blindados Urutu, queria
estar operando alguns deles aqui”, conta o
oficial que já comandou a tropa da Cia. San
Miguel nos desfiles militares de 7 de Setembro,
em Chuí e Pelotas, RS.

A Base Uruguay 1 com vários carros
OT-64
Uma
patrulha com a Companhia de
Fuzileiros Mecanizada Alfa |
05:30
Zulu - Porto Príncipe - O dia recém
começava a nascer em Porto Príncipe
e eu já estava pronto na Sala de Estado da
Base Raquel de Queiroz do Grupamento Operativo de
Fuzileiros Navais. De repente, o sentinela alerta
pelo rádio que dois capacetes-azuis estão
em frente ao portão: - “Atenção
“cometa”, avise o repórter que
a escolta dele já está pronta para
levá-lo à base dos hermanos”.
Coloco meu pesado
capacete e colete à prova de balas e vou
para o portão. Seguimos por uma trilha que
passa em frente da base brasileira e acaba num portão
guarnecido por soldados guatemaltecos. Lá,
encontro os blindados já preparados, só
me esperando para a patrulha começar. Apresento-me
ao Major Coelho, comandante da Cia. Alfa e subo
na veículo precursor.
Os dois blindados
seguem em velocidade reduzida pelas principais ruas
de sua zona de ação. O trânsito
quase pára toda vez que passamos. “O
OT-64 é um blindado muito grande e pesado
para as ruas de Porto Príncipe, gostaria
de um Urutu ou um veículo blindado mais leve”,
conta o Major Coelho.
Dentro do blindado
o calor é infernal e o barulho do motor é
muito alto. Tenho dificuldade de conversar com os
soldados. Preparo minha câmera e me levanto
para fazer algumas fotos, aí começa
meu martírio – “Seguridad, seguridad,
señor”, sento de novo. Em 15 minutos
ouço o Teniente Blanco falar isso três
vezes e desisto de me levantar novamente, me contentando
em observar tudo através de uma escotilha
localizada na porta traseira. Blanco é um
sujeito estranho, com bigode e um sotaque engraçado,
até parece adepto do vudu, pois foge todas
as vezes que tento fotografá-lo.
O Teniente Blanco
tinha bons motivos para recear pela minha segurança.
Em 2005 um desses blindados se acidentou e causou
a única baixa uruguaia nessa missão.
Em 23 de dezembro de 2006, durante uma patrulha
na área de Bois Neuf, um OT-64 foi atacado
de diversas posições, “identificávamos
o local dos disparos e respondíamos com nosso
canhão 7.62mm. Os tiros silenciavam e de
repente começam em outro local. Para piorar,
nosso carro pára, o motor enguiça
e ficamos no meio do fogo cruzado. Os tiros ricocheteavam
na blindagem do veículo e o barulho era insurdecedor;
entramos em pânico, estávamos em meio
à guerra e não tínhamos o que
fazer. Nosso capitão disse: “ou saímos
ou morreremos aqui”, pedimos apoio urgente
às tropas da Minustah que estavam próximas.
Tivemos que abandonar o veículo deixando
armas e farta munição”, conta
um militar que não quis se identificar.
No dia seguinte,
numa missão de alto-risco, integrantes da
Equipe de Comandos Anfíbios do Corpo de Fuzileiros
Navais do Brasil resgatou a viatura uruguaia que
havia sido incendiada com coquetéis Molotov.
Todo o armamento embarcado desapareceu.
Chegamos na rua
Delmas 33, os blindados estacionam e nos preparamos
para a patrulha a pé. As patrulhas mecanizadas
são compostas por 23 soldados e as a pé
por 9. Deixamos 14 soldados para fazerem a segurança
do veículo e seguimos em direção
à vielas muito pouco movimentadas. Caminhamos
distribuídos em duas colunas, devagar e em
silêncio,
Acompanhado pelo comandante da companhia, fico na
última fileira, na frente de um soldado que
guarnece nossa retaguarda. Algumas dessas vielas
e ruas não possuem calçamento, tenho
que desviar de buracos e pedras.
A patrulha sobe
um encosta onde posso ter uma idéia geral
da área de responsabilidade do Uruguai. É
uma zona diferente das demais, onde se poder ver
belas casas, comércio e muitos estudantes
uniformizados. “Aqui é tranqüilo”,
disse o Major Coelho, “mas meus soldados estão
atentos e prontos para garantir nossa segurança
e a dos cidadãos haitianos”, completa.
Caminhamos por mais 30 minutos e as mesmas cenas
se repetem. Voltamos para os blindados e continuamos
a patrulha mecanizada. Os OT-64 são tão
pesados que têm dificuldade em subir ruas
mais íngremes. Chegamos em frente à
base da polícia chinesa, onde observamos
o trânsito e os pedestres. Os chineses têm
a presença mais misteriosa da Minustah. Não
mantêm relações diplomáticas
com o Haiti, já que esse reconhece Taiwan.
Seus policiais carregam muito dinheiro e sempre
que se envolvem num acidente de trânsito com
veículos haitianos pagam os estragos na hora.
Tenho perguntado durante minha estada no país
qual é o interesse da China no Haiti, a resposta
que mais ouço é que aqui ela tem a
oportunidade de construir uma base com diversas
antenas e equipamentos sensíveis, isso tudo
bem no quintal dos Estados Unidos. Está explicado.
Após mais
de duas horas de patrulha, já é hora
de voltar para a base uruguaia. No caminho encontramos
um comboio da Cia de Engenharia brasileira, os militares
acenam e sorriem. De volta à base, a missão
estava finalizada. Cumprimentos, abraços
e um bom chimarrão com os simpáticos
“hermanos” encerraram minha manhã
e mais essa reportagem especial da Missão
Haiti 2007.
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