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Série
Missão Haiti 2007
1 -
Uma missão de Estado
Kaiser
Konrad
Enviado especial ao Haiti |
A participação
de tropas brasileiras na missão de paz no
Haiti tem grande importância na política
externa e também na projeção
da imagem do país. A manutenção
de nossos soldados no solo haitiano, não
representa somente a ambição do Brasil
em possuir um assento permanente no Conselho de
Segurança da ONU, mas, também, mostrar
a força e o ideal fraternal brasileiro na
sua principal Zona de Influência, a América
Latina.
Nesses três
anos de missão foram enviados ao Haiti mais
de 10 mil soldados. Todos estiveram num Teatro de
Operações urbano e muito deles adquiriram
experiência real em combate, o que é
de extrema importância tendo em vista possíveis
operações de Garantia
da Lei e da Ordem (GLO), em cidades
brasileiras. Novas doutrinas de emprego dos blindados
Urutu em área urbana foram incorporadas à
Força, inclusive mudanças técnicas
tiveram de ser implementadas nos veículos
para o cumprimento de determinadas missões
neste tipo de ambiente.
Também, a
missão de paz no Haiti possibilitou ao Brasil,
ocupar, pela primeira vez, o comando de um exército
multinacional. Diferentes culturas, idiomas e contendas
regionais foram postas de lado por um ideal maior,
o do trabalho conjunto com a finalidade de assegurar
a paz nesse miserável país caribenho.
Além de ter a participação
de países de outros continentes, a missão
de paz no Haiti mantém efetivos militares
de quase todas as nações da América
do Sul. A principal exceção é
a Venezuela, que não reconhece a MINUSTAH,
mas mantém um pequeno efetivo de seu exército,
a Cia. de Engenharia Simon Bolívar, fruto
dos entendimentos cada vez mais profundos entre
os presidentes da venezuela e do Haiti, Chávez
e Préval, marcando a presença do “bolivarianismo”
na ilha.
A tropa brasileira
O 7º
Contingente Brasileiro no Haiti – Força
Pampa - é nucleado por dois
batalhões do Rio Grande do Sul. O 29º
Batalhão de Infantaria Blindado (BIB),
de Santa Maria, e o 7º Batalhão
de Infantaria Blindado (BIB), de Santa
Cruz, além de outros militares da área
do Comando Militar do Sul e um Destacamento
de Operações de Forças Especiais,
de Goiânia. Também participa da missão
o 5º contingente da Cia. de Engenharia de Força
de Paz, composta por membros de 41 unidades de engenharia
de todo o Exército Brasileiro. Subordinado
ao Batalhão Haiti, a Marinha do Brasil contribui
com um Grupamento Operativo de Fuzileiros
Navais, nucleado no 3° Batalhão
de Infantaria - Paissandú.
Cada contingente
brasileiro deixa no Haiti a marca da região
de onde vem. A “gauchada” que veio do
interior do Rio Grande do Sul trouxe seus hábitos
característicos. O churrasco, o chimarrão
e a música gaudéria estão sempre
presentes nos momentos de lazer. Até no contingente
uruguaio que está em Porto Príncipe
pude encontrar o soldado Oliveira, natural do Chuí
(RS). “A cultura forte e a tradição
militar” são marcantes nesse contingente,
afirma o Force Commander, General de Brigada Carlos
Alberto Santos Cruz, gaúcho de Rio Grande.
Apesar das peculiaridades
regionais, todos estão no Haiti representando
um único povo, o brasileiro. Após
7 contingentes as marcas deixadas pelo Brasil junto
à população haitiana são
evidentes. A recepção calorosa por
parte da maioria dos haitianos aos nossos soldados
é um exemplo disso. As crianças haitianas
se agarram nas pernas dos militares brasileiros
e gritam “Brésil, Brésil”.
Quando uma patrulha
passa pelas caóticas avenidas da capital
ou mesmo através das vielas mais retiradas,
é comum serem vistos abanos, sinais de positivo,
aprovação e sorrisos. Manifestações
como essas quase não são vistas por
contingentes estrangeiros, principalmente àqueles
que são mais belicosos, que em seus países
de origem não aprenderam a respeitar povos
indefesos, vítimas da miséria, doenças
e, sobretudo, do abandono do seu próprio
povo e da comunidade internacional.
“Alguns países
querem saber qual é a estratégia usada
pelo Brasil nessa missão de paz, mas não
existe estratégia alguma, é o “feeling”
do brasileiro, o calor humano e o respeito fraternal
que nosso soldado trouxe para cá. Tudo isso
faz uma diferença enorme”, afirma o
Comandante da 1ª Divisão de Exército,
General de Divisão Rui Monarca da Silveira.
País
inspira tranquilidade
A situação
de segurança em Porto Príncipe, apesar
de ainda ser delicada, é o grande trunfo
do Brasil. A forma como foi realizado o comando
e a gerência deverá ser modelo em futuras
missões deste tipo. No entanto, se sabe que
a aparente calma que predomina hoje é o reflexo
da presença das tropas nas ruas. O crime
ainda existe, mas em menor escala. As gangues sabem
que continuar confrontando as forças de paz
acarretará seu fim, morte ou prisão
de seus integrantes, então enterraram a maior
parte de seus armamentos e fugiram para cidades
do interior à espera da retirada definitiva
das tropas da ONU, para assim retornar e ocupar
suas antigas posições e ações
criminosas.
A Polícia
Nacional Haitiana ainda possui um quadro de pessoal
insuficiente, pouco treinado, equipado e na maioria
das vezes corrupto. Recentemente começaram
a realizar patrulhas conjuntas com a força
militar da MINUSTAH. Agora, toda a prisão
e vasculhamento em residências deverá
ser feito pela PNH, que tem a obrigação
de levar à Justiça os delinqüentes.
“Por um lado é bom, significa que o
país está começando a andar
com as próprias pernas e as instituições
começam a funcionar”, afirma um oficial
que não quer se identificar. “Por outro,
tem atrapalhado um pouco nosso trabalho, até
parece Operação Rio”.
O treinamento dos
militares brasileiros é destaque em comparação
a outros contingentes. Todos conhecem as regras
de engajamento impostas pelas Nações
Unidas. A preparação é muito
massificada para que o indivíduo chegue à
missão preparado psicológica, física
e operacionalmente.
Atualmente o responsável
por isso é o General de Brigada Williams
José Soares, Comandante da 9ª
Brigada de Infantaria Motorizada (ES),
que prepara o 8º Contingente
que chega ao Haiti no fim do ano. O General Soares,
que conhece muito bem o teatro de operações
haitiano - já integrou a missão quando
era Coronel – é segundo fontes militares,
um dos mais fortes candidatos à indicação
pelo Exército Brasileiro à ONU ao
cargo de Force Commander no próximo ano.
Paraguaios
e brasileiros juntos pela paz
O Batalhão
Haiti tem a participação de um pelotão
de militares profissionais das três forças
armadas do Paraguai. Armados e equipados pelo Exército
Brasileiro, estão operando dentro da 2ª
Cia. de Força de Paz, no Forte Nacional.
O Capitão de Corveta Luis Amílcar
Vera trabalha como oficial de ligação
do batalhão brasileiro junto às forças
de língua espanhola. Foi convidado a participar
da força de paz em abril deste ano, quando
servia no Centro de Operações de Paz.
“Brasileiros
e Paraguaios trabalham unidos pela reconstrução
do Haiti”, conta o militar que já está
familiarizado à tropa e aos costumes brasileiros.
“Já estou falando português
e alguns brasileiros também estão
se aventurando no guarani. Os paraguaios têm
muito que aprender com os militares do Brasil. Tenho
orgulho de fazer parte do melhor exército
da América Latina”, finaliza.
Uma batalha
pela Justiça
Foi em Cité
Soleil, refúgio das principais gangues armadas
da capital que aconteceram os principais combates
da missão. Também foi nesse bairro
que a MINUSTAH sofreu o maior número de baixas.
No início deste ano, uma série de
operações multinacionais coordenadas
pelo Batalhão Haiti foi realizada tendo a
participação, inclusive, de colunas
de blindados jordanianos M113 que transportavam
soldados do Brasil com apoio aéreo de helicópteros
argentinos, que faziam imagens de toda a operação,
batizada
como Jauru Sudamericano.
A difícil
batalha pela conquista da Casa Azul foi um dos momentos
mais marcantes da missão e se tornou o símbolo
do recomeço e da presença do Estado
de Direito no local, pois ao seu lado foi construído
um Tribunal de Paz, levando a Justiça para
uma população que até então
era marginalizada pelo próprio governo.
Ensinando
cidadania
Um dos projetos
mais importantes implementados pelo Batalhão
Brasileiro é o da Colônia de Férias.
Realizada em Cite Militaire, reúne algumas
dezenas de crianças escolhidas no bairro,
que aprendem pintura, música, brincadeiras
e higienização. Professores haitianos
foram contratados para ministrar as aulas que são
bem concorridas.
ACISO
A realização
de Ações Cívico-Sociais
(ACISO) é a característica das forças
armadas brasileiras, que vêm de um país
sofrido cuja população de miseráveis
ultrapassa em quatro vezes o total de habitantes
do Haiti. Ninguém, nunca, poderá ter
idéia do quanto é importante o trabalho
desempenhado por nossos militares nesse país
se não acompanhar uma ação
cívico-social.
As Nações
Unidas e particularmente o governo americano são
contra esse tipo de atividade por achar que é
dever das forças de paz prover exclusivamente
a segurança e não fazer o que caracterizam
como “ajuda humanitária”, que
deve ser realizada apenas por ONGs. Diferente da
última, as ACISO são organizadas pela
tropa e com recursos próprios.
Ao acompanhar uma
ACISO dos Fuzileiros Navais em Bois Neuf (assista
a apresentação de vídeo),
senti o quanto é árduo o trabalho
dos nossos militares. Ver o desespero das crianças
famintas e dos adultos doentes leva à reflexão
de como é bom viver no Brasil. Nesses locais
é comum conhecer jovens haitianos que já
falam português, conseqüência do
caloroso contato que existe entre essas populações
e nossos soldados durante essas ações.
“Nessa ocasião, distribuímos
à população mais de 500 refeições
quentes, 10 mil litros de água potável
e realizamos mais de uma centena de atendimentos
médicos”, afirma o Capitão de
Corveta Fuzileiro Naval André Dominguez Freitas.
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