|
Missão
Antártida 2008
III
- O Gordo na Antártida –
A participação da FAB
no PROANTAR
Reportagem:
Kaiser
Konrad
Fotos: Diógenes Alvares
Enviados especiais à Antártida
|
Todos os anos
no inverno, o mar nas proximidades da Estação
Antártica Comandante Ferraz está
congelado, o que impede a navegação
do Navio de Apoio Oceanográfico
Ary Rongel. A solução para
manter o apoio logístico e o reabastecimento
da Estação é o lançamento
de carga de pára-quedas pelos Hércules
C-130H. Durante as Operações
Antárticas estão previstos sete
vôos de apoio. Já são 25 anos
operando numa das regiões mais inóspitas
do planeta, e o 1º
Esquadrão do 1º Grupo de Transporte
(1º/1º GT) é o único
da Força Aérea Brasileira
capaz de realizar esse tipo de missão.
Os vôos
de apoio começam no Rio de Janeiro, onde
são embarcados carga e pessoal, de acordo
com a solicitação e planejamento
da Secretaria da Comissão Interministerial
para os Recursos do Mar (SECIRM). Após
2h40min de vôo o avião chega a Pelotas-RS,
onde são recebidos os trajes polares e
os equipamentos necessários ao trabalho
na neve mantidos pela Fundação Universidade
de Rio Grande (FURG). O próximo destino
é a Base Aérea de Chabunco, na cidade
chilena de Punta Arenas. São quase 6hs
de vôo até a cidade peninsular mais
austral do mundo. Um dia depois, completado o
combustível, o avião parte à
Antártida numa travessia que pode durar
3hs sobre o Estreito de Drake, o mar mais perigoso
do mundo.
|
|
C-130H
pousado em Pelotas (RS) |
TC
Martins detalha o plano de vôo de
Pelotas até Punta Arena (Chile) |
|
<--
Detalhe da Base Aérea de Chabunco,
da FACh, em Punta Arenas (Chile) |
Os vôos
antárticos dependem da meteorologia sobre
a Base Aérea Presidente Eduardo Frei Montalva,
na ilha 25 de Mayo. Antes de cada travessia, a
tripulação recebe as últimas
informações sobre as condições
de vôo e a existência de janelas para
pouso na base chilena. Mas o tempo na região
- com ventos que ultrapassam os 100 km/h - pode
mudar a qualquer momento e a tripulação
e os passageiros devem estar preparados para isso.
No final de janeiro, um grupo de treze parlamentares,
assessores e oficiais-generais brasileiros ficou
retido durante cinco dias no continente gelado.
Uma missão
foi enviada a Frei, sobrevoou o local por mais
de uma hora mas não conseguiu pousar, retornando
ao Chile numa viagem que totalizou quase sete
horas vôo. Nos dias seguintes, os pesquisadores
brasileiros e integrantes do Arsenal de Marinha
do Rio de Janeiro que deveriam ir à Antártida,
aguardaram a abertura de uma janela para que o
vôo pudesse ser realizado. Através
do portal da Força Aérea Chilena,
acessavam as imagens feitas pelas câmeras
automáticas de Frei e pressionavam os militares
da Marinha, dizendo: “o tempo está
aberto, podemos ir”. Dois dias depois as
câmeras foram desligadas. Foram pelo menos
três oportunidades onde mais de 50 pessoas
tiveram de ser mobilizadas e se deslocar à
base aérea, sem conseguir decolar. Houve
ainda o defeito numa das turbinas do Hércules,
o que fez necessário sua substituição
por outro que teve de ser trazido do Brasil.
|
|
TC
Martins e tripulação supervisionam
a colocação da carga no Hércules
C-130H |
|
|
A
Base é abastecida no verão
e inverno pelos vôo do Esquadrão
Gordo |
TC
Martins coordena o pouso em Presidente Frei,
na Antártida |
Devido a uma
pressão muito forte vinda de certos setores
de Brasília, já que alguns parlamentares
exigiram seu retorno imediato, uma nova missão
foi organizada mesmo não havendo condições
meteorológicas apropriadas, colocando em
risco a tripulação e os passageiros.
Com teto de vôo baixo, a aeronave da FAB
comandada pelo Tenente-Coronel Martins navegou
à baixa altura e conseguiu pousar, o que
demonstrou o profissionalismo de sua tripulação
e o alto nível de operacionalidade do Esquadrão
Gordo, que reúne a elite do transporte
da FAB.
DEFESA@NET, em
sua quinta travessia antártica, mostra
numa reportagem fotográfica e numa entrevista
exclusiva com o Tenente Coronel Marcos Aurélio
Santos Martins, comandante do 1º /1º
Grupo de Transporte, Esquadrão Gordo, como
é operar no continente antártico.
DEFESA@NET – Como é operar
num ambiente tão hostil?
Ten Cel
Martins - Existem
dois fatores preponderantes. O primeiro deles
é a pista curta, suficiente para operação
do Hércules, porém está no
seu limite. Temos que ter cuidado na operação
de pouso, aterrissar logo no início da
pista e sermos rápidos na aplicação
do reverso e dos freios para que possamos parar
com segurança. No inverno, a pista está
congelada o que requer maior atenção.
Devemos ter um controle maior do solo auxiliado
pelos motores, para que o avião mantenha
sempre o centro da pista. O fator principal e
mais importante para se operar na Antártida
é a meteorologia. Ela é quem diz
quando vamos decolar. No continente gelado as
condições de tempo mudam muito rapidamente.
Sua evolução é diferente
da encontrada no Brasil, o que faz necessário
uma formação específica do
piloto para sua interpretação. É
muito comum realizarmos a travessia antártica
e não conseguirmos pousar na base chilena.
Voamos com combustível que nos permite
fazer uma espera e tentativa de pouso por até
uma hora e retornar ao Chile com segurança
caso não consigamos.
|
|
|
Comitiva
de parlamentares que estava retida na Antártida.
Na foto ao lado no vôo de retorno
ao Chile e depois ao Brasil |
DEFESA@NET
– Existe a possibilidade de se pousar em
outra base na Antártida?
Ten-Cel
Martins –
Na Antártida não. Nós fechamos
um acordo somente com os chilenos para pouso na
Base Aérea Antártica Presidente
Eduardo Frei Montalva, embora existam outras bases
com pistas de pouso. Nosso desvio poderia ser
feito à outra base somente em caso de emergência,
quando não teríamos mais condições
de continuar voando.
DEFESA@NET
- Na aproximação final, existem
procedimentos especiais?
Ten-Cel
Martins –
O procedimento de pouso na Antártida informado
pelos chilenos não é tão
preciso como o utilizado nos aeroportos brasileiros,
nos deixando mais alto e dando uma visibilidade
maior para que possamos efetuá-lo com segurança.
DEFESA@NET
- Quais as maiores dificuldades enfrentadas durante
o pouso?
Ten-Cel Martins - Sem dúvida é
o vento cruzado, que atinge a lateral da aeronave
e a força sair da reta da pista. E após
o pouso no inverno, devido ao congelamento da
pista, perdemos um pouco do controle da direção
do avião no solo. Para corrigir isso, usamos
o motor diferencial, ou seja, acelerar mais motor
de um lado do que o outro. Muitos pilotos têm
dificuldade de fazer esse procedimento.
DEFESA@NET
- Existe uma preparação especial
para voar na Antártida?
Ten-Cel Martins – Sim, não
é qualquer piloto que pode fazer esses
vôos. Ele deve ser membro efetivo do 1º/1º
GT, onde já atua como instrutor e terá
de ser aprovado num conselho interno, para depois
fazer um curso especial com aulas teóricas
e práticas seguindo uma ordem de instrução.
O piloto deve realizar ao menos dois vôos
no verão e um no inverno. Após aprovado
numa nova avaliação é declarado
Piloto Antártico.
DEFESA@NET
- Qual a importância desses vôos para
o Gordo e a FAB ?
Ten-Cel
Martins - Ao esquadrão
e seus pilotos, a capacidade de pousar numa pista
curta e congelada, participando de uma missão
na Antártida, o último continente
a ser explorado. À Força Aérea
Brasileira, é o apoio à comunidade
e a pesquisa científica nacional, desenvolvendo
projetos importantes ao País e ao mundo,
pois sabemos que sem nossa participação
seria muito mais restrita essa operação.
|
|
Aproximação
da Base Aérea Presidente Eduardo
Frei Montalva, na ilha 25 de Mayo. |
As
montanhas confundem-se com as nuvens |
|
|
O
vôo em condições meteorológicas
extremas. |