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Missão Antártida 2008
DEFESA@NET 14 Fevereiro 2008
EXCLUSIVO DEFESA@NET

Missão Antártida 2008
II - As Pesquisas do Brasil no Continente Gelado

Kaiser Konrad
Enviado especial à Antártida, Chile e Argentina

<-- Prof. Jefferson Cardia - primeiro glaciologista brasileiro

O cientista gaúcho Jefferson Cardia Simões, 48 anos, foi o primeiro glaciologista brasileiro. Obteve seu Ph.D. pelo Scott Polar Research Institute (fundado em homenagem ao explorador inglês Robert Scott) na Universidade de Cambridge. É pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde foi fundador do primeiro laboratório nacional de Glaciologia e Geografia Polar - Núcleo de Pesquisas Antárticas e Climáticas.

Anexo - Agenda Antártica (2006-2010) - pdf Plano de Trabalho do Brasil no período de 2006-2010
http://www.defesanet.com.br/docs1/agenda_antartica. pdf

Como um dos mais conceituados membros da comunidade científica nacional, Simões é, hoje, um dos glaciologistas mais importantes da América Latina. Em 2005, integrando uma expedição chilena foi o primeiro brasileiro a chegar por vias terrestres ao Pólo Sul Geográfico. Neste ano, planeja realizar a primeira expedição científica do País ao ponto mais austral do planeta. Acompanhe a entrevista exclusiva que ele concedeu a Defesanet:

DEFESA@NET - Qual sua avaliação dos 25 anos do Programa Antártico Brasileiro?
Prof. Jefferson Simões -
Ao longo de 25 anos o Brasil conseguiu alcançar a liderança nas pesquisas latino-americanas na Antártida. Isso pode parecer pouco relevante à primeira vista, mas vale lembrar que Argentina e Chile, com interesses geopolíticos na região antártica desde a primeira metade do século XX, não têm hoje programas científicos tão fortes como nosso País.

A caminho do Pólo Sul
Acampamento a caminho do Pólo Sul

DEFESA@NET - Acredita que o Brasil investiu e realizou pesquisas suficientes para ser respeitado internacionalmente como um país antártico?
Prof. Jefferson Simões -
Como seria de se esperar, hoje temos um status médio entre os programas científicos internacionais. É claro que isso está intimamente ligado aos valores investidos na parte científica do programa (formação de pessoal, laboratórios, investigações) e não pode ser confundido com investimentos na parte logística. Nosso programa, apesar dos esforços dos últimos anos ainda é modesto financeiramente. Por exemplo, China e Índia investem mais em ciência antártica do que o Brasil. Em resumo, temos liderança e competência conquistada com muito esforço em um ambiente diferente para o brasileiro médio, mas temos um longo caminho a percorrer. Por outro lado, a grande virada no nosso programa de investigação só aconteceu a partir de 2002, quando o Ministério do Meio Ambiente induziu a criação de redes de pesquisa voltadas à questões específicas e com planejamento. Ou seja, até 2001, o Proantar trabalhava com projetos individuais, as vezes de oportunidade, outras só para atender a necessidade de atividade científica no âmbito de nosso programa. Os recursos financeiros eram muito limitados - em média menos de 35 mil reais por ano cada projeto - e alguns deles tinham qualidade, outros não.

Desde 2002 o processo de seleção e principalmente de definição de metas tornou-se mais claro e preciso. Além disso, a parte científica do Proantar finalmente recebeu um financiamento adequado. Foram investidos R$ 6 milhões em 21 projetos durante 4 anos. Destaco que entre 2002 e 2006 estas duas redes financiadas pelo Ministério do Meio Ambiente e o CNPq eram voltadas à questão do Impacto da Variabilidade e Mudanças do Clima na Antártida e as consequências para o Brasil - coordenada por mim - e outra sobre o impacto ambiental local das atividades brasileiras da Estação Antártica Comandante Ferraz - liderada pelo Prof. Rolf Weber da USP. Estamos agora numa rápida mudança tanto na estrutura política de C&T do Proantar, como na estruturação do programa científico e no seu financiamento. Nos próximos 2 anos serão investidos R$ 9,2 milhões somente na parte científica, principalmente nas pesquisas associadas à participação brasileira no Ano Polar internacional. Trata-se de um momento único na história do programa, mostra uma valorização da comunidade antártica pelo atual Governo Federal e tenho certeza que vai gerar produtos importantes - como a melhora da previsão climática no Brasil - e aumentará o status do Proantar na comunidade científica internacional. Cabe agora à sociedade cobrar a produtividade e os resultados.

Prof Jefferson Cardia e Jorn Kaiser Konrad na Missão Antártida 2005
Coleta de Amostra de gelo

DEFESA@NET - Qual a principal contribuição brasileira para o estudo da Antártida nestes 25 anos?
Prof. Jefferson Simões -
A participação em alguns projetos internacionais que visaram ou ainda visam Monitorar a variabilidade do buraco na camada de ozônio e a variação de radiação ultravioleta-B que chega à superfície da Antártida e América do Sul; os estudos de testemunho de sondagem de gelo para determinar tanto a variabilidade climática recente - incluindo processos associados às mudanças climáticas globais - mas também em projetos de vanguarda como o estudo do fundo do testemunho de gelo de Vostok, o mais profundo, com 3620 metros de profundidade e 420 mil anos de dados; os projetos de determinação da biodiversidade polar e adaptação ao frio extremo; os estudos oceanográficos para determinar a circulação oceânica na plataforma continental entre a Terra do fogo e o sul do Brasil.

DEFESA@NET - Países como Argentina, Chile e EUA instalaram bases no interior do continente, enquanto o Brasil mantém Comandante Ferraz numa ilha sub-antártica. Você acha que o Brasil está bem localizado para realizar pesquisas científicas de peso ou deveria entrar mais no continente?
Prof. Jefferson Simões -
A localização da Estação Comandante Ferraz não é problema. Se por um lado é uma área geográfica muito batida por várias equipes internacionais desde a década de 1940, por outro é uma das regiões do planeta mais sensíveis às mudanças do clima. É uma região também muito interessante para pesquisas biológicas - a vida antártica está na costa e nos oceanos, o interior é um grande deserto gelado. Por outro lado ainda, as investigações nas áreas de Geologia, Glaciologia, Geofísica, Astronomia e Química Atmosférica, são muito limitadas devido a área de atuação geográfica do Proantar - que atua basicamente nas ilhas Shetlands do Sul e o norte da Península Antártica, inclusive ao norte do Círculo Polar. A solução, tanto logística e econômica é que cientistas destas áreas - como é o caso do Núcleo de Pesquisas Antárticas e Climáticas da UFRGS - participem em projetos internacionais dividindo os custos dos mesmos. Por isso, cada vez mais parte das pesquisas antárticas brasileiras estão sendo feitas junto a outros programas.

Amostra de testemunho
de gelo
Transporte de carga

DEFESA@NET - Acredita que existe vontade política que indique mudanças no rumo dos estudos antárticos?
Prof. Jefferson Simões –
Acredito sim que existe vontade política do Ministério da Ciência e Tecnologia para que ocorra um redefinição do projeto científico brasileiro na Antártida. Este ano o Comitê Nacional de Pesquisas Antárticas deve apresentar uma política de C&T antártica nacional, onde devemos dar mais atenção às questões pertinentes ao Brasil. Ou seja, aos processos ambientais que ligam a Antártida ao País. Ao fazer 25 anos, o Proantar deve passar por uma redefinição de metas. Até agora, na maioria das vezes, nossas pesquisas foram muito limitadas e reduzidas devido as limitações logísticas. Temos também que mudar a percepção do brasileiro sobre o continente gelado. Quando falamos de nosso programa antártico, não estamos falando somente da EACF ou da Península. Muitas vezes vejo leigos e leitores acharem que navegadores, turistas ou mesmo o nosso programa antártico estão no Pólo Sul. Ora, a Estação Ferraz está a 3100 km ao norte do Pólo Sul Geográfico, é a mesma distância entre Ferraz e o porto de Rio Grande-RS. Temos muito a que fazer e explorar geograficamente. A presença do Brasil na Antártida garante nossos direitos sobre o futuro de 45 milhões de km² - 14 milhões do continente antártico e mais 31 milhões de km² do oceano Austral - e não de uma ilha onde está Ferraz.

DEFESA@NET - Você foi o primeiro brasileiro a fazer a travessia terrestre da Antártida. Qual foi o objetivo dessa viagem e as dificuldades enfrentadas?
Prof. Jefferson Simões –
No verão de 2004-2005, foi realizada uma grande expedição chilena com a participação de dois brasileiros, e tinha como objetivo científico coletar uma série de amostras de gelo e neve que caíram lá nos últimos 300 anos e, portanto, reconstruir a variabilidade do clima e a participação do homem na atmosfera. Ao mesmo tempo, foi uma aventura de exploração do continente, que chegou a 80 graus sul até o pólo sul geográfico, numa viagem ida e volta de 2300 quilômetros. Foi a primeira vez que um brasileiro atravessou o continente com temperaturas que chegaram até menos 54°C. A travessia durou dois meses. Nós fomos até o pólo sul geográfico, onde existe uma estação norte-americana e retornamos para o nosso ponto de partida, que era uma estação chilena. Os dados ainda estão sendo analisados juntamente com nossos colegas estadunidenses.

DEFESA@NET - No final de 2008 você pretende realizar a primeira expedição brasileira ao centro da Antártida. Como estão os preparativos ?
Prof. Jefferson Simões -
A missão ocorrerá em dezembro de 2008. Serão 60 dias de travessia com 18 pesquisadores da UFRGS, UERJ e INPE. Os preparativos estão adiantados, mas estamos procurando patrocínio para completar os custos.

DEFESA@NET- Qual a importância da Antártida para o Brasil?
Prof. Jefferson Simões -
A região antártica é parte essencial do sistema ambiental do planeta. Importantes processos naturais ocorrem na região e estão relacionados às condições naturais do Brasil. Ao longo dos últimos 25 anos importantes observações científicas, tais como a redução da camada protetora de ozônio da atmosfera, e a desintegração parcial do gelo na periferia do continente, evidenciaram a sensibilidade da região polar austral às mudanças ambientais. No entanto, poucas investigações foram realizadas para examinar especificamente as inter-relações daquele continente com a América do Sul, decorrência natural da origem da maioria dos cientistas na comunidade internacional. Desta maneira, é oportuno e premente uma proposta de investigação integrada que caracterize e monitore as condições físico-químicas e biológicas nessa região polar no presente e no passado recente. Possibilitando, então, compreensão e detalhamento do papel da região como controladora das condições ambientais no Hemisfério Sul, permitindo futuramente o modelamento e elaboração de cenários sobre a resposta daquela região às mudanças climáticas, quer naturais ou causadas pelo homem, e as conseqüências para o ambiente e a sociedade brasileira.

A Antártida possui 14 milhões de km² quase totalmente cobertos de gelo, que em vários locais chega a quase 5 km de espessura, e mais 20 milhões de km² de mar congelado no inverno. Esta imensidão gelada é um dos principais controladores do sistema climático terrestre e do nível do mares, além de arquivar nas suas camadas a evolução e eventos remarcáveis da atmosfera do planeta, bem como o registro da poluição no último século. Saber como o ambiente Antártico afeta o Brasil é tão importante quanto estudar a Amazônia.

Trincheira no gelo
Perfuração para coleta dos
testemunhos de gelo
Missão Antártida 2008 tem a apoio da Cordoaria São Leopoldo S.A.

DEFESA@NET

Agenda Antártica (2006-2010)
http://www.defesanet.com.br/docs1/agenda_antartica. pdf

Venezuela asume investigación en la Antártida como política oficial - Janeiro 2008
http://www.defesanet.com.br/missao/ant_08/ven.htm

USAF apóia navio à deriva na Antártida - Kaiser Konrad - 2007 - DEFESA@NET
http://www.defesanet.com.br/mb1/argos.htm

Programa Antártico Brasileiro - Informações especiais
http://www.defesanet.com.br/reportagens/antardida.htm

Entrevista com o Subsecretário para o Programa Antártico Brasileiro, Capitão-de-Mar-e-Guerra José Eduardo Villanova - 2005 Missão Antártida
http://www.defesanet.com.br/reportagens/antardida_1.htm

O 5º Vôo de Apoio à Missão Antárdida -2005 Missão Antárdida
http://www.defesanet.com.br/reportagens/antardida_2.htm

Base brasileira na Antártida tem a primeira grande reforma - 2005 Missão Antártida
http://www.defesanet.com.br/reportagens/anatartida_3.htm

A elite do transporte da FAB treina no Sul do país - 2007
http://www.defesanet.com.br/zz/fab_gordo.htm

   
   
   
 

 

 

 

   
   
   
 
   
 
  Matérias da Missão
Antártida 2008
 

I - Presença na Antártida
- Uma missão de Estado

  II - As pesquisas do
Brasil no continente gelado
  III - O Gordo na Antártida –
A participação da FAB no
Proantar
  IV-Comandante Ferraz
– O Brasil em solo
antártico
  V-Navegando nos mares do Sul. O NApOc Ary Rongel
na Antártida
   
  Wall paper
 
  H44 Ary Rongel e um
C130H do 1º/1º GT
Foto Especial para DEFESA@NET
Missão Antártida
800 x 600
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