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Missão
Antártida 2008
II - As Pesquisas
do Brasil no Continente Gelado
Kaiser
Konrad
Enviado especial à Antártida,
Chile e Argentina
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Prof. Jefferson Cardia - primeiro glaciologista
brasileiro
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O cientista gaúcho Jefferson
Cardia Simões, 48 anos, foi o
primeiro glaciologista brasileiro. Obteve seu
Ph.D. pelo Scott Polar Research Institute (fundado
em homenagem ao explorador inglês Robert
Scott) na Universidade de Cambridge. É
pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq)
e professor da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, onde foi fundador do primeiro laboratório
nacional de Glaciologia e Geografia Polar - Núcleo
de Pesquisas Antárticas e Climáticas.
Como um dos mais conceituados
membros da comunidade científica nacional,
Simões é, hoje, um dos glaciologistas
mais importantes da América Latina. Em
2005, integrando uma expedição chilena
foi o primeiro brasileiro a chegar por vias terrestres
ao Pólo Sul Geográfico. Neste ano,
planeja realizar a primeira expedição
científica do País ao ponto mais
austral do planeta. Acompanhe a entrevista exclusiva
que ele concedeu a Defesanet:
DEFESA@NET - Qual sua
avaliação dos 25 anos do Programa
Antártico Brasileiro?
Prof. Jefferson Simões - Ao longo
de 25 anos o Brasil conseguiu alcançar
a liderança nas pesquisas latino-americanas
na Antártida. Isso pode parecer pouco relevante
à primeira vista, mas vale lembrar que
Argentina e Chile, com interesses geopolíticos
na região antártica desde a primeira
metade do século XX, não têm
hoje programas científicos tão fortes
como nosso País.
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A
caminho do Pólo Sul |
Acampamento
a caminho do Pólo Sul |
DEFESA@NET - Acredita
que o Brasil investiu e realizou pesquisas suficientes
para ser respeitado internacionalmente como um
país antártico?
Prof. Jefferson Simões - Como
seria de se esperar, hoje temos um status médio
entre os programas científicos internacionais.
É claro que isso está intimamente
ligado aos valores investidos na parte científica
do programa (formação de pessoal,
laboratórios, investigações)
e não pode ser confundido com investimentos
na parte logística. Nosso programa, apesar
dos esforços dos últimos anos ainda
é modesto financeiramente. Por exemplo,
China e Índia investem mais em ciência
antártica do que o Brasil. Em resumo, temos
liderança e competência conquistada
com muito esforço em um ambiente diferente
para o brasileiro médio, mas temos um longo
caminho a percorrer. Por outro lado, a grande
virada no nosso programa de investigação
só aconteceu a partir de 2002, quando o
Ministério do Meio Ambiente induziu a criação
de redes de pesquisa voltadas à questões
específicas e com planejamento. Ou seja,
até 2001, o Proantar trabalhava com projetos
individuais, as vezes de oportunidade, outras
só para atender a necessidade de atividade
científica no âmbito de nosso programa.
Os recursos financeiros eram muito limitados -
em média menos de 35 mil reais por ano
cada projeto - e alguns deles tinham qualidade,
outros não.
Desde 2002 o processo de seleção
e principalmente de definição de
metas tornou-se mais claro e preciso. Além
disso, a parte científica do Proantar finalmente
recebeu um financiamento adequado. Foram investidos
R$ 6 milhões em 21 projetos durante 4 anos.
Destaco que entre 2002 e 2006 estas duas redes
financiadas pelo Ministério do Meio Ambiente
e o CNPq eram voltadas à questão
do Impacto da Variabilidade e Mudanças
do Clima na Antártida e as consequências
para o Brasil - coordenada por mim - e outra sobre
o impacto ambiental local das atividades brasileiras
da Estação Antártica Comandante
Ferraz - liderada pelo Prof. Rolf Weber da USP.
Estamos agora numa rápida mudança
tanto na estrutura política de C&T
do Proantar, como na estruturação
do programa científico e no seu financiamento.
Nos próximos 2 anos serão investidos
R$ 9,2 milhões somente na parte científica,
principalmente nas pesquisas associadas à
participação brasileira no Ano Polar
internacional. Trata-se de um momento único
na história do programa, mostra uma valorização
da comunidade antártica pelo atual Governo
Federal e tenho certeza que vai gerar produtos
importantes - como a melhora da previsão
climática no Brasil - e aumentará
o status do Proantar na comunidade científica
internacional. Cabe agora à sociedade cobrar
a produtividade e os resultados.
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Coleta
de Amostra de gelo |
DEFESA@NET - Qual a principal
contribuição brasileira para o estudo
da Antártida nestes 25 anos?
Prof. Jefferson Simões - A participação
em alguns projetos internacionais que visaram
ou ainda visam Monitorar a variabilidade do buraco
na camada de ozônio e a variação
de radiação ultravioleta-B que chega
à superfície da Antártida
e América do Sul; os estudos de testemunho
de sondagem de gelo para determinar tanto a variabilidade
climática recente - incluindo processos
associados às mudanças climáticas
globais - mas também em projetos de vanguarda
como o estudo do fundo do testemunho de gelo de
Vostok, o mais profundo, com 3620 metros de profundidade
e 420 mil anos de dados; os projetos de determinação
da biodiversidade polar e adaptação
ao frio extremo; os estudos oceanográficos
para determinar a circulação oceânica
na plataforma continental entre a Terra do fogo
e o sul do Brasil.
DEFESA@NET - Países
como Argentina, Chile e EUA instalaram bases no
interior do continente, enquanto o Brasil mantém
Comandante Ferraz numa ilha sub-antártica.
Você acha que o Brasil está bem localizado
para realizar pesquisas científicas de
peso ou deveria entrar mais no continente?
Prof. Jefferson Simões - A localização
da Estação Comandante Ferraz não
é problema. Se por um lado é uma
área geográfica muito batida por
várias equipes internacionais desde a década
de 1940, por outro é uma das regiões
do planeta mais sensíveis às mudanças
do clima. É uma região também
muito interessante para pesquisas biológicas
- a vida antártica está na costa
e nos oceanos, o interior é um grande deserto
gelado. Por outro lado ainda, as investigações
nas áreas de Geologia, Glaciologia, Geofísica,
Astronomia e Química Atmosférica,
são muito limitadas devido a área
de atuação geográfica do
Proantar - que atua basicamente nas ilhas Shetlands
do Sul e o norte da Península Antártica,
inclusive ao norte do Círculo Polar. A
solução, tanto logística
e econômica é que cientistas destas
áreas - como é o caso do Núcleo
de Pesquisas Antárticas e Climáticas
da UFRGS - participem em projetos internacionais
dividindo os custos dos mesmos. Por isso, cada
vez mais parte das pesquisas antárticas
brasileiras estão sendo feitas junto a
outros programas.
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Amostra
de testemunho
de gelo |
Transporte
de carga |
DEFESA@NET - Acredita
que existe vontade política que indique
mudanças no rumo dos estudos antárticos?
Prof. Jefferson Simões –
Acredito sim que existe vontade política
do Ministério da Ciência e Tecnologia
para que ocorra um redefinição do
projeto científico brasileiro na Antártida.
Este ano o Comitê Nacional de Pesquisas
Antárticas deve apresentar uma política
de C&T antártica nacional, onde devemos
dar mais atenção às questões
pertinentes ao Brasil. Ou seja, aos processos
ambientais que ligam a Antártida ao País.
Ao fazer 25 anos, o Proantar deve passar por uma
redefinição de metas. Até
agora, na maioria das vezes, nossas pesquisas
foram muito limitadas e reduzidas devido as limitações
logísticas. Temos também que mudar
a percepção do brasileiro sobre
o continente gelado. Quando falamos de nosso programa
antártico, não estamos falando somente
da EACF ou da Península. Muitas vezes vejo
leigos e leitores acharem que navegadores, turistas
ou mesmo o nosso programa antártico estão
no Pólo Sul. Ora, a Estação
Ferraz está a 3100 km ao norte do Pólo
Sul Geográfico, é a mesma distância
entre Ferraz e o porto de Rio Grande-RS. Temos
muito a que fazer e explorar geograficamente.
A presença do Brasil na Antártida
garante nossos direitos sobre o futuro de 45 milhões
de km² - 14 milhões do continente
antártico e mais 31 milhões de km²
do oceano Austral - e não de uma ilha onde
está Ferraz.
DEFESA@NET - Você
foi o primeiro brasileiro a fazer a travessia
terrestre da Antártida. Qual foi o objetivo
dessa viagem e as dificuldades enfrentadas?
Prof. Jefferson Simões –
No verão de 2004-2005, foi realizada uma
grande expedição chilena com a participação
de dois brasileiros, e tinha como objetivo científico
coletar uma série de amostras de gelo e
neve que caíram lá nos últimos
300 anos e, portanto, reconstruir a variabilidade
do clima e a participação do homem
na atmosfera. Ao mesmo tempo, foi uma aventura
de exploração do continente, que
chegou a 80 graus sul até o pólo
sul geográfico, numa viagem ida e volta
de 2300 quilômetros. Foi a primeira vez
que um brasileiro atravessou o continente com
temperaturas que chegaram até menos 54°C.
A travessia durou dois meses. Nós fomos
até o pólo sul geográfico,
onde existe uma estação norte-americana
e retornamos para o nosso ponto de partida, que
era uma estação chilena. Os dados
ainda estão sendo analisados juntamente
com nossos colegas estadunidenses.
DEFESA@NET - No final
de 2008 você pretende realizar a primeira
expedição brasileira ao centro da
Antártida. Como estão os preparativos
?
Prof. Jefferson Simões - A missão
ocorrerá em dezembro de 2008. Serão
60 dias de travessia com 18 pesquisadores da UFRGS,
UERJ e INPE. Os preparativos estão adiantados,
mas estamos procurando patrocínio para
completar os custos.
DEFESA@NET- Qual a importância
da Antártida para o Brasil?
Prof. Jefferson Simões - A região
antártica é parte essencial do sistema
ambiental do planeta. Importantes processos naturais
ocorrem na região e estão relacionados
às condições naturais do
Brasil. Ao longo dos últimos 25 anos importantes
observações científicas,
tais como a redução da camada protetora
de ozônio da atmosfera, e a desintegração
parcial do gelo na periferia do continente, evidenciaram
a sensibilidade da região polar austral
às mudanças ambientais. No entanto,
poucas investigações foram realizadas
para examinar especificamente as inter-relações
daquele continente com a América do Sul,
decorrência natural da origem da maioria
dos cientistas na comunidade internacional. Desta
maneira, é oportuno e premente uma proposta
de investigação integrada que caracterize
e monitore as condições físico-químicas
e biológicas nessa região polar
no presente e no passado recente. Possibilitando,
então, compreensão e detalhamento
do papel da região como controladora das
condições ambientais no Hemisfério
Sul, permitindo futuramente o modelamento e elaboração
de cenários sobre a resposta daquela região
às mudanças climáticas, quer
naturais ou causadas pelo homem, e as conseqüências
para o ambiente e a sociedade brasileira.
A Antártida possui 14 milhões de
km² quase totalmente cobertos de gelo, que
em vários locais chega a quase 5 km de
espessura, e mais 20 milhões de km²
de mar congelado no inverno. Esta imensidão
gelada é um dos principais controladores
do sistema climático terrestre e do nível
do mares, além de arquivar nas suas camadas
a evolução e eventos remarcáveis
da atmosfera do planeta, bem como o registro da
poluição no último século.
Saber como o ambiente Antártico afeta o
Brasil é tão importante quanto estudar
a Amazônia.
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Trincheira
no gelo |
Perfuração
para coleta dos
testemunhos de gelo |