|
Missão
Antártida 2008
I - Presença
na Antártida -
Uma missão de Estado
Kaiser
Konrad
Enviado especial à Antártida,
Chile e Argentina
|
| DEFESA@NET passou
quase três semanas na Antártida,
Chile e Argentina e vai mostrar numa série
de reportagens a importância da presença
brasileira no distante continente antártico
e a atuação dos nossos militares
nos perigosos mares e ares do extremo-sul.
|
O Programa Antártico
Brasileiro foi criado em 1982 com o objetivo de
realizar pesquisas científicas no continente
gelado. Dois anos depois foi instalada a Estação
Antártica Comandante Ferraz, que está
situada na Baía do Almirantado, dentro
da Ilha do Rei George (Inglaterra) ou 25 de Mayo
(Argentina). O nome da ilha é conhecido
pelo país que a reivindica. Os brasileiros
usam cartas náuticas argentinas, portanto,
chamá-la de 25 de Mayo é a forma
mais correta.
Aderindo ao Tratado Antártico em 1975,
o País passou a integrar o seleto grupo
de nações que participam das discussões
sobre o presente e o futuro da Antártida.
Oficialmente não faz reivindicação
de território como fazem a Argentina, Austrália,
Chile, França, Nova Zelândia, Noruega
e Inglaterra.
Argentina e Chile possuem uma política
oficial de anexação do continente
e da Península Antártica, área
situada mil quilômetros ao sul do Cabo Horn.
Em 6 de novembro de 1940 o Chile publica o Decreto
Supremo n° 1747 que fixa seus limites sobre
a região, resultado do estudo realizado
por Julio Escudero, professor de Direito Internacional
e autor do trabalho “O Estado Atual dos
Problemas Antárticos e sua Eventual Vinculação
ao Interesse Chileno”.
|
Mapa
mostra qual seria a zona brasileira em caso
de reivindicação de território
antártico |
Sete anos depois,
o Chile iniciou sua ocupação instalando
a base naval Soberania, atualmente conhecida como
Arturo Prat. Em 1948 o presidente Gabriel González
se torna o primeiro Chefe de Estado do mundo a
visitar o continente gelado, ocasião em
que inaugura a base do exército General
Bernardo O’Higgins. Próximo a Base
Aérea Presidente Eduardo Frei se encontra
a Vila das Estrelas, um pequeno povoado que marca
a presença constante da população
chilena no continente branco.
Esse mesmo território é reivindicado
também pela Inglaterra, que no ano passado
colocou em avaliação na Comissão
de Limites Externos de Plataforma Continental,
divisão das Nações Unidas
para Assuntos Oceânicos e de Direito do
Mar, um pedido de anexação de uma
área com mais de 1 milhão de km²,
seguindo a mesma justificativa brasileira para
aumento da plataforma continental (Amazônia
Azul). Pelo Tratado Antártico todas as
reclamações de soberania sobre estas
regiões estão congeladas enquanto
ele estiver em vigor.
Mas um cientista da Agência Espacial Alemã
consultado por DEFESA@NET faz um alerta: “A
história nos mostrou que tratados são
apenas pedaços de papel. Quando algum dos
signatários se retirar e buscar efetivamente
sua parte, uma verdadeira corrida por territórios
vai acontecer”. Ele disse que no caso da
Alemanha, que até o momento não
tem ambições territorialistas, se
houver uma divisão ela vai querer assegurar
sua parte também.
No último mês, o presidente da Venezuela
Hugo Chávez anunciou a criação
de uma Comissão de Pesquisas Antárticas
ligada diretamente ao seu gabinete. Segundo uma
pesquisadora do Instituto Antártico Chileno,
essa medida pode precipitar uma corrida entre
nações latino-americanas rumo à
Antártida, já que Chávez
tem claramente a pretensão de ocupar áreas
embora não possua uma Estação
e nem pesquisas científicas relevantes
no continente.
DEFESA@NET consultou militares e pesquisadores
do Brasil, Argentina, Chile, Alemanha e Equador.
Todos foram categóricos em afirmar que
o processo de divisão internacional do
continente antártico deve ocorrer em no
máximo 50 anos, e ressaltam que isso não
acontecerá de forma pacífica e o
cenário da disputa internacional será
o Atlântico Sul.
|
|
| Fronteira Argentina
- Chile na Terra do Fogo - Argentinos reivindicam
área na Antártida |
Placa
de obra do governo mostra que a Antártida
faz parte do Chile |
Atualmente o
comando da III Zona Naval, da Armada de Chile,
com sede em Punta Arenas, e responsável
pela segurança dos canais e mares do sul
do Chile e “Antártica Chilena”
conta com 16 embarcações de guerra.
Embora mal aparelhada devido à escassez
de recursos da Armada Argentina, está localizada
em Ushuaia o comando da Área Naval Austral,
que tem por incumbência tentar assegurar
a soberania argentina sobre as ilhas do Atlântico
Sul e Antártida.
A cada duas semanas as Armadas dos dois países
realizam patrulhas até a Antártida,
o que é uma clara violação
do Tratado Antártico, que proíbe
a realização de quaisquer atividades
militares que não estejam vinculadas a
projetos científicos. Segundo Chile e Argentina,
essas ações não têm
finalidade militar, mas de Busca e Salvamento
(SAR), já que o número de acidentes
com embarcações turísticas
e de pesca cresce a cada ano.
Em 2007 o quebra-gelo Almirante Irizar, símbolo
do programa antártico argentino teve de
ser abandonado devido a um incêndio a bordo.
No final do mesmo ano o transatlântico inglês
Explorer naufragou nas gélidas águas
antárticas e, só não aconteceu
uma tragédia, por que os helicópteros
embarcados do Navio de Apoio Oceanográfico
Ary Rongel, da Marinha do Brasil, sobrevoaram
o local e vetoraram outras embarcações
para que o resgate das vítimas fosse efetuado.
O quase conflito entre Argentina e Chile pelo
controle do Canal de Beagle e a posse das ilhas
Lennox, Picton e Nueva (1978) reflete claramente
o que a ambição pelo controle do
Pólo Sul pode provocar na estabilidade
regional. Há de se levar em conta também
a questão das Malvinas e a Geórgia
do Sul e sua localização estratégica,
de onde a Inglaterra já monitora e pode
controlar todo o tráfego aéreo e
marítimo no Atlântico Sul, Estreito
de Drake e conseqüentemente o acesso ao Pacífico.
Para um oficial da Marinha do Brasil, “a
manutenção de uma base brasileira
é estratégica e pode ser explicada
através do lema dos Fuzileiros Navais -
“AD SUMUS – AQUI ESTAMOS”. A
EACF marca assim a presença constante do
País nessa que é a região
mais inóspita do planeta. Nesta semana
o presidente Luis Inácio Lula da Silva
fará sua primeira viagem à Antártida.
Na ocasião, estará acompanhado pelo
Ministro da Defesa Nelson Jobim. Eles querem conhecer
as atividades desenvolvidas pelos militares e
pesquisadores brasileiros lá. Em fevereiro
de 1991, o presidente Fernando Collor de Mello
foi o primeiro Chefe de Estado a visitar a Estação
Comandante Ferraz.
|
|
Punta
Arenas: Instituto Antártico Chileno |
Antártida
- Vila das Estrelas -
Ilha 25 de Mayo |
Para DEFESA@NET,
o aumento e a fiscalização dos recursos
destinados ao Proantar, a necessidade de receber
uma maior atenção por parte do governo
brasileiro e a imediata criação
de uma política de Estado, são fatores
que vão ampliar significativamente os entendimentos
sobre as questões pertinentes ao futuro
da Antártida e o papel destinado ao Brasil
nele.