COBERTURA ESPECIAL - Mergulhando na História - Aviação

12 de Outubro, 2013 - 21:18 ( Brasília )

Nas pegadas de Marseille

O mergulho de Nestor Magalhães nas areias do deserto na busca da pirâmide que marca o local onde morreu, talvez o maior Ás alemão na Segunda Guerra Mundial, Hans-Joachim Marseille.


Nestor Magalhães
ulissess18@yahoo.com.br


Olá amigos.

Retornei de uma viagem de 20 dias ao Egito. Meu objetivo por lá era mergulhar no naufrágio do SS Thistlegorm, cargueiro inglês de 4.898 ton e 128 m, abarrotado de material bélico destinado ao 8º Exército, afundado na madrugada de 06 Out 1941 no Golfo de Suez  por bombardeiros Heinkel 111 baseados em Creta (KG 26). Uma história fascinante. Este naufrágio é um dos top points do mundo para os mergulhadores de naufrágios.
 
Bem, acabei realizando 18 mergulhos ( dois deles no Thistlegorm ), em naufrágios no Golfo de Aqaba, Estreito de Tiran, Estreito de Gubal, Golfo de Suez e Mar Vermelho. Também aproveitei o momento para ir a El Alamein que dista 240 km do Cairo. O guia me pegou no hotel por volta das 6h e viajamos por boa parte da manhã. Pelo caminho alguns bloqueios de estrada  feitos por elementos do Exército egípcio e policia. Nestes locais sempre haviam um blindado e muitos AK 47. Fiquei surpreso ao ver carros de combate Abrams M1.

 

Hans-Joachim Marseille, um personagem fantástico, boêmio e galanteador que, sozinho, anotou assombrosas 158 vitórias aéreas. Marseille faleceu em 1942 ao tentar abandonar seu Bf 109 depois de uma falha mecânica. Tinha apenas 22 anos, o que é sempre chocante de se lembrar.

O Museu da TAM, São Carlos (SP), tem um Messerschmitt Bf 109 G-4, produzido na Alemanha em 1943. Atingido enquanto sobrevoava a Noruega, pousou em um lago congelado que acabou derretendo, e hibernou no fundo da água por mais de 40 anos, até ser localizado, resgatado e restaurado com as cores do JG27, e o 14 de Marseille..


Bem, visitei o cemitério inglês e o alemão. Depois o Museu Militar de El Alamein, a pirâmide de Marseille e o campo de batalha. Voltamos à noite para o Cairo. Uma jornada extenuante porém inesquecível! Mas temos que ir por partes.
 
Sempre fui admirador de Hans Joachim Marseille, na minha opinião o melhor piloto de combate de todos os tempos. Pesquisei muito material sobre sua curta porém admirável carreira militar. O amarelo 14, o Estrela da África, símbolo da intrepidez e da arte de voar. O piloto que em num só dia (01 Set 42), em 3 missões, obteve 17 vitórias, sendo 16 homologadas. Isto com um consumo mínimo de munição. Este virtuose da caça, tinha a capacidade quase mágica de calcular  o espaço que no próximo  meio segundo seria ocupado por um afoito Spitfire ou um infeliz Tomahawk e ali colocar  meia dúzia de granadas de 20 mm e algumas dezenas de projéteis de 7,92 mm. Letal. Minha nossa!
 
Tinha confirmado que Marseille está sepultado na Líbia, lugar difícil e complicado para ir. Portanto me contentaria em ver o ponto onde ele tinha caído. Meu guia e o motorista não sabiam da história da pirâmide que marca o local e muito menos onde ela fora erigida. Já estava quase desistindo, um tanto desmoralizado, quando no cemitério alemão, falamos com um beduíno que era o guardião do memorial sobre a tal pirâmide.
 
Ele disse que tinha um primo que sabia da exata localização. Sacou de um moderno celular e falou com o primo. O outro beduíno pediu então 200 libras egípcias (lá é tudo assim, tudo por grana) para nos guiar (1 U$ = 6,8 libras egípcias). Barganhei, chorei e a muito custo reduzi para 150 libras. Negócio fechado, embarcamos na van e rodamos por mais de uma hora através de uma estrada pelo deserto. Tinham restos de asfalto e partes de areia. Foi uma viajem longa, tensa e inquietante pois eu já estava imaginando um emboscada da Irmandade Muçulmana ou coisa similar. Nunca chegava e eu começava a acreditar que o beduíno nos enrolava.
 
Estava bastante preocupado e foi quase ao final da minha paciência que avistamos à esquerda, na linha do horizonte,  a pequena pirâmide. Antes, pelo lado direito da estradinha, no deserto, tínhamos visto áreas delimitadas com arame farpado e com trapos pretos pendurados. O guia disse-me então que eram campos minados. Rodamos algum tempo pela areia e alcançamos a pirâmide. O silêncio no deserto é absoluto e os campos de tiro extraordinários. Nunca tinha visto ou sentido nada disto. Há uma sensação enorme de desolação e solidão. Um calor ardido, atenuado pelo meu modelito egípcio que havia comprado para me disfarçar e escapar um pouco do achaque diário nas ruas de Luxor e Cairo.
 
Pensei muito no local. Olhei o céu sem uma nuvem e imaginei o voo fatídico do Mersserschmitt 109 G 14 amarelo, bem ali em cima, no dia 30 Set 42. O corpo do capitão caindo com o paraquedas sem abrir. Acima, os aviões da Esquadrilha, dispersos no céu, passando um a um, desorientados, agitando as asas, procurando ver e compreender. Que história!
 
No horizonte estéril, a uns 300 m, observei alguma coisa escura, regular. Meu Deus, um pedaço do Gustav de Marseille! O supremo suvenir! A consagração de um colecionador! Caminhei na direção do objeto enquanto o guia e o motorista, quase histéricos,  gritavam:
 
Néstor, Néstor, não vai, existem minas por aí! MINAS, MINAS POR TODA PARTE!!!

Eu sabia que ali não haveria mina alguma e seria muito azar virar energia, isto é: luz e calor, com uma mina da II Guerra Mundial. Chegando ao local, para minha total desolação, descobri que o leme do Messerschmitt era um emaranhado de tubos plásticos contemporâneos levados pelo vento. Que pena!
 
Para acalmar o meu irrequieto guia (perguntei a ele se estava com ataque de nervos), retornei passo a passo (que nem nos filmes, ha, ha, ha) pisando nas pegadas da ida.
Que embuste!
 
Um abração. Nestor


 o Autor

Nestor Antunes de Magalhães é 2º Ten R/1 do Exército Brasileiro tendo servido os nove últimos anos de sua vida profissional no Museu do Comando Militar do Sul. É membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, mergulhador CMAS** com quatro especializações e Submarinista Honorário da Marinha do Brasil. Mergulhou em inúmeros naufrágios por toda a costa brasileira, destacando, entre outros, a participação em uma expedição exploratória no Parcel de Manuel Luís, Maranhão. Também mergulhou em naufrágios de Truk Lagoon, Havaii, Golfo de Suez, Estreito de Tiram e Mar Vermelho.

Seu livro U-Boats Mergulhando na História já está na quarta edição.

Profere  palestras em todo o  Brasil.


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