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Editorial
- Brasil obsoleto e vizinhos armados
A operação
de resgate dos reféns das Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia (Farc),
apesar do malogro, pôs em evidência
a intensa cooperação entre o governo
Hugo Chávez, na Venezuela, e a guerrilha.
Não bastassem as operações
militares na região de Essequibo, nas Guianas,
o presidente venezuelano, que se autodefine como
um bolivariano, moderniza o potencial bélico
de suas Forças Armadas, municia os narcoguerrilheiros
das Farc e faz vista grossa à proteção
de seus oficiais militares a acampamentos do grupo
de oposição ao governo de Álvaro
Uribe.
Enquanto Chávez
amplia sua influência bélica nas regiões
fronteiriças com a Guiana, a Colômbia
e o Brasil, as Forças Armadas daqui sobrevivem
na penúria. O quadro traçado por extensa
reportagem de Fernando Exman, publicada domingo
pelo Jornal do Brasil, sugere a urgência do
reaparelhamento de Exército, Marinha e Aeronáutica,
não apenas para manter o equilíbrio
geopolítico na América do Sul mas
especialmente para ampliar a proteção
ao longo dos limites geográficos do país.
Enquanto a Venezuela
desembolsou milhões e milhões de petrodólares
para a aquisição de fuzis, aviões
de transporte, caças e embarcações
ultramodernos, o Chile atualizou sua Força
Aérea e a Colômbia mantém seu
arsenal com a ajuda americana, o corte de verbas
no Orçamento deste ano é ameaça
real para o Brasil desde que em dezembro foi derrotada
no Senado a prorrogação da Contribuição
Provisória sobre Movimentação
Financeira.
Em princípio,
Exército, Marinha e Aeronáutica haviam
assegurado R$ 9 bilhões para custeio e investimento
neste ano. Embora nem todo o dinheiro orçado
fosse efetivamente empenhado, o valor dera alento
aos militares das três Forças, que
já definiam prioridades para a compra de
equipamentos. A ameaça de corte, contudo,
colocou-os de prontidão. Os oficiais temem
não apenas o abandono dos planos mas, especialmente,
o avanço da insatisfação na
tropa com a defasagem dos soldos. Além disso,
a falta de recursos para a manutenção
de equipamentos produziu uma geração
de soldados, marinheiros e aspirantes com formação
deficiente.
Militares bem aparelhados
e bem pagos são essenciais para desencorajar
qualquer tipo de agressão militar, observa
o comandante do Exército, general Enzo Martins
Peri. "A estratégia de dissuasão
depende da manutenção de forças
suficientemente poderosas e aptas ao emprego imediato",
avalia. "Tivemos uma perda de nossa capacidade
dissuasória".
O levantamento do
arsenal brasileiro confirma a análise do
comandante. A artilharia do Exército brasileiro
é herança da Segunda Guerra Mundial.
Blindados têm mais de 30 anos em atividade,
fuzis 42 anos de uso, mais da metade das viaturas
já chegaram aos 20 anos de estrada. Faltam
equipamentos para hospitais de campanha e de comunicações,
armamento e munições, embarcações,
pontes flutuantes, mísseis anticarro e materiais
para batalhões de construção
e engenharia.
Na Marinha, o quadro
não difere muito. Entre 1999 e 2006, foram
desativados 21 navios e seis aviões, e apenas
10 navios se incorporaram à frota. Há
embarcações, submarinos e helicópteros
parados por falta de condições. Outros
operam com restrições. O almirante
Júlio Soares de Moura Neto, comandante da
Força, adverte para a vulnerabilidade do
Brasil nos campos marítimos de exportação
e exploração de petróleo, além
da redução das ações
de prevenção da poluição
das águas e de combate a crimes.
A Aeronáutica,
mais cautelosa em listar suas carências, aguarda
recursos para modernizar 46 caças com a última
geração de radar, para equipamentos
de reabastecimento em vôo, mísseis
e bombas guiadas a laser. Mas a atualização
de outros 53 caças com mísseis antinavio
e operação a baixa altitude. Fora
a compra de Mirage 2000-C, Supertucanos, helicópteros
e aviões de patrulha P-3.
Enquanto os vizinhos
se armam, o Brasil relega a segundo plano a modernização
das Forças Armadas. Entra governo, sai governo,
verbas para a preservação da segurança
nacional são cortadas, contingenciadas ou
adiadas. Não dá para esperar uma demonstração
prática do arsenal dos parceiros do Sul.
É preciso investir já.
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