Governo
quer ter "golden share" na indústria
bélica
Nelson Jobim: projeto de aquisição
de caças para a FAB pode ser
trocado por programa de desenvolvimento de protótipo
Em troca de um
novo regime tributário e regulatório
que exima a indústria bélica nacional
das amarras da Lei de Licitações,
além de acabar com a descontinuidade das
compras oficiais, o Plano Estratégico
de Defesa proporá a concessão
de "golden shares" (ações
especiais) ao governo em grandes empresas do setor.
O plano, que está
em elaboração e será apresentado
dia 7 de setembro, teve suas conclusões
preliminares divulgadas ontem pelos ministros
da Defesa, Nelson Jobim, e de Assuntos Estratégicos,
Mangabeira Unger. Eles apregoaram a "reorganização
radical" da indústria de defesa, com
proteção às empresas nacionais
do setor. Para isso, segundo Mangabeira, é
essencial aplicar regras que protejam essas empresas
do "curto-prazismo mercantil" e não
as submetam ao "risco de descontinuidade
de compras governamentais".
"Não
podemos tratá-las como se elas vendessem
qualquer produto nacional", disse Mangabeira.
Indústrias como Helibrás, Avibrás,
a fabricante de pistolas Taurus e a Mectron, que
produz radares e mísseis, podem ser alvo
da tentativa do governo de obter ações
especiais como compensação por um
programa robusto de fomento. É uma forma
de "assegurar o poder estratégico
do Estado", conforme definiu o ministro extraordinário.
É essa
a lógica que prevalece, segundo ele, nas
negociações para a transferência
de tecnologia com outros países. "A
todos eles deixamos claro que não estamos
interessados em comprar produtos, mas em parcerias",
disse Mangabeira, depositando suas maiores esperanças
nas conversas com França e Rússia.
A reformulação
da indústria de armamentos faz parte do
tripé em que se baseia o Plano Estratégico
de Defesa. O segundo eixo trata da obrigatoriedade
do serviço militar e a eventual criação
de um serviço social. O terceiro ponto
é o reaparelhamento das Forças Armadas
em função do desenho de seis cenários
possíveis de emprego das tropas - o monitoramento
das fronteiras terrestres e marítimas em
circunstâncias de paz; a invasão
de fronteiras por forças paramilitares,
com o apoio velado ou não de um país
vizinho; uma guerra assimétrica na Amazônia
contra uma potência bélica; uma guerra
em outro continente, com reflexos para o Brasil
e emprego efetivo ou potencial de armas nucleares;
a participação do Brasil em missões
de paz das Nações Unidas; e operações
internas para garantia da lei e da ordem em grandes
metrópoles.
O projeto F-X
da Aeronáutica, cancelado em 2005 e recém-retomado,
pode ir de novo para a gaveta. Desta vez, porém,
para dar lugar a um programa mais ousado: o desenvolvimento,
com uma potência bélica, do protótipo
de uma novíssima geração
de caças, provavelmente envolvendo a Embraer.
O projeto inicialmente consistia na compra de
8 a 12 caças para modernizar a frota brasileira,
a um custo aproximado de US$ 700 milhões.
Desde o ano passado, a Aeronáutica retomou
as sondagens a grandes fabricantes, numa compra
que poderia chegar a vários bilhões
de reais.
Jobim revelou
que duas alternativas serão postas à
mesa do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva. A primeira é de fazer a aquisição
de caças de quarta geração
- como o Rafale francês ou o Sukhoi russo
- barganhando "ao máximo" a transferência
de tecnologia. Outra opção é
deixar essa compra de lado e investir todos os
recursos com quatro finalidades: a modernização
dos sistemas de armas dos caças já
disponíveis na frota da FAB; o avanço
de projetos próprios de veículos
não-tripulados (primeiro de monitoramento
e, depois, de combate); investimentos "maciços"
em recursos humanos na Aeronáutica; e o
desenvolvimento de uma quinta geração
de caças. É um projeto "de
décadas, não de anos", em que
o objetivo "é mais aprender do que
fabricar", disse Mangabeira.
Na Marinha, a
prioridade total é o desenvolvimento do
submarino de propulsão nuclear, mas outras
ações incluem a redistribuição
territorial das tropas, hoje excessivamente concentradas
no Rio de Janeiro. No Exército, a intenção
é priorizar a Força de Ação
Estratégica Rápida, extremamente
móvel e flexível, que abrange 10%
do contingente da Força. Jobim deixou clara
a necessidade de reforçar a presença
militar na Amazônia, onde o contingente
militar é de 27.236 homens - quase 80%
do Exército. "Temos de redimensionar
inclusive o tamanho do efetivo."