|
A Defesa
na Agenda Nacional:
O Plano Estratégico de Defesa
por Nelson Jobim
Assistimos a uma reconfiguração
dos paradigmas políticos e econômicos
que ditaram as relações políticas
durante grande parte do século XX. Nesse
contexto, o Brasil consolida sua posição
no mundo, lastreada na estabilidade política
e econômica conquistada na história
recente. As atuais circunstâncias, bem como
as políticas adotadas para aproveitá-las,
permitiram ao país maior projeção
internacional.
Esse processo implica novos desafios, com as novas
responsabilidades que teremos que assumir progressivamente.
Implica, ainda, a necessidade de planejamento estratégico
e de flexibilidade para sua adaptação
a cenários em permanente mudança.
O reposicionamento internacional do Brasil determina
também novas posturas no campo da Defesa.
Novos padrões de inserção internacional
na área de Defesa dependem, porém,
de nova postura da sociedade nacional. Faz-se necessário
trazer as questões de Defesa de volta à
agenda nacional, com a reversão da situação
vigente desde o término do regime militar.
Nas últimas décadas, tais questões
foram relegadas exclusivamente ao setor militar.
O Poder Civil, que sucedeu ao regime militar, identificava,
em seu imaginário, os temas de Defesa com
repressão política. O tema, por isso,
foi marginalizado durante os trabalhos da Assembléia
Constituinte (1987–1988). As lideranças
emergentes não queriam tocar em nada que
pudesse vinculá-las ao regime anterior –
nada que pudesse identificá-las com o “entulho
autoritário”.
Ao retraimento do poder civil correspondeu a reação
esperada no meio militar: os militares chamaram
a si a tarefa de formular a política de Defesa.
Como conseqüência necessária,
os temas de Defesa saíram da agenda nacional.
Executivo e Legislativo passaram a vê-los
como exclusiva agenda militar
A perda de capacidade de investimento devido à
crise fiscal que atingiu o país a partir
da década de 1980 agravou a situação.
Escassearam os recursos destinados à Defesa.
A dificuldade de atender às necessidades
provocou perda de capacidade operacional das Forças.
Chegou-se ao ponto de fazer-se necessária
a redução da permanência dos
recrutas nos quartéis, pois não havia
recursos para alimentar os contingentes.
No meio acadêmico, desenvolveu-se processo
semelhante. Houve distanciamento. São poucos
os estudiosos que se vincularam aos temas de Defesa.
Há mesmo pesquisadores que foram questionados
– por seus colegas – sobre as suas motivações
ao orientarem-se para assuntos militares. Em outros
países, tais temas são objeto de profundo
interesse intelectual. Há abundante produção,
em instituições civis, de estudos
na área. O intercâmbio entre civis
e militares dá ao Estado melhores condições
de decisão e à sociedade maior controle.
Com o objetivo de corrigir tais distorções,
o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva criou,
por decreto de 6 de setembro de 2007, o comitê
para formulação de um PLANO ESTRATÉGICO
NACIONAL DE DEFESA, presidido pelo ministro da Defesa
e coordenado pelo ministro extraordinário
de Assuntos Estratégicos.
Integram o comitê o ministro do Planejamento,
Orçamento e Gestão, o ministro da
Fazenda, o ministro da Ciência e Tecnologia
e os comandantes da Marinha, do Exército
e da Aeronáutica, assessorados estes por
seus respectivos estados-maiores. O relatório
com as diretrizes gerais será entregue ao
Presidente no dia 7 de setembro de 2008.
A elaboração
do plano
Trata-se de um projeto ambicioso,
focado em ações de médio e
longo prazo. Pretende-se restaurar a estrutura nacional
de Defesa. Constitui objetivo relevante a inserção
das questões de Defesa na agenda nacional.
O trabalho divide os estudos em três grandes
áreas temáticas:
1. a reorganização das Forças
Armadas, incluindo o apropriado aparelhamento;
2. a reorganização da indústria
nacional de Defesa, com ênfase na capacitação
nacional, na autonomia tecnológica e em sua
sustentabilidade; e
3. o futuro do Serviço Militar obrigatório
e do sistema de Mobilização Nacional.
A elaboração do plano tem dois pressupostos
fundamentais.
O primeiro é a divisão de competências
entre civis e militares na área de Defesa:
- ao poder civil cabe a definição
das hipóteses de emprego dos meios militares;
- às Forças Armadas cabe definir as
probabilidades estratégicas para as hipóteses
de emprego (preparação para o uso
das Forças e condução desse
uso).
O segundo consiste na manutenção da
opção do Brasil pela dissuasão
como estratégia de Defesa.
Da história do século XX vem a lição
de que toda a sociedade arca com os custos, os sacrifícios
e o sofrimento da guerra. Compete à sociedade
– por intermédio das instâncias
deliberativas do sistema democrático de governo
e também pela participação
direta nos debates – definir o que se espera
de seus militares e prover-lhes os meios para as
tarefas que lhes são atribuídas. Entre
esses meios, ressalte-se, deve estar a melhor tecnologia
disponível. Daí partirem os estudos
de uma questão central:
O que quer o Brasil de suas Forças Armadas?
O comitê designado pelo Presidente da República
busca a resposta a essa indagação.
As Forças vêm contribuindo para o esclarecimento
da questão central. Fornecem elementos de
sua experiência histórica e conhecimentos
específicos únicos. Importante papel
terá o debate com os representantes eleitos
do povo e as discussões abertas com a sociedade
– seminários e congressos acadêmicos.
Ao final dessa primeira etapa, estarão disponíveis
os elementos necessários à decisão
pelo Presidente e pelo Congresso Nacional. Somente
então se poderá passar à efetiva
reorganização das Forças, com
o seu conseqüente aparelhamento, o que não
elide decisões intercorrentes.
O diálogo com as Forças baseia-se
na formulação de um conjunto de questões,
aplicável a cada uma das hipóteses
de emprego apresentadas pelo comitê.
A lista, não exaustiva, considera as contribuições
dos militares e contempla circunstâncias de
paz e de guerra:
1. monitoramento das fronteiras, do litoral e do
território, incluindo espaço aéreo,
em circunstâncias de paz;
2. penetração das fronteiras ou abordagem
do litoral:
a.
por uma força paramilitar com a ajuda velada
ou a complacência de um Estado fronteiriço;
b.
com engajamento aberto de Estado fronteiriço;
3. guerra contra forças muito superiores
na Amazônia;
4. guerra em outra região do mundo, ultrapassando
os limites de uma guerra regional controlada, com
emprego efetivo ou potencial de armamento nuclear;
5. participação do Brasil em Operações
de Manutenção da Paz das Nações
Unidas;
6. participação em operações
internas em garantia da lei e da ordem.
Sobre cada hipótese, as Forças responderam
com uma proposta geral sobre a maneira pela qual
cumpririam a tarefa. Responderam, ainda, às
indagações específicas:
1. que mudanças organizacionais podem ser
necessárias para aumentar a eficiência
e a eficácia?
2. que mudanças doutrinárias (práticas
operacionais) podem ser necessárias?
3. que equipamentos serão necessários?
Que novos equipamentos precisam ser desenvolvidos
ou adquiridos? Qual a ordem de prioridade entre
os equipamentos necessários?
4. de que maneira cada Força Singular poderá
colaborar com as outras duas?
Com base nas respostas das Forças a essas
questões e a outras se instala o debate no
comitê.
Veja-se a primeira hipótese de emprego. O
monitoramento do território determina necessidades
distintas para cada uma das Forças Singulares
(águas, fronteiras e espaço aéreo).
O patrulhamento das águas jurisdicionais
já é uma tarefa hercúlea. Dele
depende a defesa de 3,5 milhões de quilômetros
quadrados de mar[1], área onde se acumulam
as reservas nacionais de petróleo e por onde
trafega grande parcela do comércio do Brasil
com o mundo.
Com cada Força discutem-se as necessidades
específicas à execução
de sua parcela no monitoramento do território.
Coordenam-se, ainda, as necessidades das três
Forças, para seu emprego combinado.
Das respostas à primeira indagação
específica e dos debates subseqüentes
poder-se-á encontrar a organização
mais adequada para as Forças Armadas brasileiras.
Reorganização
e reaparelhamento das Forças
A questão sobre a necessidade
de mudanças no perfil e na organização
de cada Força deve ser entendida da maneira
mais ampla possível: da alocação
dos efetivos pelo território nacional aos
padrões de instrução da tropa.
Com o deslocamento, para as regiões Norte
e Centro-Oeste, dos vetores de possíveis
ameaças, que não se identificam de
forma alguma com os países fronteiriços,
um ponto de questionamento é o aquartelamento,
hoje majoritariamente junto ao litoral.
O deslocamento do monitoramento para as fronteiras
Norte e Oeste põe em questão o posicionamento
das tropas do Exército, hoje majoritariamente
a leste.
A avaliação de várias alternativas
se impõe:
1. manter tal estrutura, ou
2. deslocar contingentes para outras regiões,
ou
3. investir na mobilidade.
A última alternativa (3) substitui o paradigma
“estar presente” por “poder estar
presente”. Em vez de termos tropas em cada
ponto, o país investiria em unidades de alta
mobilidade e poder de fogo que poderiam deslocar-se,
com rapidez, para qualquer área do território.
Todas as alternativas estão na mesa, podendo-se,
inclusive, não adotar qualquer delas e, sim,
uma combinação de todas.
Ressalte-se, ainda, que se discutem novos modelos
com cada uma das Forças Singulares. Se, por,
um lado, pode ser necessário reavaliar a
distribuição das unidades do Exército,
pode-se, por outro, debater quão adequada
se mostra a concentração dos meios
militares em centros urbanos.
Deve-se examinar também a revisão,
ou não, dos atuais padrões de instrução.
Nos conflitos recentes, há casos de forças
superiores em todos os quesitos encontrarem dificuldades
ao enfrentar exércitos que não dispõem
de meios militares equivalentes. O mesmo se diga
do combate a organizações não-estatais
– estas, por vezes, com ramificações
no crime organizado. Cabe indagar se o soldado brasileiro
está sendo preparado para lidar com este
tipo de conflito, tanto integrando a força
com dotação de melhores meios quanto
atuando como combatente de resistência.
A organização de cada Força
Singular não pode levar em conta apenas as
possibilidades de conflito convencional.
Em seguida, emerge a questão doutrinária:
com a reorganização, necessário
se faz rever, ou não, as práticas
operacionais, com a intensificação
da interoperabilidade das Forças.
Resolvidas essas questões, surge, então,
o problema dos equipamentos.
Assim, a Estratégia Nacional de Defesa não
se restringe a retomar o discurso do reaparelhamento
das Forças Armadas.
O próprio termo “reaparelhamento”
mostra-se inadequado. Não se pretende a simples
reposição da capacidade perdida, ou
seja, trazer o passado para o presente. A avaliação
das necessidades e a construção de
novas capacidades se relacionam com os desafios
que se vislumbram nos cenários futuros. Tal
procedimento altera a lógica que preside,
hoje, a discussão sobre aquisição
de equipamentos.
A nova avaliação de necessidades faz
com que o equipamento deixe de ser um objetivo em
si mesmo, e passe a ser uma ferramenta adequada
a um objetivo. Identificam-se as tarefas a serem
desempenhadas e, em seguida, os meios necessários
ao seu cumprimento. Com isso, inaugura-se também
a possibilidade de adoção dos mesmos
sistemas nas três Forças.
É possível perceber o impacto de tal
mudança no caso da aquisição
de novos caças para a Força Aérea
Brasileira. Em discussão há alguns
anos, a opção em pauta era basicamente
uma: adquirir, com base nos critérios definidos
pela FAB, o modelo mais moderno possível,
para que ficasse em serviço por um prazo
relativamente longo.
Foram avaliados os modelos da chamada quarta geração
e a concorrência internacional estava na fase
final. Foi ela interrompida. Caso se mantenha a
opção pela compra de aeronaves de
quarta geração, deve-se incluir a
capacitação da indústria nacional
no conteúdo tecnológico da plataforma.
A interrupção do processo licitatório
firmou a percepção de que não
há decisão tomada: todas as propostas
continuam na mesa.
A reavaliação das hipóteses
de emprego abre novas possibilidades não
contempladas pela sistemática anterior.
Sendo o monitoramento do território a tarefa
principal, cabe questionar a prioridade da aquisição
de novos caças em relação aos
demais equipamentos e sistemas necessários.
Uma das opções que agora se apresentam
é o adiamento da compra, direcionando os
recursos para outras quatro iniciativas, todas estreitamente
vinculadas ao monitoramento do território
brasileiro.
A primeira iniciativa seria a modernização
máxima dos aviões já existentes,
buscando-se a modernização dos sistemas
de armas, até o limite da estrutura física
dos atuais aviões.
A segunda seria ampliar os investimentos nos projetos
brasileiros para desenvolvimento dos veículos
aéreos não-tripulados (VANTs), tanto
voltados para a vigilância quanto para o combate.
Observe-se que o uso dos VANTs pode trazer inovações
profundas também nas práticas operacionais
das outras Forças.
A terceira iniciativa possível seria a busca
de um parceiro internacional que domine as tecnologias
envolvidas para o desenvolvimento de um caça
de quinta geração. Esta última
teria a desvantagem de retardar a disponibilização
de aeronaves de última geração
para a FAB, mas apressaria o processo de aquisição
de tecnologias avançadas nesse segmento.
A quarta iniciativa seria o investimento maciço
na formação de recursos humanos em
tecnologias avançadas, em especial as necessárias
para um conflito no espaço cibernético
(cyberspace).
Ressalte-se que não se discute qual a solução
mais barata, discute-se, isto sim, eficiência
no cumprimento das tarefas.
O mesmo se aplica às demais Forças.
Na Marinha, por exemplo, aplica-se aos debates sobre
o papel de submarinos e navios de superfície
na Defesa Nacional. Optando-se por dar maior peso
ao emprego de um ou outro tipo de embarcação,
a Marinha precisará investir nos sistemas
de comunicação e vigilância,
inclusive recorrendo ao apoio de satélites
de comunicações e de vigilância.
Observe-se o dilema que se põe quanto à
Marinha.
Tem a Marinha três grandes funções:
1. monitoramento das águas;
2. negação do uso do mar;
3. projeção de poder.
Como desenvolver essas funções? Devemos
desenvolvê-las de forma igual ou deveremos
optar por um desenvolvimento desigual, mas combinado?
Se optarmos pelo desenvolvimento igual, corre-se
o risco de sermos medíocres em todas elas.
Se devemos optar pelo desenvolvimento desigual,
mas combinado, a função prioritária
deverá ser o monitoramento ou a negação
do uso do mar ou, ainda, a projeção
de poder? A questão é relevante e
as opções estão na mesa.
Reorganização
da Indústria de Defesa
A segunda grande área temática
na elaboração do Plano é a
reorganização da indústria
de Defesa. Importante, nesse aspecto, é o
tipo de indústria de Defesa que o país
deseja e precisa.
O Brasil não pode mais aceitar a condição
de, na melhor das hipóteses, produzir, sob
licença, material desenvolvido em outros
países.
O domínio da tecnologia é um objetivo
consistente com a manutenção da capacidade
dissuasória. A capacitação
tecnológica nacional constitui requisito
para a aquisição de equipamentos.
Observe-se, porém, que a intenção
não é excluir para sempre uma trajetória
de aquisição de equipamentos e de
tecnologias alheias. Nesse primeiro momento, não
se pode considerar a hipótese de investir
recursos e tempo no desenvolvimento de tecnologias
já disponíveis no mercado internacional.
Por outro lado, o país precisa absorver tais
tecnologias e firmar sua capacidade de – com
base nelas, de forma autóctone ou mesmo em
cooperação com outros países
– atender às suas demandas na área.
Embora a ação estatal seja imprescindível
à sobrevivência da indústria
de Defesa, o setor privado tem importante papel
a desempenhar. As possibilidades de derivação
das tecnologias de uso militar para o emprego civil
tornam importante a participação do
setor privado. Muitas tecnologias atualmente aplicadas
na aviação comercial e executiva,
por exemplo, vêm do desenvolvimento de aeronaves
militares.
A interação entre institutos governamentais
e privados, militares e civis, já existe.
Os institutos militares desenvolvem, sozinhos ou
em parcerias com instituições de pesquisa
públicas e de empresas privadas, projetos
de armamentos e equipamentos diversos (materiais
defletores de radar, radares, mísseis, sistemas
para VANTs etc.).
No entanto, as iniciativas nem sempre conseguem
os resultados desejados, seja pela falta de uma
moldura institucional para dar forma à cooperação,
seja devido às incertezas orçamentárias,
seja pelo distanciamento entre os atores.
Quanto às ações das instituições
militares, ressalte-se que, entre as questões
apresentadas a cada Força Singular, indaga-se
quais as iniciativas previstas para o desenvolvimento
das tecnologias necessárias. Há, também,
a preocupação com a integração
dos esforços das três Forças
nessa área.
Os problemas na destinação de verbas
públicas ao setor de Defesa prejudicaram
o uso das compras governamentais como instrumento
de estímulo à capacitação
da indústria nacional. Muitas das empresas
que conseguiram ocupar nichos no mercado o fizeram
graças a exportações, tendo
em vista que as encomendas internas não garantiam
suporte para a continuidade de suas atividades.
Pelo Plano Estratégico Nacional de Defesa,
o governo brasileiro deverá ter papel ativo
nesse processo de consolidação da
indústria nacional de Defesa. Poder-se-á
definir procedimentos especiais de compras públicas
para privilegiar o fornecedor nacional comprometido
com programas de modernização tecnológica.
Poderão ser criados, até mesmo, instrumentos
de participação governamental direta
na gestão das empresas estratégicas
do setor, como ações especiais do
tipo Golden Share.
O Serviço Militar
Discutidas a estrutura das Forças
e a indústria de Defesa, resta ainda a questão
do serviço militar obrigatório.
Durante a maior parte do século XX, as Forças
Armadas foram um nivelador republicano. Constituíram
um espaço de oportunidades iguais para todos,
onde se reproduzia um microcosmo da sociedade brasileira,
tanto do ponto de vista social quanto geográfico.
Esse quadro mudou nos últimos tempos. Hoje,
cerca de 95% dos recrutas são, de fato, voluntários.
Só temos convocação obrigatória
em circunstâncias específicas nas quais,
entre os jovens voluntários, não se
encontram alguns dos perfis necessários ao
preenchimento dos requisitos técnicos das
Forças.
Na prática, o serviço militar está-se
tornando voluntário e perde a característica
de espelho da sociedade. Percebem-se duas possibilidades
para lidar com esse tema. Uma, aprofundar o processo
que vem ocorrendo espontaneamente e tornar voluntário
o serviço militar. A outra é a manutenção
da obrigatoriedade, que pode, no entanto, tomar
diversos rumos.
Se a opção for a obrigatoriedade,
deve-se estudar o aproveitamento da estrutura existente
e da experiência com o programa Soldado Cidadão
(formação profissional para os recrutas)
para aperfeiçoar a educação
dos efetivos incorporados a cada ano, principalmente
nas áreas técnicas e científicas.
Outra possibilidade a ser discutida é o restabelecimento
da efetiva obrigatoriedade. De aproximadamente 1,5
milhão de jovens que se apresentam anualmente,
apenas 600 mil entram em um processo de seleção,
e cerca de 70 a 80 mil são aproveitados.
Apenas cerca de 5% dos alistados são incorporados
às Forças, e o Ministério da
Defesa tem apenas referendado a auto-seleção.
É fundamental reavaliar os critérios
para a seleção dos recrutas. Poder-se-ia
verificar, por exemplo, a viabilidade de levar em
conta, além do perfil funcional adequado
às necessidades das Forças e da capacidade
física e intelectual dos jovens, critério
que visasse à obtenção, na
tropa, da mesma heterogeneidade presente na sociedade.
É necessário, ainda, retomar as discussões
sobre a regulamentação do serviço
social obrigatório, do qual faria parte a
qualificação do jovem para integrar-se
ao esforço nacional em caso de mobilização,
compondo uma reserva civil a ser empregada em situações
de emergência.
Conselho Sul-Americano de
Defesa
Dada a situação do
Brasil no cenário internacional, que necessariamente
implica ações também no campo
da Defesa, vem amadurecendo a idéia de criar,
com todos os países do continente, um Conselho
Sul-Americano de Defesa. Proposta brasileira nesse
sentido foi apresentada na Reunião Extraordinária
de Chefes de Estado e de Governo da Unasul, em 23
de maio.
O governo brasileiro sugere que os países
da região tenham um foro dedicado à
análise e discussão dos temas de Defesa.
Tal foro contribuiria para permitir consolidar o
continente como zona de paz e cooperação,
livre de conflitos, no momento em que a região
ganha protagonismo no mundo.
A afirmação da identidade sul-americana
é um dos objetivos da Unasul e o Brasil realça
a conveniência de que tal afirmação
se dê, também, no campo da Defesa.
As atribuições específicas
do conselho estão em discussão e serão
definidas por consenso entre as partes.
Entre as possíveis atribuições,
destacam-se a implementação de medidas
de fomento da confiança e da transparência
e a coordenação de posições
nos foros multilaterais sobre o tema. Tais medidas
poderiam incluir, por exemplo, a discussão
das políticas de Defesa de cada país,
a elaboração de “livros brancos”
e a integração das bases industriais
de Defesa.
A indústria de Defesa demanda investimentos
significativos que só se justificam pela
existência de uma demanda adequada. Em face
disso, caberia estudar a estruturação
de cadeias de produção de material
de defesa na região. Poder-se-ia aproveitar
as possibilidades de cada país, gerando ganhos
de escala que justificariam elevados investimentos.
A região ganharia, também, pela capacitação
em tecnologias avançadas, com efeitos positivos
em toda a estrutura produtiva de cada país.
A possibilidade de integração das
indústrias de Defesa é real, mesmo
em áreas intensivas em capital e tecnologia.
Alguns componentes da fuselagem das aeronaves da
Embraer, por exemplo, são produzidos no Chile
(ENAER).
A expansão de ações como essa
aumentaria a autonomia da região no suprimento
de seus equipamentos de defesa ou de uso dual.
Quaisquer que sejam as atribuições
dadas ao conselho, a proposta brasileira é
de que este se constitua em foro de discussões,
não se pretendendo que suas decisões
vinculem as partes.
Nos fóruns multilaterais sobre Defesa[2],
o conselho poderia coordenar, previamente, as posições
da região, o que lhe daria maior expressão.
A proposta brasileira não prevê a criação
de exércitos comuns ou de Forças Conjuntas
de caráter permanente, tendo em vista a inexistência
de ameaças comuns. Não se trata de
uma aliança militar clássica.
Para o Brasil, a própria participação
conjunta em Operações de Manutenção
da Paz das Nações Unidas não
implica a criação de estruturas militares
permanentes com esse objetivo. O conselho poderia
tornar-se uma instância de agregação
dos esforços existentes, de modo a organizar
o que vem sendo feito em contatos bilaterais entre
os países envolvidos e entre eles e a ONU.
Algumas medidas que poderiam ser utilizadas pelo
conselho são interações já
existentes entre as Forças Armadas dos países
da região. A cooperação para
formação e treinamento de pessoal
militar, por exemplo, é tradicional na região.
As escolas militares brasileiras são, cada
ano, freqüentadas por dezenas de oficiais de
países vizinhos. Ao retornarem a seus países,
esses militares contribuem para as boas relações
regionais.
Esse intercâmbio, no entanto, é promovido
isoladamente pelas Forças Armadas sul-americanas,
quando deveria configurar-se como política
dos Estados. Elevar tais iniciativas a esse patamar
poderia ser uma atribuição do conselho.
Na base do conselho estariam os próprios
princípios e valores compartilhados pelos
países da região, entre eles a não-intervenção
em assuntos internos e o respeito à soberania,
à autodeterminação e à
integridade territorial dos Estados.
Ademais, considera-se fundamental que, em suas atividades,
o conselho leve em conta as condicionantes geopolíticas
da região, como as relacionadas com as sub-regiões
conformadas pela geografia. Deve-se ter em mente,
por exemplo, as vertentes Platina, Amazônica
e Andina, bem como a existência de sub-regiões
voltadas para os oceanos Atlântico e Pacífico
e para o mar do Caribe.
A Defesa na Agenda Nacional
A elaboração de um
Plano Estratégico de Defesa Nacional busca
evitar a repetição do erro de permitir
que a urgência na solução de
problemas leve à opção por
medidas de rápido impacto que, no longo prazo,
possam mostrar-se inadequadas.
O mais importante nesse processo, no entanto, é
que se consiga recolocar as questões de defesa
na agenda nacional. Não se trata apenas de
mobilizar o governo, mas também de reinserir
o tema no cotidiano da sociedade.
Os trabalhos em andamento demonstram que isso é
possível. O diálogo entre civis e
militares sobre as questões de defesa tem
sido franco e aberto, fundado na mais absoluta transparência
e no pressuposto de que todos os assuntos são
passíveis de discussão. Parlamentares,
empresários, acadêmicos, militares,
políticos da base do governo e da oposição,
todos esses grupos têm participado e participarão
ativamente dos debates para a definição
do que o Brasil quer de suas Forças Armadas.
O sucesso obtido até o momento permite entrever
a efetiva viabilidade de garantir ao Estado brasileiro
os meios adequados para a Defesa Nacional, com a
participação e em benefício
de toda a sociedade. Temos que pensar grande. •
[1]. Pode chegar
a 4,5 milhões de quilômetros quadrados
em decorrência do Plano de Levantamento da
Plataforma Continental Brasileira.
[2]. Junta Interamericana de Defesa (JID), Comissão
de Segurança Hemisférica da OEA, Conferência
de Ministros de Defesa das Américas etc.
|