Crise
Militar
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Defesanet
10 Junho 2005
10 Dez 2003 - Ano X - Número 270
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FORÇAS
ARMADAS
GUERRA POR CIDADANIA III
Um
número crescente de militares de baixa patente questiona
o tradicional código de disciplina do Exercito
e busca seus direitos na Justiça
MAURICI0
DIAS
"SOLDADO
NÃO É ESCRAVO DE OFICIAL"
No olho da
tormenta, o subtenente Edmundo Veloso de Lima fundador da Associação
de Praças, explica suas motivações e metas
0 subtenente
Edmundo Veloso, de 47 anos, é formado em Administração.
Ele é filho do sargento da reserva Edmundo Ferreira Lima,
que não chegou a completar o curso primário. Essa
distância na escolaridade dos 'dois Edmundos', é
urna das mais importantes mudanças do que vêm ocorrendo
e perturbando as Forças Armadas: soldados intelectualmente
mais preparados, mais politizados e com um novo comportamento.
A mudança atinge em cheio um sistema hierárquico
que, com freqüência, resvala na arbitrariedade. Veloso,
por exemplo, diz que os oficiais tratam os praças (categoria
que vai de soldado a subtenente) "como no período
de escravidão". Ele pondera irritado: "Soldado
não é escravo de oficial". Pode ser um exagero,
um desabafo, mas a arbitrariedade nos quartéis não
é mentira:
Em 2000, cinco
praças servindo no Recife (PE) decidiram arriscar o pescoço
para tentar acabar com o "abuso de poder" e buscar mais
participação nas decisões administrativas.
0 subtenente Edmundo Veloso era um deles. Não se rebelaram
como fez o marinheiro João Cândido, em 1910, contra
o uso da chibata. Não mobilizam forças políticas
nem estão inspirados ideologicamente, a exemplo do movimento
liderado, em 1964, pelo controvertido cabo Anselmo. Eles agora
fundaram a Associação de Praças do Exército
Brasileiro (Apeb), dando largada em um movimento que dificilmente
será barrado com punições. É a primeira
associação de militares da ativa desde 1964. Nesta
entrevista a CartaCapital o subtenente Veloso fala como presidente
da Apeb.
CartaCapital:
0 objetivo dos senhores é tomar o poder dos oficiais?
Edmundo
Veloso: Claro que não. Nosso objetivo é o de acabar
com a arbitrariedade, com o abuso de poder, com os desmandos.
Queremos participar de algumas decisões e, com isso, democratizar
as relações hierárquicas.
CC: 0 que
o senhor chama de arbitrariedade dentro dos quartéis?
EV:
A maioria das punições impostas aos praças
é resultado de pura arbitrariedade. Eu mesmo fui vítima
várias vezes. Eles me levaram ao desespero com as perseguições.
Tive de tirar licença para tratamento de saúde.
Entrei com uma ação de danos morais e psicológicos
contra o coronel responsável por isso.
"NOSSO
OBJETIVO É 0 DE ACABAR COM OS DESMANDOS.
A MAIORIA DAS PUNIÇÕES RESULTA DE ARBITRARIEDADE"
CC. 0 Exército
acha que vocês ameaçam a disciplina.
EV:
Nós não desconhecemos que a hierarquia e a disciplina
são os pilares da instituição
militar. Mas seria uma contradição insuportável
se direitos assegurados na Constituição pudessem
ser interpretados como ameaça à disciplina.
CC: D senhor
já ouviu falar no cabo Anselmo?
EV:
Era um cabo da Marinha, não é? Eles tiveram de chegar
àquele limite para poder mostrar à sociedade o que
acontecia nos quartéis. Nossa associação
tem o objetivo de evitar ações extremadas como aquelas.
CC: Como
vocês criaram a associação?
EV: Éramos cinco. Conversamos muito e sabíamos que
a reação ia ser pesada. Avaliamos até mesmo
o impacto em nossas carreiras e o bloqueio da cúpula militar
às nossas promoções.
CC: Os
oficiais alegam que vocês não tentam encaminhar as
questões pelos canais internos de comando. Por que não?
EV:
0 comando do Exército nem sequer respondeu ao nosso ofício
que informava sobre a criação da associação.
Ignoraram. Recusaram a nossa tentativa de aproximação.
Demos conhecimento ao Comando Militar do Nordeste e, uma semana
depois, toda a diretoria foi transferida. Punida por exercer um
direito.
CC: Quando
vocês falam em participação estão pensando
em que exatamente?
EV: Queremos ser ouvidos naquilo que diz respeito a nós,
ao nosso trabalho, ao noosso destino. A cúpula decide sem
ouvir ninguém. Foi criado um grupo de trabalho para estudar
e modificar o estatuto dos militares e nem um só praça
foi convidado para participar da discussão. Seria justo
que tivesse lá pelo menos um representante nosso. A propósito,
o Regulamento Disciplinar também precisa ser modificado.
CC: Mas
o atual só tem um ano de vida...
EV. Ele não foi modificado na essência. Foi feito
um remendo. Houve avanços. Mas são avanços
tardios. Foi acrescentado, por exemplo, o direito de defesa. Em
tese, portanto, admitiram um direito elementar já previsto
na Constituição de 1988. Infelizmente foi para inglês
ver. Na prática as punições estão
ainda à revelia da lei.
CC: 0 que
mais vocês querem mudar?
EV:
Queremos a participação em todos os níveis.
Todas as decisões nas Forças Armadas são
tomadas e definidas na cúpula.
CC: Em
função das peculiaridades das Forças Armadas
é possível abrir essa participação
a esse ponto que vocês pretendem?
EV: É possível sim. Existem associações
de sargentos e praças por toda a Europa. Outro dia fiz
contato com o presidente da associação de Portugal.
Lá eles já tratam diretamente com os ministros.
Aqui o comandante não quer ver ninguém.