C.
280 -PRE/05
São Paulo, 21 de novembro de 2005.
Caros Srs
CHICO OTÁVIO e ALEXANDRE GALANTE
Redatores do Jornal "O GLOBO"
Rio de Janeiro- RJ
Referência: Artigos sobre "FORÇA DESARMADA",
publicados nas Páginas 12 e 14 da Edição
do dia 20/11/05.
Prezados Senhores:
Como Diretor Presidente da Associação Brasileira
das Indústrias de Materiais de Defesa - ABIMDE,
entidade que congrega quarenta e cinco das principais
indústrias de defesa do país e cujo objetivo
principal é defender e buscar melhores condições
para este importante setor do contexto nacional, gostaríamos
de apresentar algumas informações a respeito
de nosso segmento, que consideramos que poderão
vir a acrescentar novos detalhes a respeito de tão
grave situação hoje vivida no país.
Primeiramente o nosso cumprimento pela iniciativa de enfocar
este assunto, pois, infelizmente, apesar de todo esforço
de nossa associação, não temos conseguido
na imprensa em geral eco para as nossas colocações
no sentido de alertar o governo e o povo brasileiros para
a caótica direção que nossa segurança
nacional está, a cada ano, se encaminhando.
Realmente a situação do parque de material
de emprego militar de nossas Forças Armadas é
assustadora e está caminhando em passos largos
para uma total obsolescência, tudo isto conseqüente
de uma absurda política de corte de recursos orçamentários
que vem acontecendo desde o Governo Fernando Henrique,
tendência esta que, apesar das repetidas promessas
do Governo Lula, tem piorado nos últimos anos.
O que vem acontecendo é que os recursos orçamentários,
com o objetivo de investimentos para reaparelhamento e
modernização dos materiais das Forças
Armadas, vêm sendo reduzidos anualmente, o que implicará,
em pouco tempo, em uma indisponibilidade completa e em
uma total obsolescência dos seus equipamentos.
Projetos como a Família de Blindados e a modernização
da Artilharia Antiaérea no Exército, novas
aeronaves e armamentos para Força Aérea
e submarinos para a Marinha, entre outros, estão
fadados a serem condenados, caso persista esta política
absurda de parcos recursos de nosso governo, que mesmo
assim ainda pretende que o Brasil tenha uma maior projeção
em âmbito internacional, pretendendo até
uma cadeira no Conselho Permanente de Segurança
da ONU.
A informação para o público em geral
sobre os recursos orçamentários da União,
destinados ao Ministério da Defesa, em torno de
35,1 bilhões de reais, é perigosa e uma
tremenda falácia, pois conduz a opinião
pública, especialmente aqueles menos informados,
para considerar que os valores a serem disponibilizados
poderão até atender às necessidades
do setor. Há que considerar, porém, que
do valor acima, mais de 70% será destinado ao pagamento
do pessoal civil e militar do Ministério, incluindo
pessoal ativo, aposentados e pensionistas (é o
único Ministério que paga, com seu orçamento,
os aposentados e pensionistas; para os demais é
feito pelo INSS). Do restante do orçamento, cerca
de 25% deverá ser destinado para arcar com os custos
de custeio das Forças, correspondendo ao pagamento
de combustível, alimentação. uniformes,
energia, água e outras despesas relativas à
sobrevivência das organizações militares.
Pode-se facilmente concluir que sobrará um mínimo
(menos de 5 %) para ser utilizado como investimento para
desenvolvimento e aquisição de novos equipamentos,
quantia extremamente incompatível para atender
às necessidades das três Forças, que,
além de tudo, normalmente é contingenciada
durante a execução da política orçamentária
do governo.
Existe, portanto, uma necessidade imediata de serem tomadas
providências para mudança desta situação,
possibilitando recursos suficientes e impositivos para
programas de reaparelhamento e modernização
dos materiais de emprego militar, além da garantia
de sua existência a longo prazo (cinco a dez anos),
pois estes programas normalmente são de longa duração.
Em relação ao dilema "Importar ou reativar
a indústria brasileira", assunto tratado na
segunda parte de sua matéria, a opinião
de nossa associação, que vem sendo apoiada
pelo Ministério da Defesa, ao aprovar a nova Política
Nacional da Indústria de Defesa, é clara
e definitiva, conforme os argumentos abaixo apresentados:
1) As nossas indústrias atualmente possuem capacidade
e competência para atender a quase todas necessidades
de nossas Forças Armadas;
2) Não existe, portanto, na maioria dos casos,
necessidade que sejam importados materiais, em detrimento
de nossas empresas, pois, com algum prazo, os materiais
necessários poderão ser desenvolvidos e
produzidos no país;
3) Em casos excepcionais da necessidade de importação,
deverão ser adotadas medidas de proteção,
idênticas as usadas por outros países ( By
American Act dos EUA), trazendo benefícios para
o setor de defesa brasileiro, como transferência
de tecnologia, Off Set, empregos, instalação
de novas empresas no país, etc:
4) A não importação significará,
em curto espaço de tempo, independência tecnológica
de nossas Forças Armadas, não ficando a
mercê de concessões por parte de outros países,
em caso de algum conflito;
5) Em relação a "Comprar mais barato
no exterior" é outro argumento errôneo
utilizado quando se analisa este assunto. O produto brasileiro,
normalmente é fabricado com custo menor que o de
indústrias estrangeiras. O problema é que,
na composição do preço final, enquanto
as empresas brasileiras têm um aumento de mais de
40% (ICMS, PIS, COFINS, ISLL, IR), as empresas estrangeiras
são beneficiadas com isenção tributária,
pois as Forças Armadas não pagam impostos
(Imposto de importação, IPI e ICMS) quando
adquirem materiais no exterior, o que causa a diferença
de valores.
Poderíamos colocar mais alguns argumentos, mas,
concluindo, gostaríamos de afirmar que não
precisamos ter nossas indústrias reativadas, necessitamos
sim de programas de aquisição das Forças
Armadas, a longo prazo, para permitir planos de carga
de produção, o que dependerá, atualmente,
da maior disponibilidade de recursos com o objetivo de
reaparelhar e modernizar os equipamentos militares.
Permanecemos à disposição para outros
esclarecimentos que se façam necessários.
Atenciosamente