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Almirante
Moura Neto
“Vamos enriquecer
aqui todo nosso urânio”
INICIATIVA levou Lula para
conhecer o projeto de Aramar |
Integrante
de uma família tradicional de oficiais
da Armada, o comandante da Marinha, almirantede-
esquadra Júlio Soares de Moura Neto,
é um grande defensor do projeto do
submarino nuclear. Nomeado em fevereiro
de 2007, ele conseguiu sensibilizar o presidente
Lula sobre o tema ao levá-lo para
conhecer o Centro Experimental de Aramar,
em Iperó (SP), que estava em estado
quase vegetativo. Depois disso, o governo
liberou R$ 1,1 bilhão, em parcelas
de R$ 130 milhões anuais, fora do
orçamento da Marinha, para a conclusão
do projeto do reator nuclear desenvolvido
pela força em Aramar. Nesta entrevista
a ISTOÉ, Moura Neto diz que o Brasil
terá condições de enriquecer
todo o urânio de que necessita para
as usinas de Angra 1, 2 e 3 e futuramente
para o submarino.
ISTOÉ
– Por que o Brasil precisa de um submarino
nuclear?
Almirante Moura Neto – O
submarino é uma arma precisa, extremamente
valorosa em termos de dissuasão.
É o único navio que, por andar
debaixo d’água, obriga os navios
de superfície um grande esforço
para poder localizá-lo. Mas um submarino
convencional tem muitas limitações:
ele é movido por motor elétrico
alimentado por grandes baterias, que precisam
ser recarregadas pelo processo de snorkel.
Isso o obriga a subir à superfície
de tempos em tempos, tornando- o vulnerável.
Já o submarino nuclear fica permanentemente
debaixo d’água; só o
fator humano o restringe, como cansaço
da tripulação etc. Por isso,
ele é importante para ajudar a patrulhar
a extensa costa brasileira.
ISTOÉ
– A liberação do dinheiro
para a conclusão do reator significa
a retomada do projeto de construção
do submarino nuclear brasileiro?
Moura Neto – O projeto de
Aramar não é o projeto da
construção do submarino nuclear.
O programa nuclear da Marinha é o
da viabilização do ciclo de
enriquecimento de urânio e da construção
do reator nuclear. A liberação
do dinheiro permitirá a conclusão
de um reator de 11 MW de potência.
É um reator dual, que não
apenas poderá propelir um submarino
como também produzir eletricidade
para uma cidade de 20 mil habitantes. A
decisão de concluir o projeto do
submarino nuclear é uma decisão
política.
“A
idéia é buscar transferência
de tecnologia para beneficiar a indústria
nacional”
ISTOÉ – Nós
já dominamos completamente o ciclo
do enriquecimento de urânio?
Moura Neto – A primeira parte,
sim, em nível laboratorial, mas algumas
etapas desse ciclo ainda são realizadas
fora do País. A transformação
do yellow cake, produto da primeira etapa
de beneficiamento do urânio, em gás
hexafluoreto de urânio, é feita
no Canadá. Esse gás depois
é transportado para a Europa, onde
um consórcio que reúne Inglaterra,
Alemanha e Holanda o enriquece. No momento
em que a nossa fábrica estiver funcionando,
em 2010, poderemos enriquecer todo o urânio
aqui. Com o protótipo dessa fábrica,
poderá ser construída uma
unidade maior em Rezende, na Indústria
Nuclear Brasileira (INB). A Marinha também
fabrica e vem fornecendo ultracentrífugas
à INB. Dentro de um período
de tempo que eu não sei especificar,
nós poderemos enriquecer todo o urânio
de que necessitamos aqui no Brasil.
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Configuração
do futuro submarino nuclear |
ISTOÉ
– O Brasil sofre pressões por
causa do programa do submarino nuclear?
Moura Neto – São pressões
veladas; quem domina a tecnologia nuclear
não a fornece a ninguém. Mas
o Brasil assinou o Tratado de Não-Proliferação
Nuclear (TNP) e também assinou o
Acordo Quadripartite, entre a agência,
Brasil, Argentina e a ABCC (Agência
Brasileira Argentina de Contabilidade Nuclear).
Esse acordo garante as inspeções
periódicas da Associação
Internacional de Energia Atômica (Aiea),
mas também garante a inviolabilidade
de nossas instalações.
ISTOÉ
– O reaparelhamento da Marinha pode
ser feito em colaboração com
a indústria nacional?
Moura Neto – O que o ministro
(da Defesa) disse é que o programa
de reaparelhamento da Marinha vai privilegiar
a indústria nacional. Aliás,
no programa nuclear, tudo foi desenvolvido
com tecnologia nossa, até porque
essa é uma tecnologia muito sensível
e teria sido muito difícil obtê-la
de outra maneira. A idéia é
buscar transferência de tecnologia
para beneficiar a indústria nacional,
porque isso trará a independência
na área de defesa.
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