Defesa vulnerável
- S.O.S.
Demitri Túlio,
Cláudio Ribeiro,
Luiz Henrique Campos e Thiago Cafardo
A grave situação
de sucateamento da frota naval da Marinha brasileira
coloca o País em estado de alerta. Ainda
mais agora com as descobertas das reservas de
petróleo e gás natural do campo
de Júpiter e da área de pré-sal
no campo de Tupi, na bacia de Santos (SP).
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Capa do
jornal O Povo
Edição 26 Agosto 2008 |
A Marinha de Guerra
do Brasil está falida e volta a pedir socorro.
Da frota naval composta por navios, submarinos,
aviões e helicópteros, nenhuma unidade
opera em condições plenas. O que
ainda funciona é em situação
de "restrição". Caso o
País se envolvesse hoje em um conflito
bélico internacional, as defesas pelo mar
estariam vulneráveis. A constatação
é de um relatório elaborado pela
própria força armada brasileira.
O POVO lança luz sobre pontos alarmantes
do documento Situação da Marinha
- Necessidades Orçamentárias, que
foi apresentado pelo comandante-geral da Marinha,
almirante-de-esquadra Júlio Soares de Moura
Neto, no último dia 12 de junho, aos líderes
de bancadas de partidos no Congresso Nacional.
O militar revela que a Marinha está quase
parada. Há um ano, em agosto de 2007, o
oficial já havia feito o alerta e de lá
pra cá a situação só
se agravou.
Para se ter uma
idéia da grave situação do
sucateamento da frota brasileira, a Marinha vem
operando em alguns casos com apenas 4% de seu
poder naval. No quadro "Situação
atual dos meios da esquadra brasileira" está
exposto o tamanho do estrago. Dos 23 aviões
A-4 que possui, 22 estão encostados e só
um funciona. Quando o assunto é helicóptero,
somente 15 dos 68 existentes estão voando
e ainda operam com restrições. Cinqüenta
e três estão quebrados.
Pelo céu,
o País teria o suposto socorro da Força
Aérea Brasileira (FAB) no caso de ter de
responder a um ataque inimigo. Porém, no
mar, o problema não seria fácil
de resolver. No relatório Situação
da Marinha, está escrito que dos 25 navios
que a Marinha de Guerra do Brasil tem, somente
14 estão operando e "com restrições".
Onze estão "imobilizados". No
item submarinos, antiga reivindicação
dos estrategistas em defesa marítima, três
operam "com restrições".
O Brasil possui cinco unidades e dois não
têm condições de patrulha
ou pesquisa.
O cenário
traçado pelo estudo é dos mais graves
e prevê o desaparecimento do poder naval
do País até 2025, se não
houver investimento urgente e planejado na Marinha
do Brasil. "Vale lembrar que a perda de credibilidade
da capacidade dissuasória nacional tende
a fragilizar a política externa brasileira
em todos os foros de atuação e decisão",
sentencia o texto.
De acordo com
o comandante da Marinha, almirante Júlio
Soares Neto, a armada marítima brasileira
necessitaria minimamente de R$ 2,8 bilhões
em 2009 para a manutenção e operação
das forças navais, aeronavais e de fuzileiros.
Além do "preparo e do adestramento
do seu pessoal para a condução das
atividades subsidiárias e funcionamento
básico-administrativo das organizações
militares".
Para o ano de
2008, revela o documento, a Marinha teve um contingenciamento
de R$ 455 milhões. O Plano de Recuperação
da Marinha (PRM) previa um montante de R$ 2,6
bilhões. "Recebemos do Executivo somente
R$ 2,135 bilhões. Com as emendas, alcançamos
o valor de R$ 2,177 bilhões. Todavia, com
o fim da CPMF ficou em R$ 1,976 bilhões.
Posteriormente, com a edição do
Decreto de Programação Orçamentária
e Financeira, recebemos apenas R$ 1,516 bilhões.
Em virtude de Emendas Parlamentares, o valor foi
ampliado para R$ 1,521 bilhões", detalha
o relatório.
Atribuições
da Marinha
- A Constituição
Federal, no artigo 42, prevê que as Forças
Armadas destinam-se à defesa da Pátria
e à garantia dos poderes constitucionais.
A defesa externa é atividade-fim das Forças
Armadas.
- O Poder Naval
é o componente militar do Poder Marítimo,
capaz de atuar no mar, em terra e nas águas
interiores.
São
tarefas básicas da Marinha:
- Controlar
áreas marítimas: É a garantia
na utilização de áreas marítimas
limitadas, na intensidade adequada ao apoio e
à defesa dos interesses do país.
- Negar o uso
do mar ao inimigo: Visa dificultar o estabelecimento
do controle de área marítima pelo
inimigo. O submarino, principalmente por sua capacidade
de ocultação, é a arma por
excelência para o cumprimento desta tarefa.
- Projetar poder
sobre terra: Dado o desenvolvimento atual de operações
multinacionais de paz em áreas conflagradas,
é ter poder de desenvolver atividades como
bombardeio naval, aeronaval e de operações
anfíbias.
- Contribuir
para a dissuasão: É demonstrar,
por atos de presença e força, o
Poder Naval quando necessário. Para que
inspire credibilidade quanto ao emprego da força
armada naval.
Pela Lei Complementar
nº 97/99, alterada pela lei 117/2004, a Marinha
do Brasil também tem atribuições
subsidiárias às Forças Armadas.
São elas:
- Orientar e controlar
a Marinha Mercante no que interessa à Defesa
Nacional
- Prover a segurança
da navegação aquaviária
- Formular e conduzir
políticas nacionais que digam respeito
ao mar
- Implementar e
fiscalizar o cumprimento de leis e regulamentos
no mar e águas interiores
- Cooperar com
órgãos federais na repressão
aos delitos de repercussão nacional ou
internacional
Fonte: Relatório Situação
da Marinha, necessidades orçamentárias.
Governo corta royalties
O relatório
Situação da Marinha - necessidade
orçamentárias mostra que o "sucateamento"
da frota naval brasileira está também
ligado ao repasse insuficiente de royalties da
produção de petróleo e gás
natural a que a Marinha tem direito. "Paradoxalmente,
existem recursos para atender às necessidades
mínimas da Força e a implementação
do Programa de Reaparelhamento da Marinha",
atesta o estudo.
Segundo demonstrou
o comandante-geral da Marinha, almirante-de-esquadra
Júlio Soares de Moura Neto, aos líderes
de partidos no Congresso Nacional, em 2008 a instituição
militar deveria receber R$ 1,7 bilhão de
royalties. "A parcela efetivamente alocada
na rubrica de Outros Custeios e Capital (OCC)"
foi de R$ 994 milhões. "Ressalte-se
que os R$ 700 milhões restantes dos royalties
vinculados à Marinha foram lançados
à conta da Reserva de Contingência
da LOA".
Pelas estimativas
calculadas pelo comando da Marinha, até
o fim deste ano o montante de royalties destinados
à força naval brasileira deverá
chegar a R$ 4 bilhões. Dinheiro que sobraria,
já que a previsão orçamentária
para suprir necessidades rotineiras da armada
e recuperação de seu poder naval
está calculada em R$ 2,8 bilhões.
As Leis do Petróleo,
nº 7.990/89 e 9.478/97, determinam o repasse
de recursos complementares ao orçamento
da Marinha do Brasil para que sejam desenvolvidas
atividades de fiscalização e proteção
das áreas produtoras de petróleo
e gás natural em plataformas continentais
da estatal.
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