Marinha do Brasil

Defesanet 19 Maio 2005

Opinião:
Espírito do Mercosul?

Francisco Ferro
Jornalista
Diretor-Geral/Editor Chefe
Tecnologia & Defesa

Há alguns anos, durante uma entrevista no então Ministério da Marinha, em Brasília, ouvimos do titular que respondia pela pasta a afirmação de que o bloco comercial implementado no Cone Sul da América havia, na prática, sido iniciado pela Força Naval brasileira. O raciocínio nos pareceu bastante correto. Afinal, já há tempos, a realização das Operações Araex e Fraterno vinham promovendo uma integração (ao menos nas intenções) entre a Marinha do Brasil e a Armada Argentina. E o mais importante; graças à presença dos navios-aeródromos brasileiros - primeiro o saudoso A-11 Minas Gerais e agora o A-12 São Paulo -,. os aviadores navais argentinos vêm conseguindo manter a sua capacitação operacional (bastante boa, por sinal), desde a baixa do ex- ARA Veinte e Cinco de Mayo. Porém, e ao que nos parece, com também uma via de mão única, a exemplo, e guardadas as devidas proporções, da área comercial, onde os produtos brasileiros não podem, digamos, levar maiores vantagens respaldados que são pelo potencial industrial aqui instalado. Alguns fatos nos conduzem a tais pensamentos.

Vejamos, pois:

1 - A par da política de boa vizinhança e estreitamento de laços, algo que absolutamente não contestamos, o que a Marinha do Brasil, efetivamente, lucra com aqueles exercícios e quanto os mesmos custam? Mantê-los e cancelar outros como as Operação Dragão, por falta de verbas, é vantajoso?

2 - Recentemente, durante a última Operação Fraterno, por uma lamentável (e extremamente perigosa) falha de sistemas, a fragata argentina ARA Sarandi alvejou a fragata brasileira Rademaker inutilizando o lançador de proa do Seawolf e seu radar diretor de tiro, o mastro principal e danificou a superestrutura em diversos pontos. Para poder colocar o navio novamente em operação, a Marinha do Brasil acabou por retirar as peças e componentes destruídos, da fragata Dodsworth o que inviabilizou, de vez, qualquer intenção de colocá-la novamente em serviço.
E a conta desses estragos?

3 - Procurando administrar da melhor maneira possível a terrível penúria em que vive, a Marinha do Brasil conseguiu, finalmente, verba para contratar a manutenção em condições de vôo de seis ( o número é este mesmo!!!) de um total de 23 aviões A-4 Skyhawk. Quem vai executar o trabalho é a Lockheed-Martin, da Argentina. Até aí, nada demais, pois tudo ocorreu dentro de um processo normal de licitação internacional. O que se estranha, novamente, é a "mão única da estrada". Sabe-se que a Armada Argentina está viabilizando junto a empresas européias a construção de navios-patrulha oceânicos do mesmo porte daquele projetado no Brasil e que a Marinha daqui tanto necessita e não tem dinheiro para construir. Ora, porquê então não houve uma associação ou conjugação de esforços entre ambas as instituições para a adoção de uma Classe única desse tipo de navio, o que sem dúvida os baratearia e simplificaria ainda o fluxo logístico e a manutenção dos mesmos?

4 - Bem, mas o submarino ARA Santa Cruz fez a sua revisão de meia vida, que inclui o corte do casco com o emprego de tecnologia avançada, no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. Mas também não se pode negar que, em seguida, praticamente, o Estaleiro Domecq García, na Argentina, foi reinaugurado com plena capacitação, dentro de uma política de fortalecimento do Poder Naval argentino que, certamente, não irá mais precisar recorrer ao vizinho; ao contrário, poderá (e o será) um concorrente.

Sem querer dar a impressão de estarmos criando um clima nada interessante e razoável, o que achamos é que, tal qual nos demais setores que, de uma forma ou de outra, promovem uma necessária integração entre as duas nações, o militar também precisa ser melhor direcionado em suas necessidades comuns.

Mas as coisas continuam generosamente estranhas, também em relação a outro parceiro do Mercosul. Desde 2002, ao que nos consta, a Marinha do Brasil espera receber o valor referente a 70 mil litros de óleo combustível transferidos para a fragata ROU Montevideo, durante a Operação Atlasur, com a finalidade de que este navio conseguisse realizar as travessias entre a América do Sul e a África. Agora, a Armada Uruguaia incorporou o navio de apoio logístico, de origem alemã, ROU Artigas, o qual será o primeiro daquele país a operar uma aeronave embarcada. Para comemorar o relevante acontecimento, o governo brasileiro vai presentear ( é de graça mesmo) o navio uruguaio, quando de sua passagem pelo Brasil a caminho de sua nova pátria, com um dos únicos helicópteros Esquilo biturbina (UH-13, o 7061) ainda em condições de vôo na Força Aeronaval da Marinha do Brasil.

Talvez, estejamos sendo xenófobo ou ranzinza demais - cacoetes de uma idade alcançada, mas que já vivenciou coisas demais e muito pouco viu se modificar. Quem sabe o caminho não seja por aí. Afinal, parece que não temos uma linha costeira de 7.400km e uma área marítima de 4,5 milhões de km2 que precisam ser vigiados e quiçá defendidos, pois temos uma Marinha que quase não tem navios e cujas poucas aeronaves estão, em sua maior parte, estocadas por falta de condições de vôo.

Assim, vamos então continuar com as benesses às custas do pouco que resta de operacionalidade na Esquadra brasileira e do bolso do contribuinte que, no frigir dos ovos, é quem paga as contas todas.


 

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