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Marinha
do Brasil
Opinião:
Espírito do Mercosul?
Francisco
Ferro
Jornalista
Diretor-Geral/Editor Chefe
Tecnologia & Defesa
Há
alguns anos, durante uma entrevista no então Ministério
da Marinha, em Brasília, ouvimos do titular que respondia
pela pasta a afirmação de que o bloco comercial implementado
no Cone Sul da América havia, na prática, sido iniciado
pela Força Naval brasileira. O raciocínio nos pareceu
bastante correto. Afinal, já há tempos, a realização
das Operações Araex e Fraterno vinham promovendo uma
integração (ao menos nas intenções)
entre a Marinha do Brasil e a Armada Argentina. E o mais importante;
graças à presença dos navios-aeródromos
brasileiros - primeiro o saudoso A-11 Minas Gerais e agora o A-12
São Paulo -,. os aviadores navais argentinos vêm conseguindo
manter a sua capacitação operacional (bastante boa,
por sinal), desde a baixa do ex- ARA Veinte e Cinco de Mayo. Porém,
e ao que nos parece, com também uma via de mão única,
a exemplo, e guardadas as devidas proporções, da área
comercial, onde os produtos brasileiros não podem, digamos,
levar maiores vantagens respaldados que são pelo potencial
industrial aqui instalado. Alguns fatos nos conduzem a tais pensamentos.
Vejamos, pois:
1 - A par da política de boa vizinhança e estreitamento
de laços, algo que absolutamente não contestamos,
o que a Marinha do Brasil, efetivamente, lucra com aqueles exercícios
e quanto os mesmos custam? Mantê-los e cancelar outros como
as Operação Dragão, por falta de verbas, é
vantajoso?
2 - Recentemente, durante a última Operação
Fraterno, por uma lamentável (e extremamente perigosa) falha
de sistemas, a fragata argentina ARA Sarandi alvejou a fragata brasileira
Rademaker inutilizando o lançador de proa do Seawolf e seu
radar diretor de tiro, o mastro principal e danificou a superestrutura
em diversos pontos. Para poder colocar o navio novamente em operação,
a Marinha do Brasil acabou por retirar as peças e componentes
destruídos, da fragata Dodsworth o que inviabilizou, de vez,
qualquer intenção de colocá-la novamente em
serviço.
E a conta desses estragos?
3 - Procurando administrar da melhor maneira possível a terrível
penúria em que vive, a Marinha do Brasil conseguiu, finalmente,
verba para contratar a manutenção em condições
de vôo de seis ( o número é este mesmo!!!) de
um total de 23 aviões A-4 Skyhawk. Quem vai executar o trabalho
é a Lockheed-Martin, da Argentina. Até aí,
nada demais, pois tudo ocorreu dentro de um processo normal de licitação
internacional. O que se estranha, novamente, é a "mão
única da estrada". Sabe-se que a Armada Argentina está
viabilizando junto a empresas européias a construção
de navios-patrulha oceânicos do mesmo porte daquele projetado
no Brasil e que a Marinha daqui tanto necessita e não tem
dinheiro para construir. Ora, porquê então não
houve uma associação ou conjugação de
esforços entre ambas as instituições para a
adoção de uma Classe única desse tipo de navio,
o que sem dúvida os baratearia e simplificaria ainda o fluxo
logístico e a manutenção dos mesmos?
4 - Bem, mas o submarino ARA Santa Cruz fez a sua revisão
de meia vida, que inclui o corte do casco com o emprego de tecnologia
avançada, no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. Mas também
não se pode negar que, em seguida, praticamente, o Estaleiro
Domecq García, na Argentina, foi reinaugurado com plena capacitação,
dentro de uma política de fortalecimento do Poder Naval argentino
que, certamente, não irá mais precisar recorrer ao
vizinho; ao contrário, poderá (e o será) um
concorrente.
Sem querer dar a impressão de estarmos criando um clima nada
interessante e razoável, o que achamos é que, tal
qual nos demais setores que, de uma forma ou de outra, promovem
uma necessária integração entre as duas nações,
o militar também precisa ser melhor direcionado em suas necessidades
comuns.
Mas as coisas continuam generosamente estranhas, também em
relação a outro parceiro do Mercosul. Desde 2002,
ao que nos consta, a Marinha do Brasil espera receber o valor referente
a 70 mil litros de óleo combustível transferidos para
a fragata ROU Montevideo, durante a Operação Atlasur,
com a finalidade de que este navio conseguisse realizar as travessias
entre a América do Sul e a África. Agora, a Armada
Uruguaia incorporou o navio de apoio logístico, de origem
alemã, ROU Artigas, o qual será o primeiro daquele
país a operar uma aeronave embarcada. Para comemorar o relevante
acontecimento, o governo brasileiro vai presentear ( é de
graça mesmo) o navio uruguaio, quando de sua passagem pelo
Brasil a caminho de sua nova pátria, com um dos únicos
helicópteros Esquilo biturbina (UH-13, o 7061) ainda em condições
de vôo na Força Aeronaval da Marinha do Brasil.
Talvez, estejamos sendo xenófobo ou ranzinza demais - cacoetes
de uma idade alcançada, mas que já vivenciou coisas
demais e muito pouco viu se modificar. Quem sabe o caminho não
seja por aí. Afinal, parece que não temos uma linha
costeira de 7.400km e uma área marítima de 4,5 milhões
de km2 que precisam ser vigiados e quiçá defendidos,
pois temos uma Marinha que quase não tem navios e cujas poucas
aeronaves estão, em sua maior parte, estocadas por falta
de condições de vôo.
Assim, vamos então continuar com as benesses às custas
do pouco que resta de operacionalidade na Esquadra brasileira e
do bolso do contribuinte que, no frigir dos ovos, é quem
paga as contas todas.
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