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Um acontecimento lamentável, mas anunciado
Recentemente, o comandante da Marinha do Brasil, almirante-de-esquadra Roberto Guimarães Carvalho, publicou em um grande jornal, também reproduzido aqui no Defesanet, um texto de sua autoria, de muita propriedade, aliás, chamado "Amazônia Azul". Foi mais um alerta, dos muitos já feitos não apenas por diversos chefes navais mas também em diversos órgãos de imprensa realmente comprometidos com os legítimos interesses nacionais, a respeito do potencial de riquezas pertencente aos brasileiros e que se oculta sob a imensa massa líquida oceânica. Um alerta sobre a necessidade de vigiar e garantir a posse desse potencial.
Reproduzindo as palavras do próprio almirante Carvalho, " todos os bens econômicos existentes na massa líquida, sobre o leito do mar e no subsolo marinho, ao longo de uma faixa litorânea de 200 milhas marítimas de largura, na chamada Zona Econômica Exclusiva (ZEE), constituem propriedade exclusiva do país ribeirinho". A isso, conforme escreveu ainda o almirante, junte-se a Plataforma Continental; no caso do Brasil, chega-se a 4,5 milhões de quilômetros quadrados, ou seja, um acréscimo de mais de 50% à área continental do País. Tudo, de acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos do Mar, da qual mais de uma centena de nações são signatárias. Em muitas oportunidades, Tecnologia & Defesa/Defesanet apresentaram esses dados, os quais, não são de forma alguma desconhecidos de seus leitores e visitantes. Também não o são daqueles que têm a responsabilidade ( e aqui deveria se exigir, sobretudo, consciência) de prover a Marinha dos recursos adequados para cumprir eficazmente seu papel perante a sociedade brasileira que tem 95% de seu comércio exterior feito pelo mar e extrai do oceano 80% do seu petróleo, para citar apenas dois exemplos. Ficar batendo nesta tecla incessantemente pode parecer "chover no molhado" (sem a intenção do trocadilho), mas já há vários anos o Poder ( ou o Puder..., como dizia um velho e já falecido jornalista) tem se caracterizado por mentes com altas e perigosas doses de "impermeabilização".
Pois bem, na edição 99 de Tecnologia & Defesa estaremos falando das compras que a Armada do Chile vem fazendo, uma fragata Tipo 22 Lote 2, já recebida e mais quatro fragatas de origem holandesa (sem contar os dois submarinos Tipo Scorpéne e a possibilidade de mais uma fragata Tipo 22); da breve chegada para a Marinha do Uruguai de duas corvetas; de outras Classe Lupo para o Peru; de modernizações na Venezuela; enfim, de iniciativas que países vizinhos fazem a despeito das dificuldades para manterem suas instituições navais em razoáveis condições de realizar ações dissuasórias, de presença e de garantia de seus direitos, entre outras.
Sem dúvida, estaríamos muito satisfeitos se, da mesma forma, fosse possível publicar boas notícias sobre a Marinha do Brasil. Seria ótimo escrever que a corveta Barroso estava (finalmente...) caminhando para a fase final de sua construção e que haviam sido batidas as quilhas de outras unidades da Classe, que o submarino Tikuna estaria quase pronto e os outros projetos caminhando bem (e não vamos nos esquecer de quanto isso pode gerar em ganhos tecnológicos, em impostos e empregos), que a Aviação Naval estaria levando adiante seus projetos visando a modernização dos A-4, substituição dos Sea King, mantendo a disponibilidade de vôo de outras aeronaves em níveis condizentes, e tantas outras coisas mais... ainda que em proporções modestas!
Porém, a realidade é que até mesmo recursos para a manutenção dos já insuficientes meios existentes continuam sujeitos ao famoso expediente do "contingenciamento" - que significa não liberar dinheiro que já existe e com finalidade definida, para assuntos que não se traduzem em votos - não são liberados. A propósito, recomendamos a atenta leitura do artigo publicado em nossa edição 98, intitulado "Aviação Naval -Uma visão a médio e curto prazos". Outros importantes programas, "inexplicavelmente" ficam parados nas gavetas brasilienses e dali, com o concurso de uma incrível força gravitacional, não conseguem se desprender e seguir seu curso normal.
Assim, neste dia 11 de março, devido à degradação do equipamento e sistemas e especialmente pela falta de recursos orçamentários para a manutenção e operação dos navios, em cerimônia (lamentável) na Base Naval do Rio de Janeiro, acontecerá a mostra de desarmamento e passagem para a reserva do contratorpedeiro Pernambuco(D-30) e da fragata Dodsworth(F-47). Pois é, infelizmente, acreditamos que se as coisas não mudarem - e para ontem - não serão apenas estas duas belonaves.
Citando, para terminar, novamente o almirante Carvalho que lembrou o que disse certa vez Rui Barbosa - "Esquadras não se improvisam" - ficam, e desculpem a insistência, perguntas como: Quando o Brasil vai levar realmente a sério a questão de que é preciso ter um Poder Militar com credibilidade - sem ser nenhuma "superpotência" - para respaldar seus interesses? Quanto tempo vai demorar para se perceber que setores como a construção naval, neste caso, além de estratégicos, significam milhares de empregos? Até quando, em caso de uma necessidade que pode surgir de repente, o Brasil será improvisado?
Francisco Ferro redacao@tecnodefesa.com.br Editor Chefe
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