COBERTURA ESPECIAL - KC-390 - Aviação

22 de Novembro, 2012 - 10:00 ( Brasília )

Fornecedor da cadeia aeronáutica enfrenta retração de encomendas

Série de três artigos publicados no jornal Valor

DefesaNet

Série de três artigos publicados pelo jornal Valor, 22 Novembro 2012.

Fornecedor da cadeia aeronáutica enfrenta retração de encomendas Link

México é exemplo de sucesso no setor Link

KC-390 - Companhia nacional perde espaço Link

Virgínia Silveira



A crise econômica nos Estados Unidos e Europa e seus reflexos no mercado aeronáutico atingem em cheio os fornecedores da Embraer no Brasil, que já registram uma retração de pedidos da ordem de 20% a 30%. Embora o mercado aponte para um crescimento da venda de jatos regionais nos EUA nos próximos meses, a disputa por novos contratos vem ficando cada vez mais acirrada com a entrada de novos competidores.

Além da Bombardier, com o jato CS-100, a fabricante brasileira também disputa a preferência dos operadores com o modelo japonês Mitsubishi Regional Jet, o chinês Comac ARJ-21 e o russo Sukhoi Superjet. Segundo relatório recente do J P Morgan, esses aviões foram responsáveis por 51% das 430 encomendas líquidas feitas entre 2009 e 2011, contra 19% entre os anos de 2007 e 2008.

A dependência das encomendas da Embraer, que vem reduzindo o volume de compra de peças no Brasil, associada à falta de capacidade financeira para investir em novos projetos e novas tecnologias são apontadas como as principais causas para a situação crítica que vive a cadeia Aeronáutica brasileira, formada hoje por cerca de 120 empresas. Esse parque emprega em torno de cinco mil pessoas, segundo Cecomp.

"Como o setor aeronáutico está passando por uma crise e o ritmo de produção foi reduzido, as empresas têm dificuldades para pagar os empréstimos já feitos e também para conseguir renegociar as dívidas ou mesmo para novos recursos", explica um fornecedor da cadeia Aeronáutica.

A Graúna, de Caçapava, considerada uma das principais fornecedoras da Embraer, esteve a ponto de falir e hoje está em processo de recuperação judicial. O diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, Edimir Marcolino da Silva, conta que para salvar a empresa o BNDES comprou 40% do capital, mas praticamente 100% do que a empresa fatura ainda depende da Embraer.

A empresa chegou a fornecer peças para a fabricante de motores canadense Pratt & Whitney, mas o contrato não foi adiante. "Nenhuma empresa da cadeia Aeronáutica, que tem grande dependência com a Embraer, está bem. Até 2010, a Embraer exigia que as suas fornecedoras dedicassem 70% da produção para a empresa, independente de ter pedidos ou não", afirma o sindicalista.

A diversificação de atividades, considerada uma das alternativas para reduzir essa dependência e equilibrar as receitas, vem apresentando bons resultados, mas ainda para um número reduzido de empresas. É o caso da Globo Usinagem, que até o ano passado dedicava 80% da sua produção para a Embraer. "Hoje, estamos em uma situação sustentável, com 65% de nossas atividades para a Embraer e o restante para os setores automotivo, de óleo e gás e também exportação", diz o diretor da empresa, Mauro Ferreira.

A Globo fornece peças Aeronáuticas estruturais para a empresa belga Asco e americana Eaton Aerospace, utilizadas na fabricação de partes dos aviões da Boeing e da Airbus. Para 2013, segundo ele, a meta da Globo é que o percentual da produção para a Embraer seja de 60%. A empresa se fortaleceu com investimentos que fez durante a crise. "Aplicamos R$ 6 milhões em novos galpões e na modernização do parque fabril. Também criamos um setor de vendas forte para explorar oportunidades no mercado externo", explica o empresário.

O diretor do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) em São José dos Campos, Almir Fernandes, disse, no entanto, que o case de sucesso da Globo Usinagem ainda faz parte da lista de exceções da cadeia. "A maioria das empresas está com parte da produção ociosa e vêm mantendo as instalações mais enxutas para continuarem no mercado", afirmou.

A Embraer, segundo Fernandes, está comprando em torno de 60% do que comprava antes da crise de 2008. "As empresas investiram muito para atender o crescimento da demanda da Embraer, mas a crise derrubou muita gente e algumas empresas não conseguiram se recuperar", explicou.

A Embraer informou que não tem planos de reduzir a produção em 2013 e que espera um número muito similar de entregas, ainda que possa haver um mix diferente de aeronaves em relação a este ano.

O processo de internacionalização da fabricante brasileira, segundo o Valor apurou, com a recente inauguração de duas fábricas em Portugal e uma fábrica nos Estados Unidos, também contribui para que a situação da cadeia Aeronáutica brasileira esteja se agravando, tendo em vista que as atividades desenvolvidas pelas empresas respondem, em média, por 80% das suas receitas.

Os fornecedores reclamam ainda da falta de um posicionamento mais firme do governo, que não começou a colocar em prática uma política industrial bem definida para exigir e viabilizar, por exemplo, uma maior participação da cadeia Aeronáutica na fase de desenvolvimento de projetos financiados com recursos públicos, como o do cargueiro militar KC-390. A previsão é que o desenvolvimento da aeronave absorva US$ 2 bilhões em investimentos.

O Ministério da Defesa explica que, nos casos em que foi possível, foram selecionadas empresas nacionais para o fornecimento de alguns sistemas estratégicos do KC-390. "Há casos em que não há empresas nacionais capacitadas a fornecer os sistemas, como por exemplo, os motores, aviônica e sistema de lançamento de cargas", respondeu o ministério.

Sobre os planos da Embraer para a produção de peças do KC-390 em Portugal, Argentina e República Tcheca, o presidente da divisão de Defesa e Segurança da empresa, Luiz Carlos Aguiar, explica que ela representará uma parcela mínima do volume total previsto para o programa. "Fizemos isso para garantir a venda externa do avião, porque esses parceiros, que também participam da fase de desenvolvimento, assinaram um compromisso de aquisição das aeronaves", afirmou.

Aguiar lembra ainda que a República Tcheca e Portugal são países membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Nato) e por conta disso o KC-390 já é mencionado no catálogo da entidade como um dos produtos de referência no segmento de cargueiros. "É importante lembrar que se não houver venda internacional do KC-390, ele não vai trazer os royalties, impostos, divisas e empregos na produção no Brasil", ressalta.

Mesmo nos casos de compra de componentes importados, segundo a FAB, o programa do KC-390 terá acordos de offset (que envolvem compensações comercial, industrial e tecnológica) com fornecedores de diferentes países. Atualmente, a FAB informa que estão em negociação 14 acordos relacionados ao programa do KC-390, sendo que um deles diz respeito aos sistemas aviônicos, que serão desenvolvidos em parte no Brasil pela fabricante AEL Sistemas.