Fel
com fel se paga
A Schincariol prepara seu contra-ataque às recentes
denúncias de sonegação fiscal, que
culminaram com a prisão de acionistas e diretores
da empresa.
Todas
as armas serão apontadas na direção
da AmBev. A Schincariol está montando uma tour
de force com o objetivo de comprovar formalmente na Justiça
a participação direta da concorrente no
episódio. Por participação direta
entenda-se tanto a utilização de meios pouco
ortodoxos para obter informações sigilosas
acerca da indústria paulista quanto o vazamento
de dados para a imprensa e o envio de dossiês para
os órgãos da Receita, estaduais e federal,
e para a própria Polícia Federal.
Como
diria Roberto Jefferson, todo mundo ligado à indústria
de bebidas está cansado de saber que a AmBev arregimentou
uma tropa de choque com a única finalidade de revirar
de cima a baixo os números da Schincariol. Só
falta aparecer a prova. Na edição de 28
de abril deste ano, o RR já informava que a empresa
belga havia montado o que, internamente, era conhecido
de maneira informal como "comitê schin",
um serviço de inteligência com profissionais
das mais diversas áreas de atuação
reunidos para mapear todos os passos da concorrente.
Todo
este enredo suscita uma nova abordagem para as discussões
sobre as mudanças na legislação da
concorrência econômica. Na última semana,
o episódio Schincariol deflagrou uma série
de debates entre os conselheiros do Cade, os integrantes
da SDE e da Seae e as principais bancas de advocacia da
área de direito econômico.
A
questão visceral não é a atuação
da Polícia Federal, que estava cumprindo o seu
papel - ressalvas à truculência adotada na
operação. O que se discute nos órgãos
de defesa da concorrência é o perigoso e
surreal precedente que será aberto caso se encontre
a digital da AmBev na recente diligência contra
a Schincariol. Uma coisa é a Polícia Federal
e a Receita desempenharem suas funções.
A
outra é a AmBev instrumentalizar e capitalizar
para si uma operação oficial conduzida por
autoridades do governo.
Esta
proximidade entre empresas e órgãos policiais
e de fiscalização abre uma ferida ética
na economia. Companhias monopolistas vão se sentir
no direito de criar suas próprias milícias
parapoliciais, uma espécie de SS corporativa, para
fiscalizar suas concorrentes.
Em
português claro, empresas com maior poder econômico
- na sua maioria, já habituadas a práticas
comerciais abusivas - vão se travestir de polícia
e de fiscal. Imagine se, por acaso, a Souza Cruz, dona
de quase 70% do mercado de cigarros, resolve fazer o mesmo
com seus competidores. Este procedimento acabará
se tornando mais uma ferramenta para indústrias
com larga concentração de mercado asfixiarem
ao máximo a concorrência.
Caso
tenha de fato alimentado a Polícia e a Receita
com informações sobre as demais indústrias
cervejeiras, até que ponto a AmBev agiu imbuída
de um arrebatador espírito cívico em prol
da ética ou tudo não passou de uma manobra
truculenta para aguar o chope da concorrência? Até
porque, mais uma vez recitando Roberto Jefferson, todo
mundo sabe que a indústria de bebidas em geral
é um setor historicamente marcado por suspeitas
de sonegação fiscal. Será que alguém
pode atirar a primeira pedra?