|
Crisis
en el Conosur
A crise no Cone Sul
H
á mais de duas semanas, duas das três ligações
rodoviárias da Argentina com o Uruguai estão
fechadas por piquetes. Apoiados pelo governo provincial
de Entre Rios, grupos ambientalistas argentinos protestam
contra a construção de duas fábricas
de papel e celulose - as papeleras - na margem uruguaia
do Rio Uruguai. Argumentam que as fábricas poluirão
o rio e, além dos prejuízos ecológicos
e à agricultura, afastarão os turistas. O
governo uruguaio e as empresas envolvidas, no entanto, atestam
que as fábricas usarão métodos de produção
aceitos pelas autoridades ambientais da União Européia
e dos Estados Unidos. Fosse a manifestação
espontânea, o caso já seria grave, pois trata-se
do fechamento de parte da fronteira binacional. Mas ocorre
que os piqueteiros contam com o apoio explícito das
autoridades provinciais e federais argentinas. O governador
de Entre Rios açula e controla os piqueteiros; o
presidente Néstor Kirchner não move uma palha
para abrir a fronteira. Ao contrário, está
agravando o incidente diplomático, fazendo pressão
direta sobre o presidente Tabaré Vázquez,
para que ele proíba a construção das
duas fábricas.
Kirchner
ameaça recorrer à Corte Internacional de Haia,
para impedir a construção. O governador de
Entre Rios, por sua vez, denunciou à Suprema Corte
nove diretores das duas empresas papeleras - a Ence, espanhola,
e a Botnia, finlandesa - pela prática de "ameaça
de delito ambiental". Seus argumentos são especiosos.
Querem colocar as fábricas que serão construídas
em território uruguaio sob a jurisdição
argentina, baseados numa interpretação permissiva
de um artigo do Código Penal da Argentina que se
refere a "delitos cometidos ou cujos efeitos devam
produzir-se no território da nação
argentina ou em lugares submetidos a sua jurisdição".
Para
não dizer que a insensatez é geral, os juízes
da Suprema Corte dão sinais de que não consideram
o caso um problema da Justiça, devendo ser resolvido
por via política e diplomática. Mas o Congresso
argentino faz o contraponto, discutindo uma resolução
que autoriza o presidente da República a levar a
questão a Haia.
Há
dias, em entrevista ao jornal Clarín, o ex-presidente
Raúl Alfonsín advertiu que a escalada da crise
pode pôr em perigo a continuidade do Mercosul. De
fato, o incidente revela tudo, menos a existência
de um espírito de colaboração e harmonia
que deveria presidir uma associação que tem
também objetivos políticos comuns. Já
se cogitou de mandar a questão ao exame do Tribunal
Permanente do Mercosul, mas a idéia não progrediu,
até porque aquela corte não foi concebida
para dirimir esse tipo de contenda. O presidente Tabaré
Vázquez sugeriu, em carta a Kirchner, a convocação
extraordinária do Conselho do Mercado Comum - órgão
integrado pelos ministros da Economia e das Relações
Exteriores dos países do Mercosul - para dirimir
a questão. Mas os outros sócios do Mercosul
não manifestam nenhum entusiasmo por imiscuir-se
num incidente notável pela atitude irascível
e intransigente da Argentina.
E
essa aparente neutralidade é um erro político
que o Paraguai e principalmente o Brasil não podem
se dar ao luxo de cometer. Afinal, o corte das comunicações
rodoviárias equivale, de fato, a um fechamento de
fronteira - o que é um acontecimento grave nas relações
entre dois países. Mas a questão não
se limita ao plano jurídico e diplomático.
Na prática, a interrupção das estradas
é uma tentativa de levar o Uruguai a cancelar a construção
das duas fábricas por intermédio da asfixia
econômica. A economia uruguaia depende fortemente
das exportações para a Argentina e o Chile,
que se fazem por aquelas vias, agora interrompidas.
E
a inércia do governo de Kirchner diante da agressividade
dos piquetes não passa de uma coonestação
de meios violentos para a obtenção de um objetivo
de governo. Alguns ministros argentinos já deixaram
claro que o governo de Buenos Aires não tem por política
reprimir os chamados "piquetes sociais" e é
nessa categoria que enquadram os ambientalistas que virtualmente
fecharam a fronteira. Na verdade, o presidente Kirchner
deixa de exercer as prerrogativas soberanas da manutenção
da ordem porque isso convém a seus propósitos.
Fala-se, mesmo, que se as empresas espanhola e finlandesa
tivessem decidido construir as fábricas de papel
e celulose na outra margem do Rio Uruguai, a Argentina não
teria tantas preocupações com a preservação
ecológica da região.
|