|
Venezuela
terá 30 mil fuzis russos neste ano
Primeira leva, com 15 mil peças, chega em 15 de
dezembro;
entrega total de 100 mil armas termina em março
DA REDAÇÃO
A Venezuela receberá 30 mil fuzis Kalashnikov
AK-103 e AK-104 e três helicópteros da Rússia
até o final deste ano como parte de um acordo comercial
de equipamentos militares, afirmaram autoridades dos dois
países.
A primeira leva de armas, de 15 mil unidades, chega em 15
de dezembro, e o restante, em 30 de dezembro, segundo o
vice-premiê russo Alexander Zhukov.
As 70 mil armas restantes serão entregues em março
do ano que vem, junto com dez helicópteros.
A entrega faz parte de um acordo assinado entre os governos
dos presidentes Hugo Chávez e Vladimir Putin em maio
deste ano, que prevê a compra pela Venezuela de 100
mil fuzis e de 40 helicópteros blindados e de ataque
russos, no valor total de US$ 174 milhões. Está
sendo negociada ainda a compra de 50 caças Mig-29
SMT.
Também neste ano a Venezuela fechou um acordo para
compra de equipamentos militares da Espanha estimado em
1,3 bilhão.
O anúncio dos acordos provocou reações
dos vizinhos latino-americanos, capitaneados pelo governo
de George W. Bush.
Os EUA acusam Chávez de ser uma força desestabilizadora
na região e dizem temer que as armas terminem nas
mãos de milícias venezuelanas ou das Farc
(Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).
Na ocasião do acordo, a Argentina alertou que a compra
de armas e equipamentos militares por parte da Venezuela
não deveria significar uma escalada armamentista
na região. O alerta ocorreu pouco antes de um encontro
entre o chanceler argentino, Rafael Bielsa, e a secretária
de Estado dos EUA, Condoleezza Rice.
O governo colombiano de Alvaro Uribe, principal aliado dos
EUA na América do Sul, também criticou o negócio,
afirmando que iria aprofundar um "desequilíbrio
militar na região andina".
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no entanto,
saiu em defesa do colega venezuelano na ocasião.
Ele disse que o Brasil não aceitaria "difamações"
contra Chávez e que a Venezuela era soberana para
tomar decisões.
"Nossos acordos militares são completamente
normais e são um direito soberano da Venezuela",
disse o vice-presidente venezuelano, José Vicente
Rangel, ao comentar a chegada dos equipamentos.
A Venezuela afirma que os acordos têm por objetivo
modernizar as Forças Armadas do país e reforçar
a presença militar e a segurança ao longo
da fronteira com a Colômbia.
ANÁLISE
EUA preparam planos contra venezuelanos
NEWTON CARLOS
ESPECIAL PARA A FOLHA
Analista de questões internacionais
A Venezuela está mesmo na alça de mira do
Pentágono. Foi o que disse William M. Arkin, em sua
coluna ("Early Warning" ou alerta antecipado)
saída no "Washington Post". Ele cita o
mais recente "defense review" (exame de situações
que possam exigir intervenções dos EUA) preparado
por estrategistas americanos e conclui que o Pentágono
encara a necessidade de montar "planos de contingência"
com a finalidade de enfrentar conflito "potencial"
com a Venezuela de Hugo Chávez. O "Miami Herald"
repercutiu com a informação de que um porta-voz
do Pentágono reagiu com "profundo ceticismo",
mas não houve desmentido formal, e Arkin não
retirou o que escreveu.
Ele é autoridade no assunto. Trabalhou para o Exército
americano nos anos 70 em Berlim ocidental. Publicou mais
de dez livros sobre questões militares. Na linha
do que afirmou está o fato de que o secretário
da Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, assumiu importante papel
nas relações com a América Latina.
A Venezuela é um de seus temas preferidos, como se
viu na viagem ao Brasil e ao Paraguai, onde treinam soldados
americanos.
Há outros temas na pauta latino-americana de Rumsfeld.
Por pressão do Pentágono, a Bolívia
aceitou desmantelar estoques de foguetes de origem chinesa.
O comando militar boliviano alegou que se tratava do "cumprimento
de resolução da OEA". O governo da Nicarágua,
onde sobrevivem velhos foguetes dos tempos da guerra civil,
sofre o mesmo tipo de pressão e não cedeu
até agora. Em Washington se acha que tais armas,
de uso fácil contra aviões comerciais, podem
cair em mãos de terroristas diante dos "descaminhos"
políticos da Bolívia e da Nicarágua.
A preocupação com a Bolívia é
grande e conhecida, e na Nicarágua os sandinistas
podem voltar ao poder.
A idéia de um conflito "potencial" com
a Venezuela seria parte, segundo Arkin, de "ampla avaliação
estratégica" das ameaças que os EUA poderão
sofrer no pós-Guerra do Iraque. O Pentágono
já estaria procurando, portanto, "vislumbrar"
o que virá depois da carnificina iraquiana. Foram
selecionadas ameaças com origem em três grupos
de países. Na cabeça ficaram Irã e
Coréia do Norte com seus programas nucleares. Tendo
em vista os últimos acontecimentos no Irã,
deve fortalecer-se entre os neoconservadores de Bush a convicção
de que, em última instância, será necessário
o uso de força.
Numa segunda linha foi colocada a China, "competidor
em ascensão" e "ameaça futura".
Venezuela e Síria, relacionadas como "rogue
nations", vêm em terceiro lugar. No jargão
diplomático americano essa definição
se aplica a Estados párias, não-confiáveis
e não-controláveis. Os EUA "cubanizam"
as relações com a Venezuela, é o que
avalia especialista do Conselho de Relações
Exteriores, no qual pontifica a elite acadêmica do
leste (sobretudo de Nova York) dos EUA. O curso é
mesmo de colisão, parece ser a convicção
de Arkin. Por estar próxima, a Venezuela pode até
ser catalogada como "ameaça à segurança
interna" dos EUA.
|