O
Carro de Combate Médio M-3 Lee/Grant no Brasil
Hélio
Higuchi
Paulo Roberto Bastos Junior
Introdução
Desde
o fim da I Guerra Mundial, o Congresso dos Estados Unidos
vinha reduzindo drasticamente a verba destinada a despesas
militares. Consequentemente, o desenvolvimento da tecnologia
bélica norte-americana estava defasado em relação
ao das potências européias.
Fiel
à filosofia tradicionalista da época, o
Exército dos EUA ainda dava grande importância
à cavalaria hipomóvel e relegava o blindado
de combate, à função de apoio à
infantaria. Isso levou o país a fabricar apenas
35 unidades deste tipo de veículo no período
de 1920 a 1935. Estava então em desenvolvimento
o carro de combate médio T-5, modificado a partir
do carro de combate leve M-2, cuja grande novidade era
uma suspensão tipo VVSS (Volute Vertical Spring
Suspension), a qual se constituía de truques (bogies)
sustentados por duas rodas, pivotados num braço
e amortecidos por um par de molas transversais. Entretanto,
como devessem apenas apoiar a infantaria, esses veículos
eram munidos de armamento leve -- uma torre giratória
com um canhão de 37mm e oito metralhadoras .30.
Quatro dessas metralhadoras eram operadas internamente
e, apesar de fixas, tinham seus canos instalados sobre
esferas móveis, o que permitia atirar em várias
direções.
Foi
somente com a ameaça de uma guerra de grandes proporções,
no final da década de 30, que os EUA tomaram consciência
da necessidade de possuir armas modernas. A Blitzkrieg
e as Divisões Panzer do Exército alemão
logo mostraram quão obsoleta eram as táticas
militares vigentes, e tornou-se clara a necessidade urgente
de se projetar um tanque mais moderno. Foi nesse cenário
que nasceu o M-3.
Desenvolvimento
e produção do M-3
Era
imprescindível que se projetasse um veículo
capaz de ser equipado com um canhão de 75mm, tal
qual o alemão Pz.Kpfw IV ou o francês Char
B1-bis.
Entretanto, os EUA ainda não dispunham de tecnologia
para desenvolver uma torre giratória fundida que
pudesse comportar um canhão desse calibre. Em 1939,
ainda no desenvolvimento do projeto do T-5, foi instalado
experimentalmente um obuseiro de 75mm em um T-5 Phase
III, criando-se assim o obuseiro autopropulsado T-5E2.
Apesar de o programa não ter avançado, no
ano seguinte idealizou-se uma versão deste blindado
equipado com um canhão M1987 de 75mm (40 calibres)
no compartimento direito do chassi (casco), tal qual o
modelo francês Char B1. Esse veículo foi
denominado M-3 Medium Tank.
Uma
primeira modificação foi o encurtamento
do cano do canhão para 31 calibres, pois o comprimento
da peça dificultava as manobras do blindado. O
novo canhão, chamado M2, apresentava pequeno ângulo
variável de tiro (15º para cada lado na transversal
e ângulo vertical de -9º a +20º) e uma
redução considerável da velocidade
dos projéteis. Instalou-se depois, na parte superior,
uma torre giratória de 360º com um canhão
M5 de 37mm, deslocado para o lado esquerdo para contrabalançar
o canhão de 75mm.
Assim,
o M-3 acabou sendo o primeiro blindado americano a possuir
uma torre com giro motorizado. Para que os dois canhões
pudessem manter a trajetória com o carro de combate
em movimento, foi instalado um giro-estabilizador; para
compensá-lo, colocaram-se contrapesos destacáveis
na boca do canhão de 75mm e em baixo do de 37mm.
Nos modelos mais modernos, foi adotado o canhão
M3 de 75mm mais longo (40 calibres), como originalmente
projetado, e sem a necessidade de se valer do contrapeso.
Além
dos canhões, os M-3 foram equipados com quatro
metralhadoras .30: duas delas fixas no casco dianteiro
(acionados pelo motorista), uma coaxial ao canhão
de 37mm e uma antiaérea instalada numa cúpula
sobre a torre.
A concepção da carroceria e da suspensão
era a mesma do T-5, apenas de maior tamanho para poder
suportar o aumento de peso e de dimensões. A motorização
original consistia num Wright Continental R-975-EC2 radial
a gasolina, refrigerado a ar, desenvolvendo 340 CV, mas
devido à escassez também foram utilizados
o motor diesel Guiberson T-1400-2, e vários sistemas
multimotores, chamados de multibank, como o conjunto de
dois motores de ônibus diesel General Motors 6-71,
e até mesmo cinco motores Chrysler A-57. Deve-se
ter em mente a enorme dificuldade em se operar e manter
esses motores combinados.
O
resultado foi um veículo pesado para a época,
de 27 a 31 toneladas, de perfil extremamente alto, com
uma tripulação de 6 homens.
Até
o início da década de 40 os blindados estadunidenses
eram fabricados em Rock Island Arsenal, e a demanda urgente
de uma quantidade maciça de blindados foi resolvida
através da produção do M-3 em várias
fábricas, a maioria delas de material ferroviário.
Assim, foram acionadas as linhas de montagem das indústrias
American Locomotive Company, Baldwin Locomotive Company,
Detroit Tank Arsenal, Pressed Steel e Pullman Standard
Car Company.
Em
junho de 1940, após a retirada de Dunquerque, o
Reino Unido enviou uma missão militar aos EUA com
o objetivo de encomendar, urgentemente, a produção
de um blindado que atendesse suas necessidades. Porém,
como os EUA também estavam então mobilizados
para atualizar seu próprio equipamento militar,
não tinham como atender um pedido específico
do Reino Unido. Tudo o que poderiam oferecer, além
do carro de combate leve Stuart, era o carro de combate
médio M-3, cuja produção havia sido
iniciada. Os britânicos não gostaram do M-3,
principalmente devido ao perfil alto; mas, sem alternativas,
solicitaram algumas modificações nele, principalmente
na torre do canhão de 37mm. O modelo de exportação
para o Reino Unido, além de eliminar a cúpula
da metralhadora antiaérea, possuía uma torre
de perfil mais baixo e mais espaçosa para comportar
o equipamento de rádio, acionado pelo comandante
da viatura. No modelo original, o rádio ficava
dentro da superestrutura e era operado pelo motorista.
Os
britânicos batizaram os M-3 de torre modificada
de Grant, e os modelos com torre norte-americana de Lee:
assim homenageavam os dois generais rivais da Guerra da
Secessão dos EUA. Curiosamente, esses nomes nunca
foram adotados pelos americanos, que chamava todos os
modelos indistintamente apenas de Tanque Médio
M-3. Até que fossem assinados os termos do acordo
de lend-lease, todos os equipamentos vendidos aos britânicos
foram pagos em dinheiro assim que saíam das fábricas,
e até outubro de 1942, pelo menos 600 Grants haviam
sido entregues.
A
linha de produção dos M-3 durou pouco (de
janeiro de 1941 a dezembro de 1942), tendo sido produzidos
6.258 veículos. A produção foi marcada
por inúmeros contratempos, desde a escassez de
motores -- o que exigiu modificações no
projeto para poder adaptar o tanque aos motores disponíveis
no mercado -- até o fato de alguns veículos
saírem incompletos da fábrica (sem os canhões
de 75mm ou sem a torre do canhão de 37mm) por absoluta
falta de material. O M-3 foi fruto de uma época
em que o parque industrial dos EUA se desdobrava para
poder se adequar aos tempos de guerra. A luta contra o
tempo não permitia preciosismos que garantissem
produtos de melhor qualidade. Pouco tempo, depois um novo
projeto saiu das pranchetas - um blindado sobre o mesmo
chassi do M-3, mas que finalmente tinha uma torre giratória
equipada com um canhão de 75 mm: era o M-4 Sherman.
O
M-3 em combate
A
chegada dos M-3 Grant na campanha do deserto africano
foi muito bem vinda: pela primeira vez, os britânicos
passaram a contar com equipamento que permitisse fazer
frente aos modernos blindados alemães. O batismo
de fogo foi em 1942, na batalha de Gazala, operados pelo
8º Exército Britânico. Ao contrário
dos estadunidenses, que somente concebiam os carros de
combate como apoio à infantaria, os britânicos
já adotavam táticas de confronto entre blindados.
O canhão de 75mm era muito mais eficiente que aqueles
utilizados anteriormente, e a munição de
alto poder explosivo neutralizava com eficácia
as baterias de canhões antitanque dos alemães.
Porém, o Grant tinha muitos problemas, a grande
maioria dos quais devido à inexperiência
dos EUA na fabricação de um carro de combate
desse porte:
- A disponibilidade de dois canhões, se por um
lado permitia atirar para dois alvos simultaneamente,
confundia o comandante do veículo que não
sabia qual dos alvos enquadrar;
- O perfil alto favorecia a visibilidade do comandante,
mas o tornava um alvo fácil;
- Muitos M-3 foram produzidos com chapas de blindagem
fixada com rebites. Quando o veículo era atingido
por armas leves, os rebites ricocheteavam dentro da cabine,
ferindo os tripulantes. Posteriormente, esse defeito foi
sanado soldando-se os rebites, ou fabricando versões
com chapas soldadas;
- Os M-3 possuíam duas escotilhas localizadas nas
laterais que enfraqueciam a blindagem. Posteriormente,
essas escotilhas foram suprimidas e substituídas
por um alçapão no piso;
- A falta de ventilação intoxicava os tripulantes
a cada tiro disparado. Nos modelos mais novos, foram instaladas
mais vigias de ventilação forçada.
As
perdas foram altas, mas os M-3 Grant foram decisivos na
luta contra o Marechal-de-Campo Erwin Rommel, permitindo
resistir até a chegada dos esperados M-4 Sherman.
Os
americanos, que também combateram com os M-3 Lee
na Tunísia, igualmente tiveram pesadas baixas,
devidas mais à falta de experiência em combate
de blindados do que a defeitos do veículo. Os M-3
foram bem sucedidos nas campanhas da Birmânia contra
os japoneses, aonde não encontraram fortes oponentes,
pois os blindados japoneses eram muito inferiores e para
os combates na floresta a altura do M-3 era mais uma qualidade
do que defeito.
A
União Soviética também utilizou os
M-3 em quantidades expressivas até a chegada dos
T-34, e alguns deles foram capturados pelos alemães
e utilizados em combate.
Com
a vinda dos M-4 Sherman, os M-3 foram rapidamente deslocados
para a segunda linha, sendo utilizados principalmente
para treinamento. Aproveitando a grande quantidade de
veículos disponíveis, foram desenvolvidas
várias adaptações, como o obuseiro
autopropulsado de 105mm M-7 Priest, o canhão autopropulsado
de 155mm M-12, o veículo recuperador M-31 e diversos
outros.
Além dos Estados Unidos, Reino Unido e URSS, o
M-3 foi utilizado também pela Austrália,
Canadá, França, Índia. A Argentina
empregou somente as versões M-7 e M-31 sendo recebidos
após a II Guerra Mundial (Foto
14), sendo o Brasil de fato o único país
latino-americano a utilizar os M-3 Lee.
O
Brasil recebe carros de combate dos Estados Unidos
Desde
o início das hostilidades na Europa, os Estados
Unidos se preocuparam em não permitir que os países
do Eixo tivessem bases no continente americano. Através
de tratados de não-agressão e defesa mútua,
persuadiram muitos países latino-americanos a alinharem
com os Aliados. Evidentemente, o Brasil foi tratado de
forma especial pela sua localização estratégica,
que possibilitava o envio rápido de tropas e material
à África e Europa, tornando-se o maior aliado
da América do Sul.
Vários
países latino-americanos solicitavam armas modernas
para poderem defender seu território, mas os EUA
sistematicamente recusavam os pedidos. Todo o esforço
de guerra norte-americano estava concentrado na defesa
de seu território e no envio de armas para a Europa.
Além do mais, os países latinos não
tinham verba para aquisição.
A assinatura do Lend-Lease Act (Fundo de Empréstimo
e Arrendamento), possibilitou o fornecimento de material
bélico a estes países. Entretanto, excetuando-se
o Chile e o Brasil, o fornecimento foi limitado a aviões
de treinamento e transporte, e armas leves.
Os
EUA solicitaram permissão para que suas forças
pudessem utilizar portos e aeroportos em território
brasileiro. Em troca, ofereceram a construção
de aeroportos, modernização de portos e
fornecimento de material bélico.
A Argentina, que na época era uma das potências
da América do Sul, preferiu manter a neutralidade
ao invés de se alinhar com os EUA. A razão
era simples: por ser um país agrícola, exportava
alimentos para os dois lados. As Forças Armadas
argentinas tinham equipamento moderno, principalmente
a aviação, com bombardeiros Martin B-10
e caças Curtiss Hawk 75. O exército argentino
planejava projetar um carro de combate médio moderno,
fato que realmente ocorreu a partir de 1943, com o DL43
Nahuel. Essa política de não-alinhamento
e seu poderio em relação aos vizinhos inquietava
os EUA.
O
Exército Brasileiro também tinha interesse
em modernizar seus equipamentos. Em junho de 1939, através
do então Chefe do Estado-Maior do Exército,
Gen. Pedro de Góes Monteiro, solicitou-se aos EUA,
dentre vários equipamentos, o fornecimento de 41
blindados modernos. Somente em maio de 1941, os Estados
Unidos concordaram em fornecer os primeiros carros de
combate, que foram pagos em dinheiro. Tratavam-se de dez
M-3 Stuart, que juntamente com dez M-3A1 White Scout Car
e 176 utilitários, foram entregues no fim do mês
de julho para serem mostrados ao público do Rio
de Janeiro no desfile militar de Sete de Setembro daquele
ano. Durante a vigência do acordo de Lend-Lease,
o Brasil insistiu em receber armamento mais moderno, e
até o fim de 1942 foi contemplado com material
bélico no valor de US$ 200 milhões, o que
incluía cem blindados médios M-3 Lee e M-4
Sherman. Cabe esclarecer que o Brasil foi o único
país latino-americano a receber blindados médios
durante a guerra. Os EUA relutavam em ceder esse tipo
de veículo, pois necessitavam dele em suas próprias
Forças Armadas. Os M-3 chegaram ao Brasil no final
de 1942.
Após
a tomada de posição pró-Aliados do
Governo Vargas, o Brasil viu-se obrigado a ocupar e defender
a Região Nordeste de forma mais ativa, devido à
sua grande importância estratégica e ao receio
de uma possível invasão do continente americano
pelas forças do Eixo. Em 1941 foi criada em Natal,
Rio Grande do Norte, a Base Aérea de Parnamirim
(Parnamirim Field), cujo objetivo era possibilitar o envio
de equipamentos e suprimentos ao continente europeu, passando
pelo norte da África. Por estar localizada no ponto
extremo oriental da América do Sul, Natal possibilitava
um vôo sem escalas a Dacar, no Senegal, ponto extremo
ocidental da África. Com isso, o Nordeste brasileiro
tornava-se um alvo ainda mais tentador ao inimigo.
Os
Estados de Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande
do Norte pertenciam à 7ª Região Militar
(7ª RM), e durante toda a Segunda Guerra Mundial
recebeu especial atenção. Para melhor defender
a região, em 6 de outubro de 1942, foi criado em
Recife o1º Batalhão de Carros de Combate Leve
(1º BCCL), através da junção
da 1ª e 2ª Companhias Independentes de Carros
de Combates Leve, respectivamente oriundas de Natal e
do Distrito Federal (então no Rio de Janeiro).
No final de 1942, esta unidade recebeu uma Companhia de
Carros de Combate Médios, equipada com os M-3 Lee
recém chegados do porto de Natal, e mudou sua nomenclatura
para 1º Batalhão de Carros de Combate (1º
BCC), tornando-se assim a primeira unidade a utilizar
esses blindados no Brasil.
Nessa
mesma época, em janeiro de 1943, foi criado na
cidade do Rio de Janeiro (DF) o 2° BCC, formado por
uma Companhia de Carros de Combate Médios e duas
Companhias de Carros de Combate Leve, equipados com M-3A3/A5
Lee e M-3/M-3A1 Stuart. Por serem os primeiros os carros
de combate mais poderosos de toda a América Latina,
e como eles não puderam chegar a tempo de participar
dos desfiles do Dia da Pátria de 1942, o Governo
providenciou para que fossem desembarcados no porto de
Santos (São Paulo) somente para poder apresentar
num impressionante desfile militar em São Paulo
no dia do aniversário da cidade, 25 de janeiro
de 1943. Neste desfile houve a participação
de cerca de cem blindados M-3 Lee e M-3A1 Stuart (Foto
1), ante a presença do Presidente Getulio Vargas
e do Ministro da Guerra Gen. Eurico Gaspar Dutra.
Como
os carros de combate tinham acabado de chegar, não
ostentavam sequer as insígnias do Exército
Brasileiro. Em seguida, os veículos foram embarcados
para o Rio de Janeiro, onde receberam o emblema nacional.
O 2º BCC foi finalmente instalado e organizado em
seu quartel; mas no dia 3 de abril, as Companhias de M-3A1
Stuart foram enviadas por terra a Natal a fim de apoiar
o 1º BCC na defesa da 7ª RM, ficando aquartelados
ali até dezembro de 1944.
Em
1944, após a definição da situação
da guerra no norte da África, o Exército
transferiu o 1º e o 2º BCC para o interior do
Estado de São Paulo. As sedes escolhidas foram
Pindamonhangaba e Caçapava, respectivamente, e
os veículos foram embarcados nos navios "Almirante
Jaceguay" e "Santarém", com destino
ao porto do Rio de Janeiro. Ao chegarem, constatou-se
a impossibilidade de se despachar os M-3 Lee por ferrovia
até as cidades paulistas devida às limitações
dos gabaritos dos túneis da linha férrea
da Central do Brasil. Somente os Stuart foram despachados
e, por se equiparem assim apenas com Carros de Combate
Leves, os batalhões foram re-denominados 1º
e 2º Batalhão de Carros de Combate Leve (BCCL).
No Rio de Janeiro, o 1º BCC recebeu os Carros de
Combate Médios Sherman, que equipou três
Companhias. O 2º BCC ficou inicialmente com duas
Companhias de M-3 Lee e uma de M-3/M-3A1 Stuart.
Servindo
no 2º Batalhão de Carros de Combate
Em
1945, o 2º BCC era sediado em Marechal Deodoro, no
Rio de Janeiro (DF), e composto de duas Companhias de
Carros de Combate Médios, uma Companhia de Carros
de Combate Leve, e uma Companhia de Manutenção.
Como equipamento motomecanizado, o 2º BCC recebeu
inicialmente:
- 32 Carros de Combate Médios M-3A3 Lee;
- 16 Carros de Combate Médios M-3A5 Lee;
- 01 Carro de Combate Leve M-3 Stuart (matrícula
EB-11 489);
- 12 Carros de Combate Leves M-3A1 Stuart (matrículas
EB-11 234 a EB-11 250);
- 03 Carros Blindados Meia-lagarta M-5 (matrículas
EB-10 144 a EB-10 146);
- 30 Transportes Studebaker de 2 ½ toneladas 6x6
(matrículas EB-21 4890 a EB-21 4919);
- 09 Transportes Chevrolet de 1 ½ toneladas 4x4
(matrículas EB-21 4881 a EB-21 4889);
Até
1946, os M-3 Lee não possuíam número
de matrícula do Exército Brasileiro, tendo
sido cadastrados somente os seus números de fabricação
(Foto
4).
Em
1947, o 2º BCC foi re-equipado, adicionando-se mais
uma Companhia de Carros de Combate Médios, passando
então a contar com a seguinte composição
e respectivos equipamentos:
Companhia Comando
- 03 Carros de Combate Médios M-3 Lee (matrículas
EB-11 297, 299 e 318);
- 03 Carros Blindados Meia-lagarta M-5 (matrículas
EB-10 144,145 e 146);
- 07 Transportes N/E Jeep ¼ tonelada 4x4 (matrículas
EB-21 7358, 7362, 7363, 7365, 7366, 7367, 7368);
- 01 Transporte Dodge Commando ¾ toneladas 4x4
(matrícula EB-20 556);
- 03 Transportes Chevrolet de 1 ½ toneladas 4x4
(matrículas EB-21 4886, 4887 e 4888);
- 02 Transportes Studebaker de 2 ½ toneladas 6x6
(matrículas EB-21 4905 e EB-21 411).
1ª
Companhia de Carros de Combate Médios (1º
CCM)
- 16 Carros de Combate Médios M-3 Lee (matrículas
EB-11 268, 269, 270, 271, 272, 273, 274, 275, 278, 279,
282, 284, 285, 286, 288 e 295).
2ª
Companhia de Carros de Combate Médios (2º
CCM)
- 17 Carros de Combate Médios M-3 Lee (matrículas
EB-11 290, 293, 298, 301, 302, 303, 304, 305, 306, 307,
308, 309, 310, 311, 314, 315 e 316).
3ª
Companhia de Carros de Combate Médios (3º
CCM)
- 16 Carros de Combate Médios M-3 Lee (matrículas
EB-11-276, 277, 281, 283, 287, 289, 291, 292, 294, 296,
300, 312, 313, 317, 319 e 320).
Companhia de Carros de Combate Leves (CCL)
- 01 Carro de Combate Leve M-3 Stuart (matrícula
EB-11 489);
- 16 Carros de Combate Leves M-3A1 Stuart (matrículas
EB-11 234, 235, 236, 237, 238, 239, 240, 241, 242, 243,
244, 245, 246, 247, 249 e 250).
Companhia
de Serviço
- 17 Transportes Studebaker de 2 ½ toneladas 6x6
(matrículas EB-21 4893, 4897, 4898, 4899, 4901,
4902, 4903, 4904, 4906, 4907, 4908, 4909, 4910, 4913,
4914, 4916 e 4917);
- 02 Transportes Caminhonete (matrículas EB-21
1339 e 6247);
- 01 Ambulância (matrícula EB-22 402);
- 01 Cisterna 750 galões 2 ½ toneladas 6x6
(matrícula EB-22 410);
- 01 Socorro Pesado Ward-La France M1A1 10 toneladas 6x6
(matrícula EB-22 548).
Através
do testemunho dos Cels. Lannes de Souza Camenha e Agricio
de Faria Pimentel, ambos reformados, que em 1946 foram
Comandantes de Companhia no 2º BCC, pudemos descobrir
alguns aspectos operacionais destes veículos, como
o fato dos M-3 Lee praticamente não trem participado
de manobras militares. O treinamento de condução
e de tiro era realizado no Campo de Gericinó.
Apesar
de bem conservados, os Lee apresentavam certas características
que dificultavam sua operação:
- A ausência de periscópio nos modelos brasileiros
e miras óticas para os canhões obrigavam
a atirar primeiro com a metralhadora coaxial para calibrar
o tiro, ou mesmo a mirar através do cano do canhão;
- Era necessário abrir todas as escotilhas sempre
que se atirava com os canhões, pois o odor de nitrato
que os cartuchos usados exalavam era forte;
- O sistema de rádio era deficiente, dificultando
a comunicação entre o pelotão;
- Os instrumentos do painel não eram confiáveis,
e foram sanados informalmente in loco através de
técnicos da fábrica de lentes D.F. Vasconcelos;
- Os dois motores diesel General Motors eram muito difíceis
de sincronizar. Embora os próprios técnicos
americanos reconhecessem essa dificuldade, haviam dois
mecânicos do 2º BCC que eram exímios
em executar a sincronização.
Evidentemente,
o Exército preferia o M-4 Sherman do 1º BCC,
um veículo mais moderno e confiável. Mesmo
assim, os M-3 Lee permaneceram em serviço durante
as décadas seguintes, participando de paradas militares
até pelo menos o ano de 1960, quando dezenas deles
ainda desfilavam (Foto
9). O porte alto e os dois canhões impressionavam
o público e a imprensa.
No inicio da década de 1960, a sede do 2º
BCC foi transferida para a cidade de Valença (RJ)
e, em 1966, os Lee vão sendo gradualmente substituídos
com a incorporação de mais 40 blindados
leves M-3A1 Stuart. Em 1969 havia pelo menos um M-3 Lee
(EB-11 273) ainda em serviço. Em 1972, o 2º
BCC foi rebatizado 2º Regimento de Carros de Combate
(2º RCC), e no ano seguinte a sua sede foi transferida
para a cidade de Pirassununga (SP). Entretanto, quando
lá se instalaram, os M-3 Lee não estavam
mais em operação.
A
atividade mais recente de que obtivemos foi a remessa
de um M-3 Lee para um museu dos EUA em 1973. A ação
foi sancionada pelo Cel. Agricio Pimentel quando servia
como Chefe de Gabinete da Diretoria de Motomecanização
em Brasília. Segundo ele, ainda haviam então
alguns veículos deste modelo no Parque de Material
Bélico do Rio de Janeiro.
Segundo
o livro "M3 Lee/Grant Médium Tank 1941-45"
de Steven J. Zaloga, um M-3A5 do Exército Brasileiro
teria sido repotenciado com um motor Continental à
gasolina, e posteriormente doado ao Paraguai. Não
pudemos confirmar a informação sobre a troca
do motor, mas sabe-se que o Paraguai nunca recebeu qualquer
M-3 Lee do Brasil.
Quantos
M-3 Lee vieram?
Não
foi possível apurar a quantidade exata de M-3 Lee
recebidos pelo Exército Brasileiro. A bibliografia
consultada discorda sobre esse número:
- Em "M3 Lee/Grant Medium Tank 1941-45",
o autor Steven J Zaloga cita duas fontes, uma informando
que o Brasil recebeu 96 veículos (75 em 1942 e
21 em 1943), e a outra registrando um total de 104 veículos
recebidos;
- Terry J. Gander, em "Tanks in Detail - Médium
Tank M-3 to M3A5 General Lee/Grant", também
cita o recebimento de 104 blindados médios (medium
tanks);
- Adrian J. English, em "Armed Forces of Latin
America", menciona o recebimento pelo Brasil
de vinte M-3 Lee e sessenta M-4 Sherman;
- No site oficial do Exército Brasileiro consta
que o Brasil teria recebido aproximadamente trinta M-3
Lee e oitenta M-4 Sherman.
Constatamos
a utilização de pelo menos 53 M-3 Lee (matrículas
EB-11 268 a 320) no
2º BCC, deste total pelo menos 33 eram do modelo
M-3A3 e16 do modelo M-3A5. Entretanto, este pode não
ter sido o total recebido pelo Exército Brasileiro,
pois alguns exemplares adicionais podem ter sido destinados
diretamente para a Escola de Motomecanização
para estudos.
O
modelo recebido pelo Brasil
Equivocadamente,
o Exército Brasileiro utilizou a designação
Grant para os M-3 recebidos. Como explicado anteriormente,
este nome foi adotado para os M-3 com torre do canhão
37mm de modelo inglês. Os modelos recebidos pelo
Brasil eram equipados com a torre norte-americana e, portanto,
seriam os Lee.
Vieram
os modelos M-3A3 e M-3A5, que possuíam as seguintes
características:
| Fabricação |
Baldwin
Locomotive Company (entre março a dezembro
de 1942) |
| Motorização |
2
motores diesel, 2 tempos, General Motors 6046/71,
de 420hp |
| Autonomia |
257
km (capacidade do tanque de combustível de150
galões) |
| Blindagem |
Frontal 50,8mm / Lateral e Traseiro 38mm |
| Armamento |
1
Canhão M2 de 75mm (C/31) com contrapeso na
boca, 1 Canhão M5 (C/50) ou M6 (C/54) de 37mm,
instalado na torre giratória;
2 metralhadoras M1919A4 .30, sendo uma coaxial ao
canhão de 37mm e outra antiaérea instalada
numa cúpula giratória acima da torre;
1 submetralhadora M1928 Thompson de calibre .45 |
| Tripulação |
6 homens: comandante, artilheiro e municiador do canhão
de 37mm na torre e motorista, municiador e artilheiro
na superestrutura. |
| Dimensões |
Peso
Comprimento
Largura
Altura |
25.577
kg;
5,64 m;
2,72 m;
3,124 m; |
| Características
externas |
Blindagem com chapas soldadas e algumas partes com
rebites; |
| |
Desprovidos
de escotilhas laterais, conservando apenas uma vigia
que pertencia á escotilha do lado direito; |
| |
Alçapão
de emergência no piso. |
|
M-3A5
|
| Semelhante
aos M-3A3, diferindo somente quanto ao peso (29.030
kg), tanque de combustível maior (175 galões)
para compensar o peso extra, e ao fato de que, externamente,
a blindagem era inteiramente fixada com rebites. |
M-3
Lee preservados no Brasil
Felizmente,
alguns M-3 foram preservados, e temos informações
sobre as seguintes localizações:
- O 13º Regimento de Cavalaria Mecanizado,
em Pirassununga (SP): possui um M-3A3 no Portão
das Armas como lembrança dos tempos do 2º
BCC (Foto
10);
- A Academia Militar de Agulhas Negras, em Resende
(RJ): possui dois M-3A3;
- A Escola de Material Bélico, no Rio de Janeiro
(RJ) possui um M-3A5;
- O Museu Militar Conde de Linhares, no Rio de
Janeiro: possui um M-3A3 ao qual falta o contrapeso na
boca do canhão de 75mm (Foto
11);
- O Parque Regional de Manutenção da
1ª Região Militar, no Rio de Janeiro,
possui dois veículos na entrada;
- Na Praça Presidente Antônio Carlos,
em Juiz de Fora (MG), há um M-3A5 em exposição,
bem próximo à entrada do 4º Depósito
de Suprimentos, que está sem o contrapeso na boca
do canhão de 75mm e foi repintado com o atual padrão
de camuflagem dos veículos do Exército (Foto
12);
- Na Praça do Ex-Combatente, em São Gonçalo
(RJ), há um M-3A3 em exposição.
Este veículo foi colocado ali no inicio da década
de 1970 e encontra-se em péssimo estado, à
mercê de vândalos que o picharam. Urge retomá-lo
e colocá-lo em local mais seguro (Foto
13);
Curiosidades
O
M-3 Lee, apesar de pouco conhecido, foi protagonista de
destaque em pelo menos dois grandes filmes de Hollywood:
"Sahara", de 1943, dirigido por Zoltan Korda
e estrelado por Humphrey Bogart, e "1941", dirigido
por Steven Spielberg em 1979.
Mesmo
com todas as deficiências, os M-3 serão sempre
lembrados, tendo contribuído de forma decisiva
para o esforço de guerra dos Aliados na II Guerra
Mundial.
Agradecimentos
Os
autores agradecem às pessoas abaixo citadas pela
paciência e atenção com que nos ajudaram
e tornaram possível este artigo:
- Cel. Ricardo Herce Aizcorbe, da Divisão
de Apoio Operacional do II Comando Militar do Sudeste,
em São Paulo/SP;
- Cel. R/R Lannes de Souza Camenha;
- Cel. R/R Agricio de Faria Pimentel;
- Cel. R/1 Leonardo Andrade, diretor do Museu Militar
Conde de Linhares, no Rio de Janeiro/RJ;
- Ten.Cel. Paulo Antonio Brignol Pacheco, Comandante
do 13º R C Mec, em Pirassununga/SP;
- Cap. José Corrêa Martins, Chefe
da Divisão de História da AHEx, no Rio de
Janeiro;
- 1º Ten Cristian Silva Hübble, Adjunto da 2ª
Seção do 13º R C Mec, em Pirassununga/SP;
- 2º Ten. Gleide Cristina dos Santos Claudino,
Chefe do Setor de Iconografia do AHEx no Rio de Janeiro/RJ;
- Adler Homero Fonseca de Castro, pesquisador do
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (IPHAN) no Rio de Janeiro/RJ;
- Alfredo André Tassara, advogado e pesquisador
de assuntos militares;
- Eduardo J. J. Coelho, pesquisador da Sociedade
de Pesquisa para Memória do Trem;
- Horácio Higuchi - Revisão do Texto;
- Ulisses Castanhera Monteiro - Ilustração;
- Sebo Jovem Guarda, em São Paulo/SP.
Bibliografia
ALVES,
J V Portella F. Os Blindados Através dos Séculos.
Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1964.
CONN, Stetson; FAIRCHILD, Byron. The Western Hemisphere
- The Framework of Hemisphere Defense. Washington:
Center of Military History United States Army, 1960.
DUARTE, Pedro de Queiroz. O Nordeste na II Guerra Mundial
- Antecedentes e Ocupação. Rio de Janeiro:Editora
Record, 1971.
ELLIS, Chris; CHAMBERLAIN, Peter. M-3 Medium (Lee/Grant).
London: Profile Publications, 1969.
ENGLISH, Adrian J. Armed Forces of Latin America -Their
Histories, Development, Present Strenght and Military
Potential . London: Jane's Publishing Company Limited,
1984.
GANDER, Terry J. Tanks in Detail - Medium Tank M3 to
M3A5 General Lee/Grant. London: Ian Allan Publishing,
2003.
MESKO, Jim; GREER, Don. M-3 Lee/Grant in Action.
Carrollton, USA: Squadron/Signal, 1995.
SIGAL FOGLIANI, Ricardo Jorge. Nahuel DL 43 - Tanques
Argentinos (desde sus origenes hasta 1960). Buenos
Aires: Editora Dunken, 2004.
ZALOGA,
Steven J. M3 Lee/Grant Medium Tank 1941-45. London:
Osprey Publishing, 2005.
MINISTÉRIO
DA GUERRA. Manual Técnico - Características
Gerais das Viaturas - Automóveis do Exército.
Rio de janeiro: Estado Maior do Exército, 1947.
EXÉRCITO
BRASILEIRO. Boletins Internos do 2º BCC. Vários
anos.
__________________. http://
www.exercito.gov.br. Acesso em 15 set 2006.
Jornal
"Folha da Manhã". São Paulo,
26/01/1943.
Revista semanal ilustrada "O Cruzeiro",
várias edições.
Revista semanal ilustrada "Manchete",
várias edições.
Revista mensal ilustrada "Brasil Reportagens"
outubro/1944
Nota
dos Autores
Devido
à carência de documentação
sólida sobre o assunto, este artigo pode conter
incorreções. Mais informações
e eventuais correções serão bem-vindos.
Solicitamos entrar em contato conosco através dos
seguintes e-mails:
heliohiguchi@hotmail.com
paulobastos.br@gmail.com

Ilustração
(acima) M-3A3 com a pintura utilizada em 1944. Nesta época
os Lee sequer possuíam número de matricula
do Exército Brasileiro, tendo somente a nomenclatura
para blindados (EB11 ou apenas EB), e a insígnia
nacional aplicados nos quatro lados do veículo.
Segundo o Boletim de Exército Brasileiro nº15
de 14/04/45, a partir desta data, as insígnias
no M-3 (ainda a estrela verde e amarelo) foram reduzidas
para 50 cm de diâmetro, e aplicados nos três
lados da torre (nas laterais e na parte posterior), entretanto
não encontramos qualquer fotografia para poder
servir de referencia para uma ilustração.
(abaixo)
M-3A3 matrícula EB-11 291 da 3ª Companhia
de Carros de Combate Médios do 2º BCC em 1947.
As dimensões das insígnias seguem o padrão
determinado pelo Boletim do Exército Brasileiro
nº15 de 14/04/45 (50 cm de diâmetro), porém
substituídos pelo emblema do cruzeiro do sul.
Dica
para modelistas: Para a insígnia da estrela verde
e amarelo, pode-se aplicar a estrela dos aviões
da FAB. Existe um decalque de autoria do pesquisador paranaense
Rafael Pinheiro Machado com as insígnias do cruzeiro
do sul e números de matrícula.
São
Paulo, 15 de setembro de 2006