COBERTURA ESPECIAL - Guarani - Terrestre

08 de Julho, 2015 - 15:00 ( Brasília )

O projeto de P&D da família de blindados Guarani


Centro de Comunicação Social do Exército
Revista Verde-Oliva - Nº 227 • Abril 2015

 

O Projeto de Pesquisa e Desenvolvimento da Família de Blindados Guarani é exemplo de inovação em parceria com a indústria, em função do atendimento às demandas estratégicas e operacionais, da excelência técnica e da viabilidade comercial.

Antecedentes Históricos

O Exército Brasileiro (EB) almejou obter viaturas blindadas desde a introdução desse meio na 1ª Guerra Mundial, quando o tema foi estudado por um oficial em curso na França, e foi importado o Renault FT-17, modelo para as viaturas posteriores. Após outras iniciativas, houve impulso efetivo durante a 2ª Guerra Mundial, com grande quantidade de blindados norte-americanos adquiridos para uso no País e participação no Teatro de Operações Europeu.

A esse esforço da 2ª Guerra Mundial somou-se o estabelecimento de centros de instrução e tecnologia, que resultou na criação da Escola de Material Bélico; do Parque Central de Motomecanização; e de uma graduação em Engenharia Mecânica e de Automóvel no Instituto Militar de Engenharia, tudo no contexto de um país que engatinhava na industrialização, o que obrigou a Engenharia a apoiar a implantação da indústria ao mesmo tempo em que cuidava da frota importada e experimentava protótipos.

Na segunda metade da década de 1960, a experiência inicial levou a Engenharia Militar, representada por um Grupo de Trabalho, ao desenvolvimento de um protótipo autóctone de sucesso, a Viatura Blindada Brasileira, inicialmente 4x4, que logo foi sucedida por um 6x6, de cuja linhagem descendem os blindados EE-9 Cascavel e EE-11 Urutu e toda uma família de blindados.

Esses blindados foram fabricados pela Engenheiros Especializados S/A – Engesa, com ampla e indissociável contribuição do Sistema de Ciência e Tecnologia do Exército (SCTEx), e obtiveram indiscutível sucesso em sua categoria. A efervescência que se seguiu foi marcada por muitos desenvolvimentos, pontificados pelo EE-T1 Osório, carro de combate à frente de seu tempo, mas que não teve oportunidade de lograr desempenho comercial por fatores conjunturais que levaram à derrocada da Engesa e à interrupção da fabricação de blindados no País em 1993.

Face à necessidade de substituir a Família Urutu e Cascavel, o Exército estabeleceu, em 1998, condicionantes e requisitos para uma Nova Família de Blindados de Rodas (NFBR). Somente em 2006, decidiu-se pela obtenção, por meio de pesquisa e desenvolvimento (P&D), da Viatura Blindada de Transporte de Pessoal, Média de Rodas, (VBTP-MR), que se estendeu posteriormente para Família de Blindados Guarani e Projeto Estratégico Guarani, com escopo mais abrangente de transformação da Infantaria Motorizada em Infantaria Mecanizada e de modernização da Cavalaria Mecanizada.


Marco Inicial do Projeto: 1ª Reunião Decisória da NFBR



Centro Tecnológico do Exército (CTEx) elaborou os Requisitos Técnicos Básicos (RTB), o Anteprojeto e o Estudo de Viabilidade Técnico-Econômica da NFBR, consubstanciando, assim, os elementos de definição que foram levados à 1ª reunião decisória, na qual estabeleceram os seguintes quesitos:

– classificar o projeto como prioridade para o Exército Brasileiro;
– iniciar pelo desenvolvimento da VBTP-MR 6x6, plataforma base das demais configurações, permitindo com facilidade a migração para 8x8;
– obter a VBTP-MR por desenvolvimento pelo SCTEx, em parceria com empresa nacional, valendo-se de dispensa de licitação; e
– fabricar um protótipo e 16 viaturas para o lote piloto.

Mais que um marco inicial, essas decisões constituíram as diretrizes estratégicas do projeto, complementadas pelo Comandante do Exército, que atribuiu ao Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT) a Gerência do Projeto de P&D e ressaltou o vulto dos recursos necessários, a importância do projeto e a necessidade de sinergia e agilidade gerencial para se conseguir um sistema de armas que permitisse uma significativa evolução tecnológica, em prazo compatível.

Tendo em vista a obtenção de uma NFBR que preservasse as características do sucesso da Família Urutu e Cascavel e que, também, mitigasse alguns óbices verificados no passado, o Projeto de P&D assumiu, ainda, as seguintes premissas principais: baixo custo, simplicidade, efetivo ganho operacional, maior utilização possível de peças comerciais, domínio do Pacote de Dados Técnicos pelo EB, propriedade intelectual do EB e fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID).


Projeto Preliminar, Modelo de Inovação e Seleção da Empresa Parceira

Houve-se por bem criar uma estrutura ad hoc para a Gerência do Projeto Especial de P&D da NFBR, subordinada diretamente à chefia do DCT. Desde o ano 2012, tal estrutura foi incorporada à Diretoria de Fabricação (DF), como parte de sua evolução para Centro de Desenvolvimento Industrial, compondo o Polo de Ciência e Tecnologia do Exército em Guaratiba (PCTEG).

Coube a essa Gerência Técnica, a partir do anteprojeto do CTEx, elaborar o conceito da VBTP-MR, consolidado no projeto preliminar, agregando intenso trabalho de engenharia e incorporando ao design as características essenciais que propiciariam condições para que fossem atendidas a todas as diretrizes e premissas, inclusive assegurando que a empresa parceira tivesse uma firme expressão do conceito da VBTPMR, formulado pelo EB.

Sempre que necessário, nessa fase e nas subsequentes, a Gerência Técnica buscou consultoria no Estado-Maior do Exército (EME) e no Centro de Instrução de Blindados (CIBld), de forma a assegurar o maior atendimento possível às necessidades da Força Terrestre.

Ainda nessa fase, a Gerência Técnica detalhou o modelo de inovação a ser seguido, combinando a possibilidade de fomento pela Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), por meio de ação conjunta dos Ministérios da Defesa e da Ciência e Tecnologia, para o desenvolvimento do protótipo de maior risco. Para isso, haveria uma contrapartida do EB, que se estenderia até a produção de um lote piloto, proporcionando um mínimo de entrega para o Exército e a viabilidade econômica da empreitada para a empresa parceira.

Destaca-se que esse arranjo, com aportes da FINEP e do EB, foi pioneiro naquele momento, encontrando semelhanças no contemporâneo Projeto do Radar Saber M60. Do ponto de vista técnico, o modelo de inovação elaborado reservava ao EB o conceito da viatura, a ser revisado e detalhado pela empresa parceira, que se encarregaria de incorporar as soluções de mercado e fabricar a viatura, sob acompanhamento de uma equipe de absorção de conhecimentos e de transferência de tecnologia residente na empresa e diretamente ligada à gerência técnica do EB.

Realizado o protótipo, ele seria submetido às avaliações técnica e operacional pelo Centro de Avaliações do Exército (CAEx), órgão do SCTEx, com suporte da empresa, propiciando, assim, outra fase de protagonismo do EB na crítica aferição dos requisitos operacionais estabelecidos pela Força.

Ao concluir o ciclo do modelo de inovação, o EB receberia o pacote de dados técnicos com todas as informações de produto e seu processo de fabricação, incluindo um conjunto do ferramental, a garantia da qualidade, o suporte logístico e propriedade intelectual gerada. Posteriormente, seriam procedidos o licenciamento para fabricação e o pagamento de royalties ao EB, que manteria o controle técnico das evoluções do projeto.

A seleção da empresa parceira era de importância central para o sucesso do modelo de inovação do Projeto de P&D da VBTP-MR. Optou-se, por um mecanismo novo à época, pela dispensa de licitação por alta complexidade tecnológica e por interesse da Defesa Nacional, introduzida na Lei de Licitações e Contratos.

Confirmada a hipótese de dispensa de licitação por comissão especificamente designada pelo Comandante do Exército, procedeu-se, portanto, a um rigoroso processo de seleção com base em critérios objetivos, vinculados às diretrizes e premissas do Projeto, conduzido pelo DCT a partir de propostas da Gerência Técnica. O processo inovador culminou com a seleção da proposta mais vantajosa, a da Fiat S/A, que designou a sua divisão Iveco para a execução do contrato, que, por sua vez, também era inovador. Sua confecção contou com o aporte de diversas áreas do EB.

Desenvolvimento do Protótipo



O desenvolvimento do protótipo se deu em um período de seis anos, abrangendo a elaboração do plano de gestão do projeto, a revisão do projeto preliminar, o projeto executivo do produto e do processo de fabricação, a fabricação do protótipo, os testes de engenharia, a avaliação técnica e operacional e a elaboração do pacote de dados técnicos.

Cumpre destacar a atuação do CAEx na rigorosa observância da conformidade aos requisitos e na aplicação de técnica esmerada na condução do processo de avaliação, contribuindo sobremaneira para a evolução do produto e levando a um conhecimento ainda mais minucioso.

Ao longo desse processo, foram incorporadas à viatura as características que permitem cumprir o preconizado nas diretrizes estratégicas do projeto:

– guarnição composta por motorista e atirador; transporte de um Grupo de Combate;
– capacidade de deslocamentos a grandes distâncias: raio de ação de 600 km;
– velocidade elevada em estrada e em terreno variado (máximo de 100 km/h);
– baixa pressão sobre o solo e boa mobilidade tática através campo;
– capacidade anfíbia e de operação noturna;
– transportabilidade por aeronaves tipo C-130 e KC-390;
– baixa dependência logística e facilidade de manutenção;
– elevada proteção blindada e contra minas anticarro;
– sistema automático anti-incêndio nos compartimentos da tropa e do motor;
– ar-condicionado e preparação para proteção Química, Biológica, Radiológica e Nuclear;
– capacidade de navegação por GPS e preparação para navegação inercial;
– comando e controle com Sistema de Gerenciamento de Campo de Batalha;
– sistemas de armas: torre não tripulada com canhão 30 mm, visão noturna e possibilidade de lançamento de mísseis; reparo automatizado para metralhadora 12,7 mm ou 7,62 mm com visão noturna; ou estação manual blindada (12,7 mm; 7,62 mm e LAG 40 mm).


Experimentação Doutrinária de Infantaria Mecanizada



Em reunião decisória especial, ocorrida em abril de 2012, a Experimentação Doutrinária de Infantaria Mecanizada foi incluída na fase de P&D do ciclo de vida da VBTP-MR, contemplando apoio de C&T à atividade, principalmente pelo desenvolvimento de VBTP-MR Guarani Experimental, compondo, juntamente com as viaturas do lote piloto, um lote de experimentação doutrinária (LED).

Esse LED corresponde à dotação para uma Brigada de Infantaria Mecanizada, sendo selecionada a 15ª Brigada de Infantaria Mecanizada (15ª Bda Inf Mec), com sede em Cascavel (PR), totalizando 128 unidades da VBTP-MR Guarani.

Durante o ano de 2013, intensificaram-se os trabalhos de desenvolvimento da capacitação de pessoal e do suporte logístico integrado, em estreita colaboração com o CIBld e efetiva participação da empresa parceira, possibilitando a formação inicial de motoristas, comandantes de carro e mecânicos, o que ora se consolida no CIBld e se multiplica no âmbito da 15ª Bda Inf Mec.

A utilização das VBTP-MR experimentais está coberta por um pacote logístico que contempla a utilização de cada viatura por 22.500 km ou 1.000 horas, até julho de 2017, e que abrange, também, o desenvolvimento da capacidade de manutenção do sistema logístico da tropa em 1º e 2º escalões e de diagnose em 3º escalão.

Em 24 de março de 2014, ocorreu a entrega de 13 viaturas ao 33º Btl Inf Mec e, posteriormente, outras entregas foram realizadas ao longo do ano.


Fábrica de Blindados Guarani



Por sua iniciativa, mas em consonância com os objetivos do Projeto de P&D, a Iveco decidiu implantar uma fábrica dedicada aos blindados Guarani, assunto que foi tratado em edição da Revista Verde-Oliva (abril de 2014), cujo preâmbulo sintetiza o feito: “A inauguração da fábrica Iveco, em Sete Lagoas (MG), torna realidade o sonho do Exército Brasileiro de desenvolver e produzir uma NFBR com todas as suas versões, o que leva, cada vez mais, à maior adequação ao Processo de Transformação da Força Terrestre e contribui para o crescimento da indústria nacional de defesa”.

Nessas instalações, ocorreu a produção do lote piloto, inicialmente quatro unidades de mesma configuração do protótipo em linha de produção provisória e, posteriormente, as 12 unidades restantes, já na nova linha de produção, mas todas incorporando correções e oportunidades de melhoria verificadas no desenvolvimento.

Foi nessa moderna fábrica que, também, foram produzidas as demais viaturas do lote de experimentação doutrinária e, em breve, face à inclusão do Projeto Estratégico Guarani no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), deve-se iniciar a produção seriada da VBTP-MR.

Com capacidade instalada que pode chegar a 140 viaturas por ano, a nova fábrica gerará royalties e divisas ao atender às Forças Armadas de Nações Amigas. É oportuno considerar a repercussão positiva que a VBTP-MR Guarani encontrou em feiras, como as últimas edições da LAAD, no Rio de Janeiro e a Eurosatory 2014, em Paris, ocasiões em que foram prontamente reconhecidas as características de simplicidade, baixo custo e capacidade operacional.



Novos Desenvolvimentos



A Subfamília Média da Família de Blindados Guarani prevê outras configurações, além da VBTP-MR, a serem desenvolvidas conforme planos do EME: reconhecimento; morteiro; central diretora de tiro; socorro; oficina; comunicações; posto de comando; ambulância; engenharia; desminagem; lançadora de pontes; defesa antiaérea; defesa química, biológica, radiológica e nuclear e escola.

Atualmente, está em curso o desenvolvimento da Viatura Blindada de Reconhecimento, Média de Rodas (VBR-MR), em configuração 8x8, a partir da plataforma base da VBTP-MR, com previsão de receber sistema de armas de calibre 105 mm e seguir o mesmo modelo de inovação com sucesso comprovado.

No ano de 2013, foi realizada a 1ª Reunião Decisória para a Subfamília Leve da Família de Blindados Guarani, que tem por base a Viatura Blindada Multitarefa, Leve de Rodas (VBMT-LR, 4x4), sendo decidido um processo de obtenção pela nacionalização, a ser conduzido pelo DCT, por intermédio da Gerência de P&D da Família de Blindados Guarani. Esse processo teve início com uma préqualificação em apreciação técnica, a cargo do CAEx, com requisitos estabelecidos pelo EME. O modelo de inovaçãoda VBTP-MR será adaptado para as peculiaridades da Subfamília Leve.

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Notas DefesaNet:
Acompanhe as notícias e histórico da Evolução do Projeto Estratégico do Exército a Viatura Blindada Guarani na Cobertura Especial (Link)

Para evolução da Doutrina e Operacionalidade do Exército Brasileiro acesse as Coberturas Especiais:
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