23 de Janeiro, 2013 - 11:03 ( Brasília )

Geopolítica

Dominó Árabe - Inércia dos EUA é risco para o Oriente Médio


Bernard Avishai e Sam Bahour
THE NEW YORK TIMES

Os israelenses foram às urnas ontem numa eleição que provavelmente dará ao primeiro-ministro Binyamin Netanyahu um terceiro mandado e, como a atual, a próxima coalizão de governo provavelmente dependerá vigorosamente dos partidos religiosos e de direita. Mesmo assim, o segundo mandado de Barack Obama pode propiciar uma oportunidade crucial para uma retomada do processo de paz entre israelenses e palestinos.

Em seu primeiro mandado, Obama afastou-se do processo, estimando que os EUA só poderiam fazer uma mediação se as partes realmente desejassem firmar a paz - e que novas conversações não deveriam ser produtivas. Um erro. O maior inimigo de uma solução de dois Estados é o grande pessimismo que domina os dois lados. A menos que o presidente Obama utilize seu novo mandado para assumir a liderança, a região não terá lugar para os moderados, tampouco para os EUA.

A razão da inércia americana tem por base pressupostos relacionados. Forças mais raivosas dominaram o processo por causa de suas ideolo-gias; o status quo - ou seja, as tendências demográficas que levariam à liberação dos territórios palestinos ocupados, "solução de um Estado", e ao fim de Israel como democracia judaica - no final obrigarão Israel a voltar à razão; que a condição de Estado observador obtida pelo presidente palestino, Mahmoud Abbas, na ONU não tem sentido, pois seu governo na Cisjordânia está falido, disfuncional e carece de um amplo apoio; e que diante do poder do lobby israelense, Obama tem as mãos presas.

Essas suposições parecem assustadoras, mas são equivocadas. Em primeiro lugar, embora o Hamas, o grupo de militantes islâmicos que controla a Faixa de Gaza, e a ultradireita israelense, que promove a construção das colônias, estejam crescendo em popularidade, a razão disso não está em suas ideologias, mas no desespero dos jovens com a violência da ocupação.

No mes passado, uma pesquisa realizada pelo Centro S. Daniel Abraham para a Paz no Oriente Médio, com sede em Washington, constatou que dois terços dos israelenses apoiariam a solução de dois Estados, no entanto, mais da metade dos militantes de esquerda afirmou que Abbas não conseguirá chegar a decisões que sejam vinculantes para pôr fim ao conflito. No mesmo mês, o Palestinian Center for Policy and Survey Research, em Ramallah, realizou um levantamento em que constatou que 52% dos palestinos são a favor de um acordo de dois Estados (uma queda em relação aos três quartos em 2006, antes de dois confrontos com Israel envolvendo Gaza) .

Mas para dois terços dos entrevistados não existe nenhuma chance, ou é muito reduzida, de um Estado Palestino funcionando plenamente nos próximos cinco anos. Em resumo, os moderados de ambos os lados desejam a paz, mas primeiro necessitam de esperança. Em segundo lugar, o status quo não é o caminho na direção de uma solução de um Estado, mas de uma limpeza étnica como a verificada na Bósnia, e que pode ter início tão rápido como os combates em Gaza no ano passado e se estender a cidades árabes israelenses.

A direita em Israel e os líderes do Hamas estão pressionando para uma luta cataclísmica. Abbas, cuja facção, a Fatah, controla a Cisjordânia, renunciou à violências, mas sem sinal de uma via diplomática ele não consegue o apoio da população para novas conversações. Se o seu gover-no se desintegrar, ou se mais áreas do território palestino forem anexadas (como pretende a direita israelense), ou se o impasse em Gaza levar a uma invasão terrestre por Israel, um banho de sangue e inúmeros protestos por todo o mundo árabe serão inevitáveis.

Este caos poderá também levar o Hezbollah, grupo militante xiita com base no Líbano, a fazer disparos de foguetes contra Israel. Em terceiro lugar, o Estado Palestino não é uma ficção imposta pela Fatah, mas um caminho na direção do desenvolvimento econômico, apoiado por doações e a diplomacia internacional, que muitos palestinos desejam que tenha êxito.

Esse futuro Estado tem uma economia de US$ 4bilhões; uma rede em expansão de empresas e profissionais; e um sistema bancário com US$ 8 bilhões de depósitos. Um robusto setor privado pode ser desenvolvido se houver oportunidade. Em quarto lugar, apoio americano não significa necessariamente conversações diretas. O governo poderia promover investimentos na educação e na sociedade civil palestina, o que não irá prejudicar a segurança de Israel.

Obama poderia exigir que Israel permita que as empresas palestinas tenham mais acesso a talentos, fornecedores e clientes. E também a criação de um corredor de transporte entre Cisjordânia e Gaza, a que Israel se comprometeu nos acordos assinados em Oslo em 1993. Os EUA são tanto um ator neste cenário, como também um facilitador.

Os sinais que enviar ajudarão a determinar se as partes se dirigem para a guerra ou a paz. A Casa Branca, apesar de seu relacionamento frio com Netanyahu, não se mostrou um mediador digno, opondo-se à adesão palestina à ONU e vetando resoluções condenando a ampliação dos assentamentos. Ao indicar Chuck Hagel para comandar o Pentágono, Obama ignorou os ataques de grupos pró-Israel (na verdade pró-Netanyahu).

Ele deveria nomear um negociador no qual ambas as partes depositem confiança - digamos, Bill Clinton ou Colin Powell. Ele precisa liderar, e não frustrar, as tentativas europeias com vistas a um acordo. Obama declarou que as colônias levarão Israel a um isolamento global; deve deixar claro que elas colo-cam em risco os interesses americanos, também. Washington tem uma influência fundamental, embora isso não vá durar para sempre. Quando exercida, ela se torna um fato político preocupante para ambas as partes. Se Obama continuar mantendo-se à distância, o desespero prevalecerá.


TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO * AVISHAI É ESCRITOR AMERICANO-ISRAELENSE EM JERUSALÉM; BAHOUR É UM CONSULTOR AMERICANO-PALESTINO NA CISJORDÂNIA