16 de Janeiro, 2013 - 13:22 ( Brasília )

Geopolítica

Blitzkrieg no Mali


Nikita Sorokin

A situação no Mali continua a desenvolver-se impetuosamente. Aviões franceses Mirage e Rafale bombardeiam posições e a retaguarda de islamitas radicais, colunas de veículos blindados franceses entram na capital do país Bamako, enquanto os rebeldes tuaregues manifestam seu apoio às autoridades do Mali.

Os analistas, porém, estão longe do otimismo: o país tem todas as hipóteses de se transformar em um “Afeganistão africano”, envolvendo países vizinhos no caos sangrento.

A decisão dos tuaregues locais do Movimento Nacional de Libertação de l'Azawad de passarem para o lado das autoridades malianas é uma das últimas informações vindas do campo de ações militares. Esta é sem dúvida uma notícia positiva que, no entanto, torna mais confusas as perspetivas de desenvolvimento da situação. Declarando-se dispostos a combater contra islamitas em conjunto com contingente de paz oeste-africano e militares franceses, os tuaregues, após a suposta vitória, não querem ver forças governamentais ou de coligação no norte do Mali, que consideram seu território.

Entretanto, durante a semana em curso, um contingente de paz da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) será deslocado para o Mali. Conforme a última declaração do presidente da Quinta República, François Hollande, o corpo expedicionário francês, que conta hoje com 750 soldados e oficiais, será reforçado em breve.

Somos testemunhas da última fase de internacionalização do conflito maliano, constata Laurie-Anne Teri Benoni, perita do Departamento de Operações de Paz da Universidade de Montreal do Canadá, que disse em entrevista à Voz da Rússia:

“Este jogo tem muitos participantes. Para garantir o êxito da operação, é necessário coordenar claramente as ações entre os jogadores. É necessário fazer, para entender os nossos objetivos e convencer-nos de que cada participante empreende esforços nesse sentido. Quando a operação começou, a principal pergunta de analistas e observadores dizia respeito aos objetivos – quais são os objetivos da operação e até onde eles se estendem?“.

Contudo, mesmo com o início da intervenção militar, o decorrer e os resultados do conflito continuam a ser imprevisíveis, ressalta Mehari Maru, dirigente do Programa para a Prevenção de Conflitos do Instituto de Problemas de Segurança da União Africana, em entrevista à Voz da Rússia:

“Esta crise não pode ser resolvida só através da intervenção militar, como considera a França, porque ela inclui em si muitos problemas. Envolve não apenas o terrorismo, mas também um movimento nacionalista, cujos líderes pretendem a autonomia e uma gestão melhor do país. Insistem também na liberdade religiosa. Portanto, o movimento rebelde é composto por diferentes aspetos e a situação geral exige uma solução integrada. Que poderão fazer os franceses? Eles chegaram, mas diferentes agrupamentos, que por enquanto “estão adormecidos” nesta etapa, podem vencer novamente no pano de fundo de exigências nacionalistas e regionais”.

Os tuaregues pretendem autonomia, os islamitas do agrupamento Ansar Al Din ligados à Al-Qaeda e os salafitas jihadistas aspiram ao estabelecimento de um califado no Mali. O heterogéneo establishment em Bamako lamenta a perda do status quo. A confrontação dentro de um conglomerado tão variado de diferentes grupos políticos, étnicos e religiosos faz lembrar a situação no Afeganistão. Tal como naquele país, islamitas ideologicamente formados atuam organizadamente e é pouco provável que eles se rendam facilmente a franceses e a seus aliados locais da CEDEAO. Na opinião de analistas, pode acontecer o contrário – a intervenção é capaz de “despertar” os islamitas em países vizinhos, tanto mais que as fronteiras entre eles não são protegidas, tendo exclusivamente um sentido convencional, geográfico. Em resultado, a guerra-relâmpago de militares franceses e oeste-africanos, bem-sucedida por enquanto, pode transformar-se numa guerra de cem anos num território bastante vasto.

Contudo, também há quem seja de opinião de que os últimos acontecimentos no norte e no oeste de África e as revoluções árabes são um processo natural, um imperativo dos tempos. Como disse Veniamin Popov, antigo embaixador da URSS e da Rússia em Trípoli após a guerra na Líbia, assistimos a um “deslocamento tetônico” iniciado nesta parte do mundo.