29 de Novembro, 2012 - 12:05 ( Brasília )

Geopolítica

Retirada dos capacetes azuis da ONU testará capacidade de Timor-Leste


A retirada dos capacetes azuis da ONU de Timor-Leste no próximo dia 31 de dezembro comprovará de uma vez por todas se a jovem nação está preparada para dirigir seu destino ou se as lutas internas, que levaram o país à beira de uma guerra civil em 2006, voltarão a fazer parte do cotidiano de sua população.

"É hora de comprovar se o Timor está preparado para ser completamente independente", afirmou à Agência Efe Mari Alkatiri, que foi primeiro-ministro do país após sua independência formal, de 2002 até 2006, quando a violência e a crise política acabaram comprometendo seu cargo.

Alkatiri também dirige a opositora Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente (Fretilin), formação que se voltou contra o colonialismo português.

"O Timor-Leste viveu uma guerra longa e violenta, com centenas de milhares de mortos, que deixou um grande trauma no país", apontou o político ao falar sobre o dramático passado.

Depois de mais de quatro séculos de colonização lusa, o Timor-Leste proclamou sua independência de Portugal em 1975 e, algumas semanas depois, o Exército indonésio já passaria a ocupar essa pequena nação durante os 24 anos seguintes.

Um referendo auspiciado pela ONU em 1999 deu início a retirada das tropas da Indonésia e o começo de uma transição tutelada em direção à independência, que só foi alcançada de fato no dia 20 de maio de 2002.

"A presença das Nações Unidas criou vantagens e desvantagens, e as vantagens nos proporcionaram tempo para criar instituições sólidas... Mas será que conseguimos?", indagou Alkatiri.

Além disso, o político apontou que o maior inconveniente da considerável presença internacional é "a dependência psicológica e política que qualquer patriota deveria querer romper".

A ONU se retirou do país em 2005, após tutelar a transição, mas no ano seguinte foi criada a Missão Integrada das Nações Unidas em Timor-Leste (Unmit) para ajudar as autoridades locais a sufocar a violência que avançava em decorrência de uma crise política que colocou o país à beira de uma guerra civil.

O ponto alto destes distúrbios foi a expulsão de 599 militares do Exército que reivindicavam melhorias trabalhistas e também denunciavam a corrupção na instituição.

No entanto, Alkatiri acredita que desta vez a violência não voltará a brotar se "os políticos evitarem instrumentalizar as forças de segurança".

O líder opositor, neste aspecto, sustenta que o maior desafio que Timor-Leste tem pela frente "é reduzir a pobreza", que afeta quase 40% da população, segundo dados de 2010.

Timor-Leste nasceu como uma das nações mais pobres do mundo, embora sua economia apresente atualmente um crescimento de dois dígitos devido à exploração das ricas reservas de petróleo e gás do mar do Timor.

O presidente da Associação de Jornalistas de Timor, Gil da Silva, se mostra mais confiante e opinou "que este é o momento que os timorenses vão saber o que é independência de verdade".

"A prova de que podemos seguir sozinhos é que as eleições de 2012 (legislativas e presidenciais) foram realizadas com sucesso e de forma pacífica", indicou Silva, que acrescentou que "o maior desafio é desenvolver a economia, lutar contra a corrupção e reduzir o desemprego".

Mas nem todos demonstram esse entusiasmo. Nas ruas as opiniões divergem, como a de Arroyo, um jovem oriundo de Díli que acredita que a saída das tropas da ONU "ainda é prematura".

"Não deveriam sair daqui ainda. Acredito que teremos problemas após essa retirada", completou.

Com 1,1 milhões de habitantes, Timor-Leste superou sua primeira década de vida sob o manto protetor das Nações Unidas, cuja presença é garantida desde os campos de patrulha até o considerável contingente pessoal internacional que transita pelas ruas de Díli e pelos distritos de fora da capital.

A partir do próximo dia 1º de janeiro, o país voltará a ter outra oportunidade para se autogovernar pelas mãos do líder da resistência e agora primeiro-ministro, Xanana Gusmão, e do ex-chefe das Forças Armadas e atual presidente, José Maria Vasconcelos. EFE

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