03 de Maio, 2011 - 09:24 ( Brasília )

Geopolítica

Para Antonio Patriota, ação ‘não deixa de ser positiva’

Representante da comunidade islâmica no Brasil condena frase de Obama e comemoração da população dos EUA

Fábio Fabrini, Sérgio Roxo e Fabiula Wurmeister

O ministro brasileiro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, classificou ontem a ação americana que levou à morte de Osama bin Laden como “positiva”. Em Brasília, a morte de Bin Laden provocou preocupação de órgãos de segurança quanto a possíveis represálias, principalmente em embaixadas dos Estados Unidos e de países aliados dos americanos.

Já a comunidade islâmica no Brasil criticou o tom de comemoração dos americanos em relação à morte do líder da al-Qaeda. Antonio Patriota afirmou que, em conversa, o embaixador brasileiro no Paquistão, Alfredo Leoni, transmitiu-lhe “segurança e tranquilidade”.

— A capital Islamabad é uma cidade comparativamente segura no Paquistão. Onde há bastante turbulência, às vezes, e atentados costuma ser em outras localidades, embora também não tenha deixado de ocorrer na capital — justificou. Para ele, a ação que levou à morte do líder foi “positiva”:

— Não deixa de ter uma dimensão interessante e positiva, no momento em que o mundo árabe se manifesta, do Marrocos ao Golfo, por mais liberdade de expressão, democracia, melhores oportunidades. A atuação internacional de um personagem como Bin Laden contribuiu direta e indiretamente para que se estigmatizasse, de certo modo, omundo islâmico, e se caracterizasse esse mundo como um lugar onde as alternativas seriam entre autocracia e fundamentalismo islâmico.

A Polícia Militar reforçou ontem a segurança em cinco embaixadas de Brasília, após o anúncio damorte de Bin Laden. Com o temor de algum protesto, o número de viaturas que fa-zem rondas no entorno das representações de Estados Unidos, Israel, Paquistão, Reino Unido e França foi aumentado. O comandante do 5o - Batalhão da PM, tenente-coronel Marcus Fialho, disse que o reforço foi enviado por precaução, já que acorporação não recebeu pedido oficial nem do Itamaraty nem das próprias embaixadas.

Representação no Paquistão trabalhou sob alerta
Até ontem à noite, o Itamaraty não havia recebido pedido de proteção especial para as embaixadas brasileiras no exterior . Na representação em Islamabad, próxima ao local em que Bin Laden foi morto, a segurança já é feita por fuzileiros navais brasileiros. Os funcionários trabalharam ontem sob alerta e foram dispensados mais cedo. Presidente do conselho de ética da União Nacional das Entidades Islâmicas no Brasil, o xeque Jihad Hassan Hamma-deh criticou os EUA:

— Outros meios poderiam ser usados para capturá-lo, porque, vivo, ele seria muito mais útil do que morto. Várias informações poderiam ser tiradas. Quem é o sucessor na hierarquia (da al-Qaeda)? Poderíamos ter uma visão muito mais concreta da organização. Hammadeh colocou em dúvida a própria veracidade das informações divulgadas. Para o xeque, o episódio pode fazer parte de umplano para elevar a popularidade do presidente Barack Obama. Hammadeh classificou ainda como “desrespeito” a reação do povo americano:

— Nenhuma morte deve ser comemorada.
O xeque questionou a frase de Obama de que com a morte se fez justiça, e disse que a participação demuçulmanos no 11 de Setembro não foi provada:
— Justiça é feita quando há um julgamento,com direito de defesa - diz, criticando ainda o fato de o corpo de Bin Laden ter sido jogado no mar .

— O corpo é sagrado para o muçulmano,independentemente das atitudes da pessoa. Mesmo quando há condenação por apedrejamento, após a morte o corpo não pode mais ser alterado. Segundo Hammadeh, a religião determina que o corpo seja enterrado. A alegação de que o enterro tem de ser no mesmo dia da morte não procede, diz. Para representantes da segunda maior comunidade árabe do país, em Foz do Iguaçu, a morte de Bin Laden foi vista como fato isolado, mas pode fazer com que a área, constantemente acusada de ter grupos terroristas, entre de novo em foco.

— Até hoje nenhuma das suspeitas contra a comunidade árabe da fronteira foi comprovada. Mas, agora, aregião será mais uma vez alvo de acusações—disse omorador Ali Salman Farhat, autor do livro “Terrorista por encomenda”