17 de Setembro, 2012 - 09:50 ( Brasília )

Geopolítica

Dominó Árabe - EUA repensam presença

Onda de protestos faz governo Obama cogitar reduzir atuação diplomática na região

Peter Baker e Mark Landler
NYT
Com agências

 

 Após seis dias de protestos contra os EUA por todo o mundo islâmico, a Casa Branca está se preparando para um período prolongado de turbulência, que testará a segurança das missões diplomáticas americanas e a habilidade do presidente Barack Obama de moldar a nova cara da região. Embora as manifestações tenham diminuído desde sábado, funcionários de alto escalão do governo americano concluíram que os protestos podem ser o presságio de uma crise de longo prazo com imprevisíveis consequências políticas. Ao mesmo tempo em que pressiona os líderes da região a agir para conter a revolta, Obama está considerando reduzir as atividades diplomáticas na região.

O governo egípcio, maior preocupação da Casa Branca - na semana passada Obama chegou a dizer que não considera o presidente islamista Mohamed Mursi um aliado - respondeu à pressão americana e pôs fim aos protestos anteontem. Mas as imagens de bandeiras americanas sendo rasgadas e queimadas, de flâmulas islâmicas sendo hasteadas e de embaixadas atacadas por multidões enfurecidas introduziram um elemento incontrolável na campanha em que Obama busca a reeleição, com as realizações no front externo como uma de suas principais bandeiras até então.

- Depois do sucesso de Obama ao matar Osama bin Laden, matar Muamar Kadafi e pôr fim à Guerra do Iraque, incontrolável na campanha em que Obama busca a reeleição, com as realizações no front externo como uma de suas principais bandeiras até então.

- Depois do sucesso de Obama ao matar Osama bin Laden, matar Muamar Kadafi e pôr fim à Guerra do Iraque, acho que o presidente e seus auxiliares pensaram que a questão da política externa estava bem resolvida, eleitoralmente falando. Agora, isso se desmancha no ar, e em vez de Obama ser o cara que pegou bin Laden, passamos a falar dele como uma reencarnação de Jimmy Carter (que não conseguiu controlar a crise da tomada de reféns na embaixada americana no Irã e acabou perdendo a reeleição), e isso é algo que a campanha não deseja - diz Michael Rubin, especialista em Oriente Médio do American Enterprise Institute.

Longas reuniões na Casa Branca

O governo americano teme que a violência no Egito, na Tunísia e em outros países continue por algum tempo, porque, a cada novo protesto, mais pessoas tomam conhecimento do inflamatório filme anti-Islã produzido nos EUA que detonou a onda de revolta. Funcionários da Casa Branca estudaram a dinâmica de surtos anteriores de violência, como o que se seguiu à publicação, na imprensa dinamarquesa, de uma charge ofensiva do profeta Maomé ou a queima de exemplares do Alcorão pelo pastor radical americano Terry Jones.

- O fato é que o Oriente Médio continuará turbulento e colocará os EUA diante de escolhas difíceis. Será uma situação frustrante, porque na maioria dos casos, nossos interesses serão maiores do que nossa capacidade de influência - diz Richard Haass, presidente do Council on Foreign Relations.

Durante longas reuniões na Casa Branca desde a morte do embaixador americano e outros três funcionários do país em Benghazi, na Líbia, o governo tem tentado antever os desdobramentos da crise e preparar uma resposta à altura. Mas ele voltou a ser pego de surpresa quando uma escola americana foi atacada na Tunísia, na sexta.

Apesar da reação inicial de mandar mais fuzileiros navais para proteger as missões diplomáticas, o governo está rediscutindo a natureza da presença americana no mundo islâmico. Com as embaixadas fortificadas na esteira do 11 de Setembro, há a dúvida se elas podem se tornar mais seguras do que já são ou se o caminho é reduzir algumas atividades, como programas de assistência e relações públicas que deixam os diplomatas mais expostos a risco.

É uma escolha difícil, pois reduzir o envolvimento americano nesses países reduziria a habilidade construir pontes culturais que na teoria poderia ajudar a diminuir a hostilidade exposta nos protestos. Mas os funcionários americanos consideram que continuar como se nada tivesse acontecido é impossível, e preveem dificuldades para conseguir autorização no Congresso para novos gastos em assistência a outros países.

Hezbollah convoca manifestações

Apesar dos percalços, membros do governo insistem que a gestão de Obama melhorou a posição americana no mundo muçulmano.

- Conseguimos um progresso significativo na tentativa de demonstrar que os EUA não estão em guerra contra o Islã, e em isolar a al-Qaeda. Mas é claro que ainda há desafios persistentes em parte do mundo árabe, que estão germinando há muito tempo - diz Benjamin J. Rhodes, conselheiro do presidente em temas de segurança nacional.

Além da espontânea fúria de muçulmanos que se sentiram ofendidos com o filme contra o profeta Maomé, os EUA ainda enfrentam o incentivo de movimentos radicais islâmicos a ações violentas contra as missões diplomáticas americanas. Ontem, o líder da facção libanesa Hezbollah, Hassan Nasrallah, convocou seus partidários a protestarem hoje em Beirute. Na Líbia, o presidente da Assembleia Nacional, Mohammed Magarief, afirmou que há indícios de que militantes estrangeiros ligados ao grupo terrorista al-Qaeda tenham sido responsáveis pela morte do embaixador Christopher Stevens.

Os principais protestos ontem aconteceram no Paquistão. Uma pessoa morreu em Hyderabad, e cinco ficaram feridas em Karachi. Houve ainda protestos em pelo menos mais dez cidades do país. Manifestantes também protestaram diante de representações americanas em Londres e na Turquia.