04 de Setembro, 2012 - 09:42 ( Brasília )

Geopolítica

Tambores de Guerra - “Não acredito que Israel cometa a loucura de atacar o Irã”, diz historiador


Atualmente, não acredito que Israel cometa a loucura de atacar o Irã. Tal ataque seria extremamente danoso para os interesses econômicos de europeus e estadunidenses, que veriam o preço do petróleo disparar, dificultando uma saída para a crise econômica, diz o historiador Andre Gattaz.

Sobre a Síria, Andre Gattaz, doutor em História Social pela USP e autor do livro A Guerra da Palestina: da Criação de Israel à Nova Intifada, disse que muitos interesses consideram vital a permanência de Assad no poder, uma vez que a derrubada de seu regime pode levar o país à fragmentação ou à continuada guerra civil.

Em entrevista ao site IAnotícia, Gattaz avalia a situação na Síria e as consequências de um ataque israelense ao Irã.

– O presidente da Síria, Bashar al-Assad será derrubado assim como aconteceu com Hosni Mubarak, no Egito e com Muammar Kadhafi, na Líbia?

– É muito difícil prever se e quando Bashar al-Assad será derrubado, pois é uma situação bem distinta da ocorrida nos países citados. No Egito, um país um pouco mais “aberto” do que a Síria, houve uma imensa mobilização popular, apoiada incondicionalmente pela comunidade internacional, o que acabou por levar à queda de Mubarak – embora não plenamente do regime.

Na Líbia, os interesses europeus não contradiziam os interesses de EUA e Rússia, tendo-se armado a oposição e destruído a capacidade do regime vencer a guerra civil que ali ocorreu. Na Síria, a divergência entre EUA, Europa, China e Rússia não permite uma ação internacional concentrada, o que torna mais difícil que a oposição consiga vencer a guerra civil. E muitos interesses consideram vital a permanência de Assad no poder, uma vez que a derrubada de seu regime pode levar a Síria à fragmentação ou à continuada guerra civil.

– Por que os EUA e a França ameaçaram intervir militarmente na Síria somente caso o país utilize armas químicas?

– Os Estados Unidos, a França e as outras potências capitalistas não têm mais condições econômicas de intervir militarmente em conflitos de duração incerta. Ao contrário do que muitos pensavam, o “keynesianismo econômico” que animou os anos Bush por meio do investimento no complexo industrial-militar, mostrou-se um grande erro, sendo em grande parte responsável pela má situação econômica da Europa e principalmente dos Estados Unidos, atolados em dívidas provocadas pelo excessivo gasto militar.

É possível que o uso de armas químicas levasse a uma comoção pública, e isto poderia fazer com que as potências agissem de maneira mais assertiva, entretanto não há uma ligação necessária entre opinião pública e estratégias geopolíticas.

– A intervenção militar na Síria não aconteceu ainda por causa da Rússia?

– Não apenas: há os aspectos econômicos, além da falta de interesses concretos para a ação (tais como campos petrolíferos ou oleodutos). Além disso, os EUA e seus parceiros da OTAN levam em consideração os resultados das intervenções no Afeganistão e no Iraque – o primeiro marcado por mais uma década de guerra, mostrando a impossibilidade de se vencer os talibãs em seus redutos nas montanhas; o segundo marcado por uma intervenção militar que, além de muito onerosa, transformou o país num campo de guerra inter-sectária.

– O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu está blefando quando ameaça atacar o Irã para impedir que o país tenha acesso a bomba nuclear?

– Atualmente não acredito que Israel faria a loucura de atacar o Irã. Tal ataque seria extremamente danoso aos interesses econômicos de europeus e estadunidenses, que veriam o preço do petróleo disparar, dificultando uma saída para a crise econômica – e os Estados Unidos já passaram este recado ao governo israelense. Mesmo considerando que seja comum Israel conduzir ações militares sem a anuência ou conhecimento do governo estadunidense, não acredito que o Estado sionista opte pela via militar em função das previsíveis retaliações do próprio Irã e de seus apoiadores no Líbano, na Síria, no Egito e na Palestina. O mais provável é a manutenção de uma retórica altamente afiada combinada com a guerra suja – tais como os ataques cibernéticos, raptos e assassinatos seletivos, conduzidos pelos serviços secretos dos Estados Unidos e de Israel.

– Quais serão as consequências de um ataque às usinas nucleares do Irã? A crise econômica mundial poderá se agravar com o início de uma guerra no Oriente Médio?

– As consequências seriam as piores possíveis. Suponho que ocorreria o fechamento do Golfo de Ormuz e de todo o trânsito de petroleiros do Golfo Pérsico, com o consequente aumento no preço do petróleo, refletindo sobre diversas cadeias produtivas – especialmente os alimentos, já em tendência de alta.

Além disso, haveria o recrudescimento dos conflitos entre Israel e seus vizinhos, decorrentes de ataques realizados por grupos apoiados pelo Irã. O Irã também atacaria Israel, levando os EUA, ainda que relutantes, a entrarem na guerra ao lado de Israel. A Assembleia Geral da ONU condenaria Israel pela ação contrária ao direito internacional, enquanto no Conselho de Segurança os EUA vetariam resoluções similares.

EUA deixam de confiar em Israel por causa de Irã

O governo dos EUA tomou a decisão de reduzir substancialmente as manobras militares conjuntas do exército americano com o Tzahal (Forças de Defesa de Israel).

A participação dos Estados Unidos diminuirá em dois terços, será reduzida a quantidade dos complexos antimísseis e o seu poder de fogo.

Segundo a versão oficial, as reduções devem-se a dificuldades orçamentais, mas Israel considera que a razão para isso são as divergências entre os EUA e Israel quanto à execução de um ataque contra as instalações nucleares iranianas.

Os EUA tencionam continuar a sua pressão econômica e diplomática contra o Irã devido às questões do seu programa nuclear.

Já em Israel está tudo pronto para um conflito militar de mês com o Irã.