Atualmente, não acredito que Israel cometa a loucura de atacar o Irã. Tal ataque seria extremamente danoso para os interesses econômicos de europeus e estadunidenses, que veriam o preço do petróleo disparar, dificultando uma saída para a crise econômica, diz o historiador Andre Gattaz.
Sobre a Síria, Andre Gattaz, doutor em História Social pela USP e autor do livro A Guerra da Palestina: da Criação de Israel à Nova Intifada, disse que muitos interesses consideram vital a permanência de Assad no poder, uma vez que a derrubada de seu regime pode levar o país à fragmentação ou à continuada guerra civil.
Em entrevista ao site IAnotícia, Gattaz avalia a situação na Síria e as consequências de um ataque israelense ao Irã.
– O presidente da Síria, Bashar al-Assad será derrubado assim como aconteceu com Hosni Mubarak, no Egito e com Muammar Kadhafi, na Líbia?
– É muito difícil prever se e quando Bashar al-Assad será derrubado, pois é uma situação bem distinta da ocorrida nos países citados. No Egito, um país um pouco mais “aberto” do que a Síria, houve uma imensa mobilização popular, apoiada incondicionalmente pela comunidade internacional, o que acabou por levar à queda de Mubarak – embora não plenamente do regime.
Na Líbia, os interesses europeus não contradiziam os interesses de EUA e Rússia, tendo-se armado a oposição e destruído a capacidade do regime vencer a guerra civil que ali ocorreu. Na Síria, a divergência entre EUA, Europa, China e Rússia não permite uma ação internacional concentrada, o que torna mais difícil que a oposição consiga vencer a guerra civil. E muitos interesses consideram vital a permanência de Assad no poder, uma vez que a derrubada de seu regime pode levar a Síria à fragmentação ou à continuada guerra civil.
– Por que os EUA e a França ameaçaram intervir militarmente na Síria somente caso o país utilize armas químicas?
– Os Estados Unidos, a França e as outras potências capitalistas não têm mais condições econômicas de intervir militarmente em conflitos de duração incerta. Ao contrário do que muitos pensavam, o “keynesianismo econômico” que animou os anos Bush por meio do investimento no complexo industrial-militar, mostrou-se um grande erro, sendo em grande parte responsável pela má situação econômica da Europa e principalmente dos Estados Unidos, atolados em dívidas provocadas pelo excessivo gasto militar.
É possível que o uso de armas químicas levasse a uma comoção pública, e isto poderia fazer com que as potências agissem de maneira mais assertiva, entretanto não há uma ligação necessária entre opinião pública e estratégias geopolíticas.
– A intervenção militar na Síria não aconteceu ainda por causa da Rússia?
– Não apenas: há os aspectos econômicos, além da falta de interesses concretos para a ação (tais como campos petrolíferos ou oleodutos). Além disso, os EUA e seus parceiros da OTAN levam em consideração os resultados das intervenções no Afeganistão e no Iraque – o primeiro marcado por mais uma década de guerra, mostrando a impossibilidade de se vencer os talibãs em seus redutos nas montanhas; o segundo marcado por uma intervenção militar que, além de muito onerosa, transformou o país num campo de guerra inter-sectária.
– O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu está blefando quando ameaça atacar o Irã para impedir que o país tenha acesso a bomba nuclear?
– Atualmente não acredito que Israel faria a loucura de atacar o Irã. Tal ataque seria extremamente danoso aos interesses econômicos de europeus e estadunidenses, que veriam o preço do petróleo disparar, dificultando uma saída para a crise econômica – e os Estados Unidos já passaram este recado ao governo israelense. Mesmo considerando que seja comum Israel conduzir ações militares sem a anuência ou conhecimento do governo estadunidense, não acredito que o Estado sionista opte pela via militar em função das previsíveis retaliações do próprio Irã e de seus apoiadores no Líbano, na Síria, no Egito e na Palestina. O mais provável é a manutenção de uma retórica altamente afiada combinada com a guerra suja – tais como os ataques cibernéticos, raptos e assassinatos seletivos, conduzidos pelos serviços secretos dos Estados Unidos e de Israel.
– Quais serão as consequências de um ataque às usinas nucleares do Irã? A crise econômica mundial poderá se agravar com o início de uma guerra no Oriente Médio?
– As consequências seriam as piores possíveis. Suponho que ocorreria o fechamento do Golfo de Ormuz e de todo o trânsito de petroleiros do Golfo Pérsico, com o consequente aumento no preço do petróleo, refletindo sobre diversas cadeias produtivas – especialmente os alimentos, já em tendência de alta.
Além disso, haveria o recrudescimento dos conflitos entre Israel e seus vizinhos, decorrentes de ataques realizados por grupos apoiados pelo Irã. O Irã também atacaria Israel, levando os EUA, ainda que relutantes, a entrarem na guerra ao lado de Israel. A Assembleia Geral da ONU condenaria Israel pela ação contrária ao direito internacional, enquanto no Conselho de Segurança os EUA vetariam resoluções similares.
O governo dos EUA tomou a decisão de reduzir substancialmente as manobras militares conjuntas do exército americano com o Tzahal (Forças de Defesa de Israel).
A participação dos Estados Unidos diminuirá em dois terços, será reduzida a quantidade dos complexos antimísseis e o seu poder de fogo.
Segundo a versão oficial, as reduções devem-se a dificuldades orçamentais, mas Israel considera que a razão para isso são as divergências entre os EUA e Israel quanto à execução de um ataque contra as instalações nucleares iranianas.
Os EUA tencionam continuar a sua pressão econômica e diplomática contra o Irã devido às questões do seu programa nuclear.
Já em Israel está tudo pronto para um conflito militar de mês com o Irã.