27 de Agosto, 2012 - 18:00 ( Brasília )

Geopolítica

Quase metade dos guerrilheiros da Colômbia são crianças são, diz estudo


John Otis

Embora a intensidade do longo conflito civil na Colômbia tenha diminuído na última década, um estudo recente revela uma tendência devastadora: os guerrilheiros marxistas e as quadrilhas do narcotráfico estão cada vez mais recrutando crianças à força. O estudo estima que mais de 40% dos guerrilheiros do país são crianças. Em 2011, autoridades colombianas apresentaram uma estimativa de cerca de 30%.

Além disso, o relatório informa que metade dos membros das “bandas criminales” – grupos do narcotráfico compostos principalmente de ex-combatentes paramilitares de direita que foram desmobilizados na década de 2000 – é de menores de idade. De acordo com o relatório, isso se compara à taxa de 40% de crianças-soldado, equivalente à dos paramilitares agora desmobilizados.

O estudo de 120 páginas divulgado na semana passada é da autoria de Natalia Springer, uma colombiana especialista em direito internacional e direitos humanos. Na ausência de dados claros sobre o recrutamento de menores, a pesquisadora e cerca de 80 colegas passaram quatro anos entrevistando cerca de 500 crianças-soldado desmobilizadas. Além de ter como foco as crianças armadas, o relatório também estima que, pelo menos, 100.000 delas trabalham na produção de drogas e em outras facetas da economia ilegal colombiana.

“Trata-se de uma emergência humanitária”, disse Natalia em entrevista telefônica ao Dialogo. “O nível do recrutamento forçado de crianças é extremamente elevado.”

Governo contesta conclusões do estudo

Diego Molano, diretor do Instituto Colombiano de Bem-Estar Familiar, encarregado da proteção dos menores de idade, questionou a afirmativa do relatório de que o país tem, atualmente, 18.000 crianças-soldado. Todavia, ele admitiu que o governo não possui dados próprios que sejam consistentes. “O importante é que nenhuma criança deve participar do conflito armado”, disse Molano a repórteres.

Entretanto, os grupos armados ilegais colombianos sempre incluíram muitas crianças. Algumas são nascidas da relação entre guerrilheiras e combatentes paramilitares. Outras seguiram os passos dos pais, tios ou irmãos mais velhos guerrilheiros.

Contudo, o ritmo do recrutamento forçado de menores aumenta à medida que combatentes experientes e líderes de quadrilhas do narcotráfico são abatidos. Cada vez mais, os comandantes rebeldes recorrem a adolescentes, e até a pré-adolescentes, para preencher suas fileiras, ao mesmo tempo em que as “bandas criminales” tiram proveito do emprego de crianças ao invés de adultos.

Eles também dispõem de uma grande parcela de crianças desesperadas. Embora as estatísticas oficiais apresentem uma diminuição do índice de pobreza da Colômbia, muitas áreas rurais permanecem atrasadas, isoladas e fora do controle das forças de segurança do governo. Apesar das condições precárias, a guerrilha e as gangues de drogas podem, algumas vezes, prover aos jovens uma sensação de poder e um certo sentido, embora distorcido.

Natalia: as crianças geralmente são induzidas a aderir às FARC

Ainda assim, poucas são as que ingressam por livre e espontânea vontade atualmente.

De acordo com Natalia, em diversos departamentos do sul do país, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) atualmente forçam cada família a ceder pelo menos um filho ou filha à organização rebelde. A idade mínima exigida pelas FARC costumava ser 14 ou 15 anos, mas agora, afirma Natalia, essas diretrizes extrapolaram e hoje a faixa etária das crianças recrutadas passou a ser de 12.

Em maio, em um dos casos recentes mais audaciosos, os rebeldes das FARC invadiram uma escola rural no departamento de Putumayo, no sul do país, e obrigaram 13 estudantes a entrar na selva. Eles tinham entre 10 e 15 anos de idade.

“Eles os enganaram, prometendo uma vida melhor e os levaram embora”, afirmou a política colombiana Gloria Inés Flórez sobre o sequestro em massa.

Em seu relatório, Natalia citou a declaração de um ex-guerrilheiro menor, de codinome Juan, que entrou para as FARC aos 10 anos de idade: “Os guerrilheiros nos perguntaram de que lado estávamos. Eu não queria ir com eles, mas não dá para dizer ‘não’ a essa gente”.

ONU exige mais ações da Colômbia no combate ao fenômeno das crianças-soldado

Os menores, como Juan, oferecem inúmeras vantagens aos grupos armados ilegais. São fáceis de manipular e adaptam-se rapidamente às exigências físicas do combate nas regiões de montanha e selva. Eles não recebem salário e não têm como protestar. Geralmente, são filhos e filhas de imigrantes pobres, cujo desaparecimento passa despercebido, detalha Natalia.

As gangues de drogas, por sua vez, recorrem aos jovens porque, quando capturados, são enviados ao leniente sistema legal juvenil, em que as autoridades enfrentam mais restrições ao interrogar crianças. Além disso, de acordo com Natalia, é mais difícil para essas autoridades obter informações de menores integrantes de quadrilhas, pois as forças de segurança do governo são proibidas de utilizar menores para se infiltrar nas organizações criminosas.

A pesquisa de Natalia foi publicada logo após a divulgação, em maio, de um relatório da ONU que conclama o governo colombiano a agir para separar as crianças dos grupos armados ilegais do país.

O relatório da ONU afirma que os guerrilheiros geralmente recrutam crianças nas áreas rurais enquanto as “bandas criminales” se concentram mais nas áreas urbanas, além de denunciar que menores de apenas 8 anos de idade são forçados a juntarem-se às fileiras e que diversas crianças usando uniformes das FARC estavam entre os mortos nos recentes bombardeios militares a acampamentos dos rebeldes.

Crianças formam uma ‘grande parte’ da rede de tráfico de cocaína

“As FARC estão usando crianças para fabricar e instalar minas terrestres, comprar remédios e executar missões de inteligência”, diz o relatório da ONU, acrescentando que o abuso sexual é desenfreado e que as meninas – que compõem 43% das crianças recrutadas – são comumente forçadas a sofrer abortos quando engravidam.

Natalia sugere que os colombianos podem estar subestimando o problema das crianças-soldado, em parte, pelo enfraquecimento dos rebeldes graças às ofensivas militares, enquanto as “bandas criminales” são menos poderosas e violentas que os cartéis de Medellín e Cali, que dominaram o tráfico de drogas ilícitas nas décadas de 80 e 90.

“Pode haver a impressão de que a guerra acabou, mas não acredito nisso”, assevera Natalia.

De fato, as duas maiores organizações guerrilheiras do país – as FARC e o ELN (Exército de Libertação Nacional) – estão longe de ser derrotadas e intensificaram os ataques nos últimos três anos. Enquanto isso, as “bandas criminales” continuam a traficar grandes carregamentos de cocaína. Segundo Natalia, as crianças “compõem uma enorme parte dessa dinâmica”.