26 de Agosto, 2012 - 14:00 ( Brasília )

Geopolítica

'Fomos cercados e recebidos a tiros', diz militar brasileiro que atuou na Síria

Major que chefiou equipe de monitores da ONU fala ao G1 sobre o conflito. Militares foram alvo de tiros de fuzil e viram corpos decapitados pelas ruas.

O major Eduardo Bordeaux Mattos, de 38 anos, oficial do Exército brasileiro, foi convocado em maio desse ano para chefiar uma equipe da Organização das Nações Unidas (ONU) na Síria. A missão era monitorar o conflito nas ruas de Aleppo, cidade mais disputadas entre as forças rebeldes e as tropas fiéis ao governo do presidente Bashar al-Assad.

Em meio aos intensos confrontos, Mattos foi alvo de tiros e viu corpos decapitados. O militar voltou ao Brasil, na última sexta-feira (17), depois que o trabalho da ONU foi encerrado pelo Conselho de Segurança, devido ao fracasso em conter a violência na região.

"Fomos cercados e alvo de tiros várias vezes. Durante protestos, milhares de pessoas tentaram virar os veículos blindados da ONU, que pesam mais de cinco toneladas. Em certa ocasião, uma granada foi colocada sobre o vidro e explodiu o carro. Por sorte, conseguimos sair a tempo e ninguém ficou ferido", diz Mattos, em entrevista exclusiva ao G1.

Apesar dos ataques, o oficial brasileiro e os demais monitores da ONU não puderam usar armas para se defender. Não portar armamentos foi uma das exigências do governo sírio e de outros países para o envio da missão de observadores, em maio deste ano, quando os dois lados do conflito concordaram em negociar um fim para a guerra civil no país.

A atuação da imprensa na região é limitada. Apesar de não haver números oficiais, a oposição síria diz que o conflito já deixou mais de 24 mil mortos, a maioria composta de civis. O conflito, iniciado em março de 2011 depois que o governo reprimiu violentamente protestos por mais democracia no país, já chegou à capital Damasco (veja o infográfico no fim da reportagem).

Além do major, outros 10 oficiais das Forças Armadas brasileiras foram enviados à Síria. Todos retornaram ao Brasil na última semana. "A situação é muito complicada. Qualquer um dos lados que decidir entrar com mão pesada para tentar vencer vai matar muita gente. Se o Ocidente der apoio à oposição, os combates irão aumentar e quem vai sofrer é a população. O mesmo ocorrerá do outro lado, se Assad mandar bombardear comunidades habitadas", diz Mattos.

O militar, que está de volta ao trabalho na Brigada de Infantaria de Selva, em Boa Vista (RR), onde atuava antes da convocação, fala que “o povo sírio diz não apoiar nenhum dos lados" do conflito. "Eles afirmam que só querem que tudo volte à normalidade, desejam a paz para o país", relata.

Segundo o major, antes de cada patrulha, o time da ONU fazia contatos com ambos os lados, informando previamente itinerários, para evitar emboscadas. E, em alguns casos, recebeu alerta de que o acesso não seria permitido ou que era "arriscado" entrar em alguma área.

 

"Nossa missão era relatar abusos dos dois lados. E não interferir no que ocorria. Tínhamos acesso a áreas dos rebeldes e do governo, ouvíamos a população e os combatentes dos dois lados. Se havia abuso, detenções arbitrárias, excessos contra a população, relatávamos. Nossa função não era imparcial, mas neutra", diz. "E, no início (da missão), os dois lados respeitavam isso".

"A oposição é fragmentada e isso dificultava as conversas. Eles afirmavam sempre que não queriam papo, que não queriam negociar, que a única saída que buscam é a saída do Assad", afirma o major, citando conversas com rebeldes.

Sem pânico

O oficial brasileiro relata momentos tensos vividos durante os protestos e diz que é importante manter o controle mesmo nas situações mais difíceis. "A blindagem [do carro da ONU] segura até disparo de fuzil de calibre 7.62 mm. Mas quando você é alvejado, não sabe se o tiro passou, se o pneu furou, se tem condições de seguir. Você não pode entrar em pânico", afirma Mattos.

Ele diz que se perguntava "o que posso fazer para sair daqui o mais rápido possível?" durante os ataques. "Cheguei a ver pessoas, supostamente rebeldes, atirando em nosso comboio durante uma patrulha. Os tiros, tanto na área da oposição quanto na do governo, eram sempre direcionados aos veículos da ONU. Nenhum observador foi alvo quando estava fora do carro", recorda.

Quando vítimas eram encontradas mortas nas ruas, era difícil para a equipe verificar se os corpos eram de inocentes ou de combatentes. "Uma vez, encontramos cinco homens degolados, e a oposição disse que eram policiais. Mas não havia como confirmar a informação", exemplifica.

 

Ideologia terrorista

Mattos conversou com integrantes de grupos rebeldes que formam o Exército Sírio Livre, braço armado da oposição ao regime de Assad, e acredita ter percebido influência de organizações supostamente terroristas no pensamento de alguns integrantes.

As entrevistas eram sempre traduzidas por um militar da missão da ONU que falasse árabe. Em todos os times havia um, pois a contratação de tradutores locais não era autorizada. Já com a população, Mattos falava muitas vezes em inglês ou em francês.

"Pela conversa é possível identificar, entre os combatentes, quem é mais radical. Normalmente, os tomadores das decisões são os mais políticos. Quando precisávamos pedir aos rebeldes para não fazer nada em determinado dia naquela região, pois era necessário enviar ajuda ou fazer o recolhimento do lixo, pedíamos aos líderes que estavam abertos à negociação", lembra.

A identificação de que você estava em um território dominado por rebeldes vinha por meio de gritos de guerra - "Deus é grande", "Fora Assad" ou "Morte a Assad" - e também através de uma bandeira que é símbolo do Exército Sírio Livre.

Segundo o oficial brasileiro, há muitos “combatentes estrangeiros” que integram a oposição, que se diferenciavam da população síria pelo modo de vestir e de falar. Alguns confirmavam sua procedência de países africanos e do Oriente Médio. Generais sírios relataram também a agências internacionais que havia combatentes de outros países apoiando os rebeldes.

"Não sabemos onde estes estrangeiros são recrutados. Alguns países, como Turquia, Qatar e Arábia Saudita, oficialmente declararam apoio os rebeldes. Mas este ponto não estava dentro da nossa missão".

Outro fator que indicaria influência estrangeira são atentados suicidas, que "não fazem parte da cultura síria". "Era muito raro um suicida com bomba. O povo diz que um sírio não mata outro desta forma. Isso não é da história deles. Houve alguns ataques, inclusive um dentro do quartel-general de Assad, que matou o ministro da Defesa e alguns generais do alto comando. Em Aleppo, um atentado suicida em uma praça matou civis. São, para nós, indícios de que haveria extremistas passando ideologias aos rebeldes".

Luz, água, gás e comida racionados

Durante as patrulhas pelo interior do país, atravessando áreas dominadas pelo governo e pelos rebeldes, havia regularmente uma zona neutra. "Passávamos por um posto sob controle das Forças Armadas sírias e, mil metros adiante, por exemplo, havia uma barreira rebelde", diz o major brasileiro.

Nosso trabalho era verificar se havia aumento da violência. Fazíamos perguntas para saber a impressão das pessoas nos bairros, visitávamos hospitais e questionávamos médicos se havia aumentado o número de feridos, entrávamos em presídios, para verificar a regularidade das detenções. Estávamos ali para ouvir os dois lados", explica o chefe da missão.

A ONU percebeu, ao longo do tempo, que a situação se deteriorava. "Em Damasco [capital da Síria] e nas grandes cidades, não se tem ideia do que ocorre no interior do país. Em áreas dominadas pelo governo, as pessoas tentam manter a vida normal. Mas nas áreas da oposição, começamos a ver o racionamento de comida e gás, cortes de luz e de água, filas enormes nos postos de combustíveis. Em Aleppo, os preços ficaram sete vezes maiores que o normal", recorda.

"Certa vez, tivemos que pedir aos rebeldes para não fazer nada em determinado dia porque era preciso recolher o lixo. A sujeira se amontoava nas ruas, havia risco de doenças, e não havia como fazer este trabalho com segurança".

Bandeira brasileira

O major conta que, nas ruas, crianças identificavam a bandeira brasileira destacada em sua farda. "Eles não conseguem ler a palavra Brasil, mas apontavam para o verde e amarelo estampado no braço. A criançada começa a falar em futebol, que gosta de brasileiro. O nosso jeitinho facilita o diálogo e a confiança com a população".

Ele pondera, no entanto, a influência dos atores internacional no terreno. "A população vê TV, sabe quando um país se manifesta contra e a favor de determinada parte do conflito. Certa vez, recebi uma ameaça velada de um rebelde que apontou para a bandeira no meu braço. Quando o embaixador sírio foi expulso do Marrocos, oficiais marroquinos que trabalhavam para a ONU não puderam sair à rua. A evolução dos fatos globalmente interfere na missão", garante Mattos.