22 de Agosto, 2012 - 09:45 ( Brasília )

Geopolítica

Dominó Árabe - EUA fazem novo ultimato à Síria

Armas químicas como último argumento

Durante o briefing de segunda-feira ela deu a entender que Washington pretende informar o representante especial da ONU e da Liga Árabe na Síria, Lahdar Brahimi, de tal intenção.

Tudo indica que os EUA pretendem infligir um novo golpe contra o prestígio da ONU, pondo em dúvida a sua capacidade de superar as crises, - reputa Aleksei Podtserob, perito do Instituto de Estudos Orientais junto da Academia de Ciências Russa.

"Nesta declaração de Victoria Nuland não há nada de surpreendente. Os americanos já recorreram reiteradas vezes à força bruta, à revelia das decisões da ONU. Basta recordar a sua intervenção no Panamá e a invasão em Granada. Há relativamente pouco foi perpetrada a agressão contra a Jugoslávia e, em 2003, deu-se a intervenção no Iraque.

Esta última também foi cometida à margem do Conselho de Segurança e sob um pretexto evidentemente forjado – afirmava-se que Saddam Hussein possuía armas biológicas e químicas. Qual será o resultado do ataque contra a Síria? Haverá, certamente, uma guerra de plena envergadura, serão derramados rios de sangue. Tal será o resultado. É evidente que a Síria é incapaz de resistir aos EUA, isto é claro. Mas, por outro lado, eu conheço bem os sírios – eles irão resistir até à última. Portanto, será uma nova guerra muito sangrenta no Próximo Oriente."

O presidente dos EUA Barack Obama também advertiu sobre a possibilidade da intervenção na Síria. Durante o briefing extraordinário de segunda-feira ele declarou que, por enquanto, não tinha dado ordem de intervir, mas ameaçou, ao mesmo tempo, que podia adotar uma outra posição caso Damasco use armas químicas ou bacteriológicas. Este é um novo ultimato a Damasco e um desafio à comunidade internacional, que dispõe de mecanismos convencionais para impedir o uso de armas de extermínio em massa.

São precisamente estes mecanismos que devem ser postos em ação nos contatos com Damasco, o que é confirmado pelo crescimento da ameaça de que as armas de extermínio em massa que se encontram na Síria possam cair nas mãos da Al-Qaeda. Por mais paradoxal que pareça, quem pode ajudar a que isso aconteça são os EUA. Este país apoia a oposição armada da Síria, cujos comandantes confessam que têm utilizado cada vez mais os militantes da Al-Qaeda.

Aliás, os americanos asseveram que não fornecem ajuda militar à oposição. Todavia eles estimulam por todos os meios a Arábia Saudita e o Qatar a fornecê-la. Washington procede da mesma maneira em relação à Turquia e à Líbia, cujos territórios também são utilizados para fornecer à oposição armas e os efetivos militares. Se a oposição conta cada vez mais com a Al-Qaeda, não pode deixar de prestar-lhe crescente ajuda em forma de armamentos e informações de inteligência, que vêm de fora. Eis a opinião de Boris Dolgov, analista do Instituto de Pesquisas Orientais da Academia de Ciências Russa.

"Os EUA lutam contra a Al-Qaeda no Afeganistão e no Iêmen. Esta organização foi taxada de “inimigo número um”. Ao mesmo tempo, Washington apoia na realidade a Al-Qaeda na Síria. O mesmo ocorreu na Líbia. Recordemos a história da guerra civil no Afeganistão quando os serviços secretos americanos apoiavam Bin Laden e este homem era considerado “agente de influência” dos EUA.

Agora os EUA e os principais países da NATO procuram derrubar o regime sírio que não lhes convém, utilizando para isso os islamitas radicais, incluindo, a julgar por tudo, também a Al-Qaeda. Pretendem utilizar mais tarde estas forças islamitas radicais em prol dos seus objetivos. É o mesmo que já tentaram fazer no Afeganistão. Portanto, Washington comete o mesmo erro, - para não dizer que se empenha num jogo perigoso, - que já tinha sido cometido no Afeganistão."

Face ao crescimento de informações sobre a intensificação da atividade da Al-Qaeda na Síria, Moscou advertiu segunda-feira que o contrabando de armas para este país é inadmissível. No comentário do Ministério das Relações Exteriores da Federação Russa constata-se, em particular, que a Líbia, a Turquia e o Líbano se tornaram canais de fornecimento de armas à oposição síria.

Armas químicas como último argumento
(Boris Pavlischev - Voz da Rússia)

É evidente que as palavras de Obama não se destinam para Assad, salienta o politólogo Igor Khokhlov:

“Obama trabalha em regime de corrida pré-eleitoral, tendo como tarefa principal ser reeleito. As suas declarações agressivas são dirigidas principalmente não tanto a Damasco, quanto ao eleitorado, impressionado com a dureza de seu concorrente, Mitt Romney”.

Segundo os serviços secretos dos EUA, as armas químicas e biológicas sírias são armazenadas em seis arsenais, cerca dos três dos quais decorrem combates intensos. Substâncias tóxicas como sarín, VX, gás mostarda e bacilos de antraz maligno são contidas em reservatórios subterrâneos. Não se pode excluir que agrupamentos extremistas se apoderem destas substâncias perigosas que neste caso podem aparecer posteriormente onde quer que seja – no Cáucaso do Norte, na Europa ou nos Estados Unidos, considera Igor Khokhlov.

Na opinião de Igor Korotchenko, as autoridades sírias são capazes de não admiti-lo:

“Este é um cenário mítico, inventado pelos EUA para justificar uma intervenção armada. A meu ver, as armas químicas são controladas pelo governo da Síria, que não admitirá suas movimentações descontroladas”.

No pano de fundo da escalada do conflito sírio, em meios de comunicação social ocidentais apareceram afirmações de que a Rússia, antigo parceiro de Damasco, teria fornecido em tempos à Síria não apenas armas convencionais, mas também químicas. Moscou desmente estas declarações. Fala o chefe adjunto do Departamento Federal para Armazenamento Seguro e Destruição de Armas Químicas, coronel Vladimir Mandych:

“Não se pode dizer que a Síria tem armas químicas de produção russa, porque estas não foram levadas fora do território da Rússia”.

Entretanto, a Turquia e Israel efetuam manobras, preparando-se para repelir um eventual ataque químico. Cresce também a tensão nas relações entre Damasco e Ancara. Ao conhecer que a Turquia forneceu mísseis terra-ar americanos Stinger aos rebeldes sírios, as autoridades da Síria prometem em resposta enviar semelhantes mísseis a separatistas curdos, se for fornecido mais um lote de Stingers. Ancara adverte que começará uma guerra. Peritos ocidentais sustentam que, se Bashar Assad for afastado do seu cargo de um ou de outro modo, será necessário, no caso do pior cenário, introduzir na Síria até 60 mil militares, para guardar os arsenais.

Nesta situação, muito depende do bom senso das partes, inclusive da disposição de Damasco de recorrer a armas químicas como ao último argumento. Em tempos, a Síria assinou, sem ratificar, a Convenção sobre a Proibição de Armas Biológicas, mas, em conjunto com Angola, Coreia do Norte, Somália e Egito, não aderiu a um documento análogo sobre a proibição de armas químicas e, formalmente, nada a impede de usá-las.