25 de Abril, 2011 - 09:48 ( Brasília )

Geopolítica

Oriente Médio - Regime sírio começa onda de prisões a opositores que denunciaram massacre


Jamil Chade

Depois de ordenar uma repressão que fez pelo menos 120 vítimas entre sexta-feira e sábado, o regime sírio deflagrou ontem uma onda de prisões, com mais de 200 oposicionistas detidos em menos de 24 horas. A intenção é sufocar os protestos liderados por organizações que pedem a saída de Bahar Assad do poder. Na quinta-feira, ele colocou fim ao regime de emergência que vigorou no país durante 48 anos.

ONGs ligadas à defesa de direitos humanos e organizações internacionais denunciaram ontem o aumento da violência e a invasão pelo regime sírio de casas de opositores em Damasco, Homs e outras cidades para prender ativistas, em plena madrugada. A internet e telefones foram cortados. Ativistas consideraram as detenções "sequestros ilegais" por parte do regime.

No fim da semana passada, forças de segurança do regime de Assad reprimiram as manifestações que pediam o fim da corrupção e a volta da democracia.

Segundo a Comissão Internacional de Juristas, com sede em Genebra, e a Organização Árabe de Direitos Humanos, cerca de 300 pessoas foram detidas nos últimos cinco dias. A maioria foi levada de suas casas entre a madrugada de sábado e ontem por grupos armados com rifles.

Segundo dados da Comissão Internacional de Juristas, mais de 330 pessoas já foram mortas desde o começo dos protestos, há um mês. Os dados são parecidos aos da Anistia Internacional. Para essas ONGs, mais de 2 mil pessoas já foram presas nos últimos 30 dias.

As prisões no fim de semana ocorreram principalmente nos bairros de Harasta e Ghouta, em Damasco. No norte do país, cidades como Aleppo, Raqqa e Idlib também registraram prisões. Na cidade de Jableh, tropas abriram fogo contra dissidentes que voltaram a protestar, matando pelo menos três e ferindo dezenas.

Resistência. Em várias cidades moradores desafiaram a repressão. Em um dos casos, a população decidiu bloquear a Estrada que liga Tartous e Latakia. O grupo Syrian Revolution, que pela internet organizou parte dos protestos, garantiu que as manifestações vão continuar. " Vamos sair às ruas hoje, amanhã e depois de amanhã", alertou o grupo em sua página no Facebook.

Na cidade de Barzeh, mais de mil pessoas enfrentaram a repressão e saíram às ruas para o funeral de duas crianças, mortas um dia antes. Já em Izraa, a população desafiou as forças de ordem e saiu à rua gritando "Que Deus destrua Assad".

A saída de autoridades também continuou. Além de dois deputados que pediram sua renúncia e de um líder religioso, ontem foi a vez do Imã de Omari, Ahmad al Sayasneh, anunciar que passaria para o lado dos manifestantes. "Chegamos a um ponto onde não há volta. Mataram nossos filhos. Não há mais lugar para debates", disse, em entrevista a rede Al-Jazira. Ontem, dois deputados provinciais pediram suas renúncias. Um deles, Bashir al Zoebi, de Deraa, chamou os mortos de "mártires". Comerciantes também cortaram relações com o governo.

O governo informou que os prisioneiros serão levados à corte hoje e julgados por manifestar-se sem permissão. Pelas leis adotadas depois do fim de regime de emergência, cada manifestação deve ser aprovada antes de ser realizada. Em Damasco e outras cidades, cristãos optaram por não celebrar o domingo de Páscoa nas igrejas, temendo ser alvo da repressão.

PONTOS-CHAVE

Estado de exceção
Na quinta-feira, o presidente Bashar Assad revogou o estado de emergência na Síria, em vigor há quase 50 anos. A medida foi criada por seu pai, Hafez Assad, em 1963

Concessão insuficiente
Apesar da revogação da lei, o tamanho dos protestos registrados nas cidades mostra que as concessões feitas por Assad foram consideradas insuficientes e meramente simbólicas

Massacre de opositores
Forças de segurança disparam indiscriminadamente contra multidão de manifestantes que pediam a renúncia de Assad em várias cidades do país. Mais de cem pessoas morreram

Violência em funeral
Militares atiram contra os presentes em funerais de manifestantes mortos no dia anterior, matando outras 12 pessoas. O governo não fez comentários