26 de Julho, 2012 - 09:50 ( Brasília )

Geopolítica

Um novo Iraque sem a ajuda dos EUA


Thomas L. Friedman

Deus sabe que estou torcendo para que as forças de oposição na Síria rapidamente triunfem e revelem ter a inclinação democrática que esperamos. Mas as chances são pequenas. Isso porque a Síria é muito parecida com o Iraque. De fato, a Síria é gêmea do Iraque - multissectária, com uma ditadura controlada por uma minoria, que se manteve com a mão de ferro sob a ideologia baathista. E a lição do Iraque é bem simples: você não pode ir de Saddam à Suíça sem ficar preso em Hobbes - uma guerra de todos contra todos - a menos que tenha um interventor externo bem armado, a quem todos temem e em quem confiam para administrar a transição.

No Iraque, esse papel coube aos EUA. O tipo de trabalho dos EUA e da Otan com o controle de baixo custo que derrubou Kadafi e deu à luz uma nova Líbia não deve se repetir na Síria. A Síria é o Iraque. E o Iraque foi uma experiência tão amarga para os EUA que preferimos nunca falar sobre ela. A única razão pela qual o país tem alguma chance de um desenlace decente hoje é porque os EUA estavam em campo com milhares de soldados para administrar a transição para uma política mais consensual .

Mas como eu certamente não defenderia uma intervenção americana em território sírio - e os americanos não apoiariam - espero que minha análise esteja errada e que os sírios nos surpreendam ao descobrir seu próprio caminho para um futuro político melhor .

No Oriente Médio, a alternativa ao ruim nem sempre é o bom. Pode ser o pior. Estou impressionado com a bravura dos rebeldes sírios que começaram o levante, pacificamente, contra um regime que atua sem qualquer regra. O regime de Assad deliberadamente matou manifestantes para tornar o conflito uma luta sectária entre a minoria alauita que governa o país, liderada pela clã de Assad, e a maioria sunita. É por isso que a oposição à ditadura pode significar o rompimento do país - enquanto os alauitas recuam para seu reduto na costa - e uma guerra civil permanente .

Duas coisas podem nos desviar desse resultado. Uma é a alternativa do Iraque, onde os EUA foram e decapitaram o regime de Saddam, ocuparam o país e forçaram a mudança da ditadura de uma minoria liderada por sunitas para uma democracia liderada pela maioria de xiitas.

O custo dessa transição em vidas e em dinheiro foi gigantesco, e mesmo hoje o Iraque não é uma democracia estável ou saudável. Mas tem uma chance .

Já que é bastante improvável que um interventor confiável ouse entrar na briga da Síria, os rebeldes em campo terão que fazer isso por conta própria. Não será fácil - a menos que haja uma surpresa. Uma surpresa seria ter os diferentes grupos de oposição sírios em um fronte político unido - talvez com a ajuda dos EUA, da Turquia e dos oficiais de inteligência saudita em campo - e esse fronte alcançasse os alauitas moderados e os cristãos que apoiaram Assad por medo, concordando em construir uma nova ordem que proteja os direitos de maiorias e minorias. Seria maravilhoso ver o eixo Assad-Rússia-Irã- Hezbollah substituído por uma Síria democrática, e não caótica.

Mas parece duvidoso. Os 20% de sírios alauitas ou cristãos que são pró-Assad ficarão apavorados com a nova maioria sunita, com seu componente da Irmandade Muçulmana, e a maioria sunita já sofreu tal brutalidade que a reconciliação será difícil. Sem um interventor externo ou um Mandela sírio, os fogos do conflito podem queimar por um longo tempo. Espero ser surpreendido .

THOMAS L. FRIEDMAN é colunista do "New York Times