22 de Abril, 2011 - 10:15 ( Brasília )

Geopolítica

Líbia - EUA entram com aviões não tripulados

Rebeldes ganham fôlego e conquistam posto na fronteira com Tunísia, e Kadafi arma civis

Numa expansão significativa de seu papel no conflito líbio desde que entregou o comando à Otan, os Estados Unidos começaram ontem a usar aviões não tripulados Predator contra as forças leais a Muamar Kadafi. Contando com alta precisão, as aeronaves já são empregadas em ataques na fronteira entre Afeganistão e Paquistão, e são ideais para combater as forças do ditador líbio - que vêm se escondendo e atacando aéreas populosas. O uso dos aviões deve favorecer os rebeldes que, numa rara conquista dentro do território controlado por Kadafi, tomaram ontem o controle de um posto na fronteira com a Tunísia, a oeste. O fato promete dar novo fôlego ao movimento insurgente.

A decisão, anunciada pelo secretário de Defesa, Robert Gates, e aprovada por Barack Obama, poderia ser uma resposta à França e ao Reino Unido, que vêm pedindo aviões mais precisos para atacar áreas urbanas, e aos rebeldes, que querem um maior envolvimento da Otan no conflito.

- Os aviões têm a capacidade de voar mais baixo, e obter melhor visibilidade dos nossos alvos - disse Gates. - Eles são perfeitos para áreas urbanas, onde dá para obter apenas pequenos danos colaterais.

Além do aumento da participação americana, a conquista do posto de Wazin vai ajudar os rebeldes, abrindo mais uma rota de entrada de assistência e suprimentos aos insurgentes, que já controlam boa parte do leste do país, inclusive a fronteira com o Egito.

O posto fronteiriço de Wazin fica na estrada que liga Nalut, no oeste, à cidade tunisiana de Dehiba. As montanhas de Nalut vêm assistindo a confrontos entre rebeldes e forças do regime há semanas, levando à fuga de 6 mil líbios pela fronteira com a Tunísia apenas nos últimos dois dias.

Segundo o médico Mongi Slim, do Crescente Vermelho, membros da organização temem que as mudanças no controle da fronteira provoquem uma nova onda de refugiados em direção à Tunísia. Nos primeiros dias de conflito, milhares de pessoas deixaram a Líbia, provocando uma crise humanitária na fronteira com o país vizinho.

"Será pior do que o Iraque", diz Trípoli
Reino Unido, França e Itália também intensificaram esta semana a participação no conflito, anunciando o envio de militares para assessorar insurgentes - medida duramente criticada ontem por Moussa Ibrahim, porta-voz do governo líbio. Ibrahim disse que Trípoli está armando toda a população líbia para combater as forças da Otan.

- Se a Otan vier a Misurata ou a outra cidade líbia, provocaremos o inferno - disse Ibrahim. - Faremos coisas dez vezes piores do que aconteceu no Iraque.

Nos últimos dias, a coalizão vem enfrentando críticas dos rebeldes por não agir na cidade sitiada de Misurata - onde dois fotojornalistas morreram na quarta-feira. A secretária de Estado, Hillary Clinton, acusou as tropas do regime de estarem realizando "ataques sujos contra a população civil" da cidade e relatou a existência de um documento comprovando o uso pelas forças do governo de bombas de fragmentação, proibidas por tratados internacionais desde 2008. Ela ainda exigiu que o regime de Kadafi libere todos os americanos detidos na Líbia, inclusive dois jornalistas.

Na cidade, milhares de civis se amontoam na região do porto, à espera de um navio rumo a Benghazi. Ontem, uma embarcação a serviço da Organização Internacional para Migrações resgatou 239 civis líbios e 586 imigrantes africanos e asiáticos. Na embarcação, foram levados também os corpos dos dois fotojornalistas mortos - o americano Chris Hondros e o britânico Tim Hetherington - além do corpo de um médico ucraniano.

O porta-voz Moussa Ibrahim, disse estar muito triste pelas mortes, na véspera, dos fotojornalistas, mas negou que o regime seja responsável pelo incidente.

- Pedimos a todos os jornalistas que não confiem nesses rebeldes e não fiquem perto deles. Se quiserem reportagens, podem pedir um visto para entrar legalmente no país.