01 de Julho, 2012 - 19:36 ( Brasília )

Geopolítica

Tendências - O Mundo Futuro

Série de dois artigos sobre tendências do futuro.

Série de Dois Artigos:
Tendências - O Mundo Futuro
Tendências - O Brasil e o Mundo


Tendências - O Mundo Futuro
 

Merval Pereira


O empresário Roberto Teixeira da Costa escreveu para o próximo número da revista "Política Externa" um artigo em que relata recente debate ocorrido no Instituto Fernando Henrique Cardoso intitulado Global Trends 2030 (Tendências Globais 2030), liderado por representantes do Espas - European Strategic and Policy Analysis; da ISS - European Union Institute for Securities Studies; do The Office of the Director of National Intelligence dos Estados Unidos; e do Atlantic Council, com a participação da FGV do Rio de Janeiro, representada pelo economista Marcelo Neri.

Na ocasião foi distribuído um livro cujo título, "Citizens in a interconnected and polycentric world" ("Cidadãos num mundo interconectado e policêntrico"), define bem a visão de futuro do grupo: um mundo cada vez mais interconectado, com vários centros de decisão. A seguir, algumas conclusões e observações dos participantes anotadas pelo empresário. O empoderamento dos indivíduos contribuirá para que adquiram o crescente sentimento de pertencer a uma única comunidade humana.

O mundo policêntrico será caracterizado pela mudança de poder dos Estados e por crescentes deficiências dos governos, sem responder de maneira adequada às demandas públicas globais. A convergência de preocupações e a crescente vocalização de demandas serão enorme fator de contrastes com a capacidade dos governos de atender a elas, particularmente aquelas referentes à melhoria da qualidade da vida. Esse gap será uma fonte permanente de tensão e conflitos sociais, podendo ser agravado pela ineficácia dos governantes.

De acordo com as Nações Unidas, em 2030 a população mundial atingirá 8,3 bilhões de pessoas. Grande parte desses indivíduos ganhará mais poder pelos progressos sociais e tecnológicos. Nas últimas décadas o grande motor desse empoderamento foi a emergência de uma classe média, particularmente na Ásia, com acesso à educação aproximando-se de padrões mundiais pelos efeitos da informação e da comunicação tecnológica, e também com a evolução do "status" das mulheres na maioria dos países. Em 1990, cerca de 73% da população mundial sabiam ler e escrever.

Em 2010 atingiu 84% e estima-se que, em 2030, chegue a 90%. A classe média aumentará sua influência, passando de 3,2 bilhões, em 2020, para 4,9 bilhões em 2030. Estima-se que esses cidadãos serão mais influentes que os antecessores de gerações passadas. De qualquer forma, apesar dessas progressões, quando um número crescente de pessoas for beneficiado pela "era da informação", diminuindo o chamado "digital divide" (a projeção é que, em 2030, metade da população terá acesso à internet), muitos indivíduos, quer por falta de eletricidade, analfabetismo ou ausência de acesso a telefones celulares, continuarão marginalizados.

O aumento da classe média não resolverá persistentes pobreza e desigualdade. Uma classe média burguesa emergirá na América Latina e na Ásia. De qualquer forma, segundo relatório recente do Banco Mundial (2011), entre 2005 e 2008 - desde a África subsaariana até a América Latina, e desde a Ásia até a Europa Oriental -, a proporção de pessoas que vivem na pobreza extrema (em renda inferior a US$ 1,25 por dia) vem diminuindo. O fortalecimento dos indivíduos também terá consequência, particularmente na sociedade civil, tendo grande impacto em como as políticas públicas serão conduzidas.

Usuários da internet poderão ser motivados a um maior engajamento em assuntos de natureza política. O temor é o de que todas as demandas sociais, justas ou não, façam enorme pressão sobre as instituições e partidos democráticos, podendo abrir espaço para um populismo radical, cuja saída poderá caminhar para a tentação do autoritarismo.

Apesar do progresso, sistemas educacionais fracos e o prevalecimento de doenças (epidêmicas ou não) continuarão sendo pesada carga para o desenvolvimento humano. A corrupção será um fator de restrição ao desenvolvimento sustentável, funcionando como um dos principais obstáculos à inclusão social e à operacionalidade da economia de mercado.

As mudanças climáticas trarão sérias consequências e afetarão os padrões de vida e de segurança pública pela exacerbação da falta de água e de alimentos. A degradação ambiental provocará desastres humanitários, inclusive com a desertificação e enchentes de grande escala em algumas regiões. Maior estresse no desenvolvimento sustentável, tendo como pano de fundo maior escassez de recursos e persistente pobreza, potencializada por mudanças climáticas.

A água será um fator desestabilizador entre países fronteiriços, como, por exemplo, China e Índia. Tensões pela disputa entre países por matérias-primas poderão vir a acontecer. A competição por recursos vai exacerbar tensões e provocará conflitos. Crise de energia sensibilizará e demonstrará que estaremos penetrando em uma "era de escassez".

O modelo de economia de mercado prevalecente no desenvolvimento continuará sendo questionado. Os governos financiarão mais projetos de pesquisa para energias limpas e renováveis, que poderão ser insuficientes ou que os obrigarão, desde já, a tomar sérias iniciativas para melhorar e buscar maior eficiência energética.

Na questão de segurança humana e proteção dos cidadãos, muito embora seja um tema sempre presente, não se imaginam guerras entre os superpoderes, como também, está descartada uma maior conflagração envolvendo armamentos químicos, biológicos ou nucleares nas próximas duas décadas.

Conflitos motivados por nacionalismo e políticas de identidade extremista poderão acontecer, assim como (associados ou não) massacres genocidas. Serão a preocupação principal da governança mundial. Organizações criminosas e movimentos populistas nacionalistas poderão tornar os Estados mais vulneráveis, como, aliás, tem acontecido em alguns países na América Latina.

O terrorismo continuará sendo grande preocupação, assim como os conflitos urbanos de baixa intensidade, que não deixarão de ser considerados nas políticas de segurança interna. ( Amanhã, o Brasil e o mundo)