31 de Maio, 2012 - 10:25 ( Brasília )

Geopolítica

Tambores de Guerra - Turquia expulsa Missão Síria, Irã faz ameaça e pacto de paz está 'por um fio'

Massacre de mais de uma centena do fim de semana lança regime de Assad no descrédito e reação eleva a tensão em toda a região; rebeldes do Exército Sírio Livre advertem que agirão para proteger civis, se Damasco não cessar ataques até amanhã

JAMIL CHADE

No mesmo momento em que fontes próximas ao mediador da ONU e da Liga Árabe, Kofi Annan, admitiam que o plano de paz para a Síria estava "por um fio", e depois de as potências ocidentais e o Japão anunciarem a expulsão de diplomatas de Damasco, a Turquia ordenou ontem a saída de todo o pessoal da missão da Síria de seu território e ameaçou adotar "novas medidas" se a repressão de Bashar Assad aos opositores não cessar.

"Nunca a situação na Síria foi tão delicada como agora", disse um dos assessores mais próximos de Annan ao Estado. O ex-secretário-geral da ONU nunca conseguiu implementar plenamente seu plano de paz, que abriria as portas para o diálogo entre governo e oposição na Síria, após o cessar-fogo de ambos os lados.

Horas depois da decisão turca de expulsar a missão síria, o Irã declarou que qualquer ataque contra a Síria "engoliria" Israel no conflito. A oposição a Assad, do outro lado, também reforçou as ameaças: se o ditador não implementar o cessar-fogo previsto pelo plano de paz até amanhã, vão se considerar "livres" para voltar aos combates, no que seria a deflagração de uma guerra civil.

China e Rússia criticaram a decisão dos mais de dez países que expulsaram diplomatas sírios e advertiram que bloquearão qualquer tipo de iniciativa para uma ação armada contra a Síria, como chegou a propor na terça-feira o presidente francês, François Hollande.

Há dois dias, vários governos - liderados por França, Grã-Bretanha e EUA - tomaram a decisão de expulsar diplomatas sírios, como resposta ao massacre cometido em Hula. A tragédia deixou 108 mortos, incluindo 49 crianças, e a ONU concluiu que se tratou de uma execução por parte de milícias pró-Assad. O cônsul honorário da Síria na Califórnia, Hazem Chehabi, renunciou ao cargo em protesto pela matança.

Em nota, o governo turco qualificou o massacre de Hula de "crime contra a humanidade". Ancara, que era aliada de Damasco até o início da crise, também indicou que, se as mortes continuarem, não terá outra opção senão agir, sem detalhar quais seriam essas ações. Há poucos meses, a Turquia chegou a falar na criação de zonas-tampão, em território sírio, para abrigar refugiados, e armar a oposição.

A Turquia, ao lado de americanos, ainda liderou a convocação de uma reunião de emergência amanhã, em Genebra, para debater no Conselho de Direitos Humanos da ONU o massacre de Hula. Eles esperam que uma resolução seja aprovada, pedindo que os autores sejam levados a tribunais internacionais.

Horas depois das declarações da Turquia, foi a vez de o Irã responder. O presidente do Parlamento, Ali Larijani, deixou claro que qualquer ação armada contra a Síria teria uma resposta direta em Israel. "A Síria não é a Líbia", disse. "Os efeitos de criar uma nova Benghazi na Síria se espalhariam para a área palestina e as cinzas que sairiam das chamas certamente engoliriam o regime sionista", declarou, em relação à Israel. "Parece que os EUA e o Ocidente estão pavimentando o caminho para uma nova crise", disse.

Em entrevista a uma TV francesa, o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, declarou que espera que os autores do massacre de Hula sejam "punidos". Mas acusou o Ocidente de intervir na Síria. "Não podemos confiar nessas pessoas. Seu objetivo é fazer Assad cair", disse.

Ontem, a ONU revelou ter descoberto outros 13 corpos, no que parece ser mais uma execução. Segundo o general Robert Mood, que lidera a missão da ONU na Síria, as vítimas tinham as mãos atadas e foram baleadas na cabeça.

Limite.
Diante das mortes, os líderes do Exército Sírio Livre anunciaram ontem que dão apenas mais um prazo para que Assad cumpra o plano Annan. Se até sexta-feira da manhã em Damasco, o cessar-fogo não for implementado pelo regime, o grupo abandonará todo o compromisso com a ONU.

"Estaremos livres de qualquer compromisso e defenderemos e protegeremos os civis, seus vilarejos e suas cidades", declarou o coronel rebelde Qassim Saadeddine. A ONU afirma que tanto o governo quanto a oposição violaram o cessar-fogo.

Moscou reiterou que não muda sua posição e não hesitará em vetar não só uma ação armada, como também novas sanções. "Considerar qualquer nova medida seria prematuro", disse o vice-chanceler, Gennadi Gatilov. O presidente russo, Vladimir Putin, visitará Alemanha e França amanhã e será pressionado a tomar nova posição. Ontem, os EUA insistiram que aliados de Assad estarão no "lado errado da história" se continuarem a apoiar o regime.