29 de Maio, 2012 - 11:00 ( Brasília )

Geopolítica

Dominó Árabe: Conflito na Síria toma proporções de guerra

Quando se trata das forças do governo sírio, existe uma relação muito complexa e pouco clara entre os militares, as milícias, as agências de inteligência e os vários centros de poder que os controlam.

Esta é uma das razões pelas quais é tão difícil determinar responsabilidades por massacres como o que ocorreu na última sexta-feira, em Houla, e porque o presidente da Síria, Bashar al-Assad, tem sido capaz de manter uma aparência de respeitabilidade enquanto nega qualquer culpa pelas atrocidades recentes.

Veja quem é quem no conflito sírio:

Militares

A Síria tem um Exército poderoso, equipado com armamentos fornecidos principalmente pela Rússia e o Irã.

Quando uma área civil – como Baba Amr, em Homs – é atacada, é mais provável que seja pelo Exército sírio, agindo sob as ordens de uma cadeia de comando militar.

Drones, ou aviões comandados por controle remoto, fornecidos pelo Irã desde o início da revolta contra o governo de Assad, há 15 meses, têm sido amplamente utilizados para guiar unidades de artilharia sobre que alvos atacar.

Também há relatos de que a Rússia tem enviado grandes carregamentos de armas à Síria – um antigo aliado –, incluindo milhares de rifles usados por franco-atiradores membros das forças do governo, posicionados no alto de prédios, para atingir ativistas nas ruas.

Assim como a maioria dos países, a Síria tem um Exército, uma Marinha e uma Aeronáutica. Dois terços dos cerca de 200 mil integrantes do Exército convencional são da minoria alauíta, como o presidente Assad.

Desde o início dos protestos contra o regime de Assad, tanques e armamentos pesados se tornaram uma visão constante em áreas de manifestações.

A retirada desses armamentos pesados das ruas é um dos pontos do plano de paz proposto pelo enviado especial da ONU e da Liga Árabe à Síria, Kofi Annan.

Mas como isso ainda não aconteceu, os rebeldes estão tentando adquirir o mesmo tipo de armamentos anti-tanque que causaram danos em tanques israelenses durante a invasão do Líbano, em 2006.

Com a ajuda da Rússia, a Síria tem uma ampla rede de defesa aérea, que poderia tornar difícil a manutenção de uma zona de exclusão aérea, caso uma fosse implementada no futuro.

Agências de inteligência

A Síria tem uma rede de 17 agências de inteligência que se dividem em quatro categorias amplas, todas com o objetivo principal de manter o regime no poder.

A inteligência militar, conhecida como al-Mukhabarat, está sob o controle do presidente e se concentra em monitorar dissidentes.

A inteligência da Aeronáutica é um dos ramos da segurança do Estado mais profundamente estabelecidos e com maior penetração. Foi responsável pela tentativa mal-sucedida de colocar uma bomba a bordo de uma aeronave israelense que partia do aeroporto britânico de Heathrow em 1986.

O Diretório Geral de Segurança é ligado ao Ministério do Interior, enquanto o Diretório de Segurança Política é talvez o mais enérgico de todos na perseguição de opositores do regime dentro do país.

Calcula-se que pelo menos 150 mil pessoas trabalhem na inteligência síria, e os informantes estão por toda parte, relatando – por uma módica recompensa – comentários considerados críticos ao presidente ou a seu regime.

Tais comentários, se inventados, podem levar a meses de tortura em centros de detenção, às vezes acabando em morte.

Os centros de detenção estão espalhados pelo país, e alguns dos abusos cometidos neles são bem documentados por organizações de defesa dos direitos humanos

As milícias

Conhecidas como shabiha, que significa "os fantasmas", elas são sem dúvida responsáveis por algumas das maiores atrocidades já cometidas.

São basicamente criminosos de rua, geralmente com ficha policial, e alguns com conexões com máfias de contrabando.

Sem status oficial ou uniformes – além de sua preferência por jaquetas de couro pretas – eles são matadores de aluguel, que abundam em determinadas regiões para onde são enviados, especialmente às sextas-feiras, que se tornaram o dia tradicional de protestos no mundo árabe.

A shabiha opera em um nível bem local, o que torna difícil rastrear seus crimes até encontrar alguma conexão com altos funcionários do governo em Damasco.

Muitos, mas não todos, são alauítas, como o presidente. Mas sua lealdade parece ser oferecida a quem quer que pague, e não a etnias ou religiões específicas.

No caso do massacre de Houla, é bem possível que, após os bombardeios, tenham sido enviados por alguém em nível local, para "terminar o serviço", cortando as gargantas de sobreviventes ou atirando à queima-roupa.

Fontes locais dizem que eles também podem ter sido cotratados para levar adiante atos de vingança contra sunitas da aldeia, depois que os rebeldes do Exército Sírio Livre atacaram aldeias alauítas na vizinhança.

A shabiha não aparece em nenhuma estrutura de comando oficial, mas analistas afirmam que eles são "uma ferramenta útil para o governo" para levar a cabo atos de repressão.

O governo sírio continua a negar que seja responsável por repressão ou tortura.