05 de Março, 2012 - 15:28 ( Brasília )

Geopolítica

Retaliação Americana

Preferência do governo brasileiros pelos jatos franceses Rafale na renovação da frota da FAB provoca represália do governo Obama, que cancela compra de aviões da Embraer

Adriana Nicácio

O cancelamento da compra de 20 aviões Super Tucano da Embraer pelo governo americano pode trazer um grande prejuízo para a empresa de São José dos Campos. Essa seria a porta de entrada para projetos bem maiores nos Estados Unidos e deixa uma expectativa negativa quanto a futuros negócios. A Embraer não perdeu apenas a venda de US$ 355 milhões. Ela ficará de fora dos programas de treinamento e de reaparelhamento da US Air Force, que poderiam render US$ 1 bilhão.

Há um ano, quando o presidente da Embraer, Frederico Curado, inaugurou a fábrica na cidade de Melbourne, na Flórida, dizia-se que se ganhasse a concorrência poderia vender até 200 aviões leves de combate ao Departamento de Defesa americano, mas a estratégia agora está gravemente ameaçada. Sob o argumento de “documentação insuficiente”, os americanos voltaram atrás. Na verdade, o que está em jogo é a insatisfação de Washington com a preferência do governo brasileiro pelos jatos Rafale, da francesa Dassault, na renovação da frota da FAB. Por mais que se tente justificar a decisão, não há argumentos técnicos que a sustentem. Trata-se da mais pura e crua retaliação.

Não há muito a ser feito. A decisão é política. Tanto que o disciplinado comandante da Força Aérea dos Estados Unidos, general Norton Schwartz, decidiu se expor. “Uma das coisas com as quais estou mais triste, sem mencionar a vergonha que esse fato traz para nós como Força Aérea, é que estamos deixando nossos parceiros na mão aqui”, afirmou. Acontece que o cancelamento é oportuno demais para a Casa Branca. Ele acerta dois alvos com uma cajadada só.

Além de mandar o recado para o Palácio do Planalto inclinado pelos Rafale no lugar dos F-18 da Boeing, rebate os ataques republicanos de que o presidente democrata, Barack Obama, estaria favorecendo um grupo estrangeiro, em detrimento da indústria nacional. A decisão pegou Brasília de surpresa às vésperas do encontro da presidenta Dilma Rousseff com Obama, em 9 de abril. No Planalto, não há dúvidas de que a preferência pelos jatos franceses teve forte influência no anúncio. “Dificilmente a Boeing conseguirá melhorar sua oferta”, diz um assessor graduado na área de defesa. Além da transferência de tecnologia, o negócio com a Dassault inclui a venda do KC-390 da Embraer para os franceses. “Cada avião desses custa US$ 100 milhões”, diz outra fonte. “Num pacote com dez, a Embraer ganha US$ 1 bilhão.”

Contra a Embraer pesa também a proximidade das eleições americanas. Desde o primeiro momento, o Partido Republicano reagiu contra a vitória da empresa brasileira. Em novembro de 2011, quando o avião AT-6, da empresa Hawker Beechcraft Corp., foi excluído da competição, o lobby no Congresso começou a agir, criticando a escolha dos aviões Super Tucano, de um fabricante estrangeiro, num momento de crise e alto desemprego. A Beechcraft recorreu à Corte Federal, mas seus instrumentos políticos foram mais eficientes.

A empresa avisou que, se a decisão não fosse revista, fecharia sua fábrica no Kansas e 1,4 mil empregos seriam perdidos. A ameaça levou pânico ao Kansas, que também corre o risco de perder sua fábrica da Boeing. Segundo João Augusto de Castro Neves, analista para a América Latina da consultoria Eurasia Group, o discurso protecionista voltou à tona e é um importante puxador de votos. “Não importa que a tecnologia do Super Tucano seja americana. A população enxerga com mais facilidade que o governo contratou um estrangeiro”, diz Castro Neves.

Na semana passada, as ações da empresa brasileira na bolsa não sofreram grande impacto. O analista-chefe da SLW Corretora, Pedro Galdi, diz que o mercado já esperava o revés, graças ao enorme lobby da Beechcraft. Com o cenário ainda incerto – a Embraer pode recorrer da decisão –, o jogo está longe de acabar. Fonte do governo diz que o Brasil poderá denunciar os Estados Unidos por má-fé no contrato se confirmar que um dos argumentos dos americanos é que ficou mal explicada a estrutura societária da Embraer. Os americanos disseram que não está claro se a empresa é estatal ou privada, porque o governo brasileiro detém uma golden share, que lhe dá poder de veto nas assembleias de acionistas. É uma exigência frágil, que não esconde o verdadeiro motivo da represália.