14 de Fevereiro, 2012 - 10:35 ( Brasília )

Geopolítica

Dominó Árabe - Para repórter da BBC, conflito na Síria pode virar guerra civil


O repórter da BBC Paul Wood passou dias sob fogo cruzado no bairro de Baba Amr, na cidade síria de Homs. Nesta reportagem, ele relata casos de cidadãos submetidos a uma violenta campanha de artilharia por tropas do governo e alerta para os riscos de que a situação em Homs se alastre por toda a Síria, transformando-se em uma guerra civil.

No hospital improvisado em Baba Amr, a maioria dos pacientes não quis ser filmada. Eles temiam ser presos caso mostrassem seus rostos. Abdel Nasr Zayed, no entanto, disse que tinha pouco a perder. "Já perdi 11 (parentes) e agora estou disposto a sacrificar tudo por Deus", ele disse.

Entre os 11 membros de sua família mortos por tiros ou morteiros, cinco eram crianças com menos de 14 anos. Um caso típico. Muitas pessoas relatam ter perdido não apenas um, mas muitos parentes.

A tarefa de Abu Suleiman no hospital é embalar corpos antes de serem enterrados. Ele prestou esse serviço ao filho, genro, sobrinho, vizinho e muitos de seus amigos. Abu Sulyan, que hospedou a equipe da BBC em uma visita anterior a Baba Amr, perdeu um irmão, um sobrinho, um tio e, mais recentemente, sua mãe.

"Isso é uma guerra civil?", indagou o escritório da BBC em Londres. Em Baba Amr, tinha-se a impressão de que sim. Mas o que estávamos observando era, na verdade, uma batalha por uma cidade - e Homs não é a Síria. Pelo menos, não por enquanto.

Sequestros Sectários
Em Homs, as áreas de maioria sunita, como Baba Amr, apoiam o levante. Elas estavam sendo atacadas pelo Exército Sírio, posicionado em áreas alauítas (ramificação da etnia xiita) e cristãs que, de maneira geral, apoiam o governo.

Ainda não se trata de um conflito sectário: existem sunitas nas forças do governo e tanto cristãos como alauítas aderiram às forças revolucionárias. Mas as pressões naquela direção são imensas.

Yousseff Hannah foi prisioneiro do Exército Livre da Síria (FSA, na sigla em inglês), integrado por rebeldes que desertaram das tropas do governo. Ele estava em um colchão, a coxa coberta com curativos, no porão de uma casa perto da cidade de Qusayr, a cerca de 40km de Homs.

"Lei e ordem", ele respondeu, gemendo por causa dos ferimentos, quando lhe perguntei qual era sua profissão. Enraivecido, um dos sequestradores interrompeu: "Não. Você é (integrante da polícia secreta) Mukhabarat. Diga a eles que você é Mukhabarat".

O FSA havia capturado Hannah em sua casa, alguns dias antes. Ele tinha ido para lá para se recuperar do ferimento recebido em Homs. Com 45 anos, apenas um soldado, ele não era exatamente um "peixe grande". Os rebeldes disseram tê-lo capturado porque sua família controlava um posto de controle em Qusayr e molestava as pessoas.

Queriam acabar com aquilo. Por tempo demais, disseram os rebeldes, pessoas como ele, sob a proteção do governo, sentiam que eram intocáveis, que podiam agir na impunidade.

O soldado Yousseff é cristão. Após ter sido preso, seus parentes sequestraram seis sunitas, matando um no processo. Em represália, 20 cristãos foram sequestrados. "Alguns esquentados vêm sequestrando cristãos", disse um comandante local do FSA. "Temos de acalmá-los".

Após vários dias de impasse, todos foram libertados ilesos, incluindo Yousseff. Isso foi parte de um acordo segundo o qual o soldado e sua família terão de deixar Qusayr permanentemente.

Ataque Fracassado
Falando sobre as tensões dos últimos dias na região, um dos residentes cristãos de Qusayr disse que ainda havia cristãos favoráveis ao levante na cidade.

Cerca de uma dúzia deles participou de um grande protesto ocorrido na sexta-feira na cidade. Em solidariedade a eles, os manifestantes abandonaram o local quando algumas pessoas agarraram o microfone e começaram a gritar slogans islâmicos.

Naquela semana, havia uma sensação de que a cidade tinha chegado muito perto de uma carnificina sectária. Seria esse o futuro da Síria? Depende do caráter do FSA. Todos os combatentes que encontramos eram sunitas, mas talvez isso não tenha importância.

Próximo a Qusayr, o comandante do FSA Maj Ahmad Yaya me disse que eles estavam lutando por todas as religiões e seitas da Síria: cristãos, muçulmanos, alauítas, xiitas, drusos. "Estamos vivendo em liberdade pela primeira vez", disse.

As palavras seguintes, no entanto, deixaram pouca dúvida de que, para muitos, esse é um conflito religioso - e islâmico - contra o governo secular Baath. "Pela primeira vez", ele acrescentou, "somos capazes de proclamar a palavra de Deus por toda a terra".

A doutrina oficial do FSA é de que sua missão é apenas proteger os manifestantes desarmados. Na prática, no entanto, ele está realizando uma guerra civil de proporções cada vez maiores. Seguimos o grupo de combatentes liderados por Maj Yaya durante um ataque a uma base do Exército sírio perto da cidade.

Foi um ataque grande, com a participação de mais de 60 homens. Em contraste com combatentes rebeldes na Líbia, esses eram treinados, disciplinados e seguiam um plano. Um homem disse que seu irmão ainda estava servindo na área. "E se ele ainda estava na base? E se ele estiver ferido?", perguntei.

"Sinto muita amargura em relação a meu irmão, mas agora o que acontecer estará nas mãos de Deus. Que Deus me ajude", respondeu. Inevitavelmente, o ataque fracassou. Depois de uma hora atirando contra a base, o grupo teve de sair em retirada quando as tropas do governo começaram a usar armas pesadas, disparando morteiros contra as montanhas.

Execuções de Shabihas
Mais tarde, um dos rebeldes do FSA me mostrou um vídeo que ele tinha filmado em dezembro. Seu grupo tinha emboscado um comboio de veículos blindados. Oito integrantes das forças de segurança síria tinham sido mortos, 11 capturados. O vídeo mostrava os prisioneiros, vestidos com uniformes de camuflagem, alinhados de frente para uma parede.

Alguns ainda sangravam em consequência da batalha. Seus braços estavam erguidos. Um virou-se para a câmera, parecia petrificado. O homem que havia feito o vídeo disse que, apesar dos uniformes, as identidades dos prisioneiros diziam que eram Shabiha (ou fantasmas) - a força paramilitar do governo, odiada por muitos na Síria. "Nós os matamos", disse o rebelde.

"Você matou seus prisioneiros?" "Sim, claro. Eles foram executados mais tarde. Esse é o procedimento para Shabihas". Esses eram Shabihas sunitas, o homem explicou. O único alauíta havia escapado. Eu confirmei com um oficial. Soldados eram libertados, ele disse, mas membros da força Shabiha eram "executados" depois de uma audiência com um painel de juízes militares do FSA.

Para explicar, eles me mostraram um filme encontrado no telefone celular de um Shabiha capturado. O vídeo mostrava prisioneiros deitados de barriga para baixo, com as mãos atadas nas costas. Um a um, suas cabeças foram cortadas.

Ao primeiro prisioneiro deitado, o homem que segurava a faca disse, de forma provocadora: "Isso é pela liberdade". Enquanto o pescoço da vítima se abria, o executor prosseguiu: "Isso é por nossos mártires. E isso é por você colaborar com Israel".

Dilema Ocidental
Segundo relatos de militantes pelos direitos humanos, após termos saído de Homs, membros das forças Shabiha teriam ido de cada em casa na cidade, matando três famílias - Homens, mulheres e crianças. Para a maioria dos combatentes do FSA, "executar" integrantes da Shabiha é apenas justo.

Fatos como esses farão com que governos ocidentais hesitem enquanto decidem se devem - e nesse caso, de que forma - ajudar o FSA. Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha dizem que não vão armar os rebeldes mas estão pensando em outras formas de auxiliá-los. Isso pode envolver dar aconselhamento e o envio de suprimentos, por exemplo, roupas de proteção.

Se esses governos ajudarem os rebeldes, estarão eles alimentando uma guerra civil, ou ainda pior, uma guerra civil sectária? E se eles não ajudarem os rebeldes, como dar um fim às mortes em Homs e outras cidades? Quanto mais se prolonga essa situação, mais corpos se acumulam e maior é o desejo de vingança em ambos os lados. Uma guerra civil não é inevitável, mas Homs hoje pode ser a Síria amanhã.