12 de Dezembro, 2011 - 09:18 ( Brasília )

Geopolítica

De olho no Brasil, máfias da cocaína disputam a Bolívia


Fabio Murakawa

De olho no crescente mercado para a cocaína no Brasil, e na facilidade para obter matéria-prima, redes internacionais de traficantes transformaram a Bolívia em território prioritário para expandir os seus negócios, segundo especialistas ouvidos pelo Valor.

Antes mero exportador da folha de coca para laboratórios na Colômbia e no Peru, a Bolívia se converteu nos últimos anos em um importante corredor da droga produzida nesses vizinhos e enviada a Brasil e Europa, via território brasileiro, além de refinar cada vez mais cocaína em seu território.

Esse fenômeno vem na esteira do aumento da demanda no Brasil, que se tornou na última década o segundo país consumidor de cocaína no mundo.

"O Brasil passou, nos últimos dez anos, de país de trânsito a um país de consumo [de cocaína]", afirma o diplomata brasileiro Murilo Vieira Komniski, que atua no setor de Direitos Humanos e Ilícitos Transnacionais da Embaixada do Brasil em La Paz. "É o que eu chamo de um efeito colateral de uma política social bem sucedida."

Komniski explica que as 30 milhões de pessoas que saíram da linha da pobreza e entraram na classe média na última década ajudaram a formar um novo mercado para a droga. "A chamada nova classe média passou a ter acesso à cocaína e a uma droga relativamente barata, que é o crack."

De acordo com diferentes fontes, entre 60% e 80% da cocaína boliviana tem como destino o mercado brasileiro, hoje estimado pela ONU em 900 mil usuários, atrás somente dos Estados Unidos e da União Europeia. Com o aumento do consumo no Brasil, máfias colombianas, mexicanas, peruanas e brasileiras começam a se estabelecer na Bolívia para exportar para cá o produto acabado. E isso já começa a ter reflexo em operações policiais nos dois países.

Em 19 de outubro, a Força Especial de Luta Contra o Narcotráfico (FELCN) da Bolívia estourou um dos maiores laboratórios de cocaína já encontrados no país. Instalado dentro do Território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis), na Amazônia boliviana, ele tinha capacidade para produzir 100 kg diários da droga e instalações para abrigar 25 pessoas. "Era uma casa gigantesca, com vários cômodos, de dimensões que eu jamais tinha visto", disse ao Valor um policial que participou da ação. A operação resultou na apreensão de 114 kg de cocaína, fuzis M-16 e AK-47 e na morte de um policial. Um traficante morreu e outro ficou ferido. Ambos eram colombianos. Os demais fugiram pela mata, mas presume-se que tenham a mesma nacionalidade.

Uma semana depois, a Polícia Federal desbaratou no Brasil uma quadrilha de traficantes formada por brasileiros, paraguaios, colombianos, bolivianos e europeus, que trazia cocaína da Bolívia para distribui-la por aqui e também encaminhá-la à Europa. Foram expedidos 54 mandados de prisão, 11 deles no exterior, via Interpol, sendo que três eram de grandes traficantes colombianos que viviam em mansões na cidade boliviana de Santa Cruz de La Sierra, conta Ivo Roberto Costa da Silva, o delegado que comandou a operação. "Trata-se de uma associação de traficantes de diferentes nacionalidades, cada qual com seu papel na produção, transporte e comercialização da droga. São como grandes multinacionais do tráfico", diz.

Além disso, informes da inteligência boliviana, aos quais o Valor teve acesso, dão conta da movimentação de traficantes colombianos, mexicanos e de organizações criminosas brasileiras na Bolívia. Um deles, elaborado em 2010, descreve a "guerra" entre o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho pelo controle do tráfico no Departamento (Estado) de Santa Cruz. O documento descreve como membros desses grupos se matavam uns aos outros em disputas por território, além de assassinatos de policiais bolivianos que tentavam extorqui-los.

"O PCC e o Comando Vermelho, hoje, são considerados grandes compradores [da cocaína], tanto quanto outros", afirma o Diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado da Polícia Federal, Oslaim Campos Santana. "Mas temos traficantes com estrutura melhor, como os pegos durante a Operação Semilla."

Outro documento, do mesmo ano, afirma que um filho não identificado de um dos maiores traficantes mexicanos, Joaquín "Chapo" Guzmán, frequentava uma escola de pilotos em Santa Cruz de La Sierra. A informação foi confirmada em entrevista à rede mexicana Univisión pelo traficante brasileiro Maximilano Dourado, preso na Bolívia e deportado ao Brasil em janeiro. Líder do temido Cartel de Sinaloa, Guzmán figura em 55º lugar na lista dos homens mais poderosos do mundo em 2011, elaborada pela revista Forbes. Sua fortuna é estimada em US$ 1 bilhão.

"Estamos em um período de acomodação entre os diferentes grupos na Bolívia. Às vezes violento, às vezes não tão violento, mas onde estão jogando todos os grupos", afirma Douglas Farah, pesquisador sênior do Centro Internacional de Avaliação e Estratégia, nos Estados Unidos.

Segundo ele, a queda dos grandes cartéis colombianos, a partir de meados da década de 1990, deixou um campo aberto para que os bolivianos começassem a fabricar a sua própria droga e para a penetração de máfias de outros países. "Esses "narquitos" bolivianos não têm redes internacionais para mover o produto, quando está terminado", diz ele. "Entram aí os grandes grupos brasileiros, porque é um mercado muito fácil de alcançar. E também os mexicanos, buscando alternativas para a sua linha de produção. Todos estão ali, tratando de armar as suas redes."

Com 3.500 km de fronteira seca com o Brasil, além da proximidade com os mercados também emergentes de Chile e Argentina, a Bolívia tem muito mais vias para escoar sua cocaína para cá do que o Peru e a Colômbia. Nos dois últimos casos, a Amazônia forma uma imensa barreira natural, que torna a rota mais complicada. Isso também tem ajudado a atrair máfias brasileiras, mexicanas e colombianas ao território boliviano. "No último ano e meio, o Brasil se converteu em uma das mais importantes rotas da droga peruana rumo à Europa", diz Jaime Antezana, especialista em narcotráfico no Peru.

No início deste mês, ao divulgar uma lista traficantes detidos na Bolívia em 2011, o vice-ministro de Defesa Social, Felipe Cáceres, se disse "preocupado com o crescimento de presos estrangeiros nos últimos dois anos". Peruanos, colombianos, brasileiros, espanhóis, argentinos e mexicanos lideram o ranking.

Além da extensa fronteira seca com o Brasil, outros fatores tornam a Bolívia atraente para as redes internacionais: a fartura da produção de folha de coca e o absoluto descontrole sobre a sua comercialização. Segundo a ONU, o país é o terceiro maior produtor mundial da folha, com uma área plantada de 31 mil hectares, atrás de Peru e Colômbia. Não há, no entanto, uma estimativa precisa sobre qual seria a área ideal para atender à demanda interna. Uma lei de 1998 reconhece apenas 12 mil hectares como legais para o uso tradicional. Mas o governo anunciou na semana passada que pretende atualizar essa lei.

O fato é que o país não tem um dado oficial recente sobre o quanto consome de folha de coca. Há mais de três anos, está em curso um estudo, em parceria com a União Europeia, sobre a demanda interna na Bolívia. Os resultados deveriam ter sido apresentados em seis meses. O atraso ocorre, segundo o Valor apurou, por conta de divergências entre europeus e bolivianos sobre seus resultados.

"Informalmente, nos indicam que o estudo já está pronto e que seriam necessários menos do que 20 mil hectares. Aparentemente, não chega a isso", diz uma fonte, sob a condição de anonimato.

Para César Guedes, representante do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) na Bolívia, essa "é a peça que falta no quebra-cabeças" para determinar o quanto da folha de coca boliviana é desviada ao narcotráfico.

A produção boliviana divide-se em duas grandes regiões. A primeira delas, a dos Yungas, fica no altiplano boliviano, próximo a La Paz. Há ali uma área estimada em cerca de 20,5 mil hectares, com uma produção de 28 mil toneladas, segundo Guedes. A segunda, fica na região conhecida como Chapare, perto de Cochabamba, onde apenas 10,1 mil hectares rendem 27,5 mil toneladas da folha.

"De qualquer maneira, isso é muito mais do que se pode mascar ou fazer chá", afirma Bo Mathiassen, representante da UNODC no Brasil. "A Bolívia ainda tem uma produção muito maior do que a demanda. O resto deve estar indo para o lado errado."

Segundo dados do próprio governo boliviano, 65% da folha produzida nos Yungas passa pelo mercado legal de Villa Fátima. Já no Chapare, apenas 4% da produção é negociada no mercado de Sacaba, responsável pela comercialização da produção local. O fato de que a folha do Chapare não é considerada própria para o uso tradicional - por ser mais ácida e de menor qualidade - só faz aumentar a suspeita de que boa parte da produção seja desviada para o tráfico.

Há diferentes interpretações sobre o papel do presidente Evo Morales em relação ao respeito às tradições locais quanto ao uso da folha da coca e ao combate ao narcotráfico. Para alguns, como Douglas Farah, o governo boliviano está envolvido até o pescoço com atividades ilegais, em grau muito maior do que ocorre na Colômbia e no Peru. "Há países onde o narcotráfico opera com impunidade nas esferas mais altas, como na Venezuela e na Bolívia", diz ele. "Há uma criminalização generalizada desses governos. Seu plano econômico é insustentável e todos se vinculam ao narcotráfico, às Farc [narcoguerrilha colombiana] e a outros grupos criminosos como forma de sobreviver economicamente."

Já César Guedes, da ONUDC em La Paz, vê uma atuação positiva. "A ONU reconhece que é um esforço muito grande para um país como a Bolívia, cujo PIB é de US$ 45 bilhões, dedicar US$ 30 milhões para o combate ao narcotráfico", afirma. "A Bolívia precisa de escolas, hospitais, estradas. É preciso ter uma responsabilidade compartilhada para alivar as pressões. Todos reclamam, mas os outros países precisam fazer mais."

Morales surgiu para a vida política como um líder sindical dos cocaleiros na região do Chapare, na década de 1980. Nos anos 1990, notabilizou-se pelos enfrentamentos com o governo de Hugo Banzer Suárez, que prometeu a erradicação total da folha de coca no país. Na Presidência boliviana desde 2006, ele acumula o cargo de presidente da Federação de Cocaleiros do Trópico de Cochabamba.

Durante seu governo, a área plantada com coca na Bolívia subiu de 25,4 mil hectares para 31 mil hectares no ano passado. Mas houve uma estabilização nos últimos dois anos, graças a programas de erradicação plantações consideradas ilegais. Somente neste ano, segundo dados oficiais, 10 mil hectares foram erradicados, mas a previsão é de que a área cultivada não caia. Para o diplomata Komniski, há o risco de que o governo esteja, de forma involuntária, fazendo um trabalho de renovação das plantas que seria feito pelo próprio produtor. "Na medida em que o Exército erradica as plantas, pode-se plantá-las novamente seis meses depois", diz ele. "Como não há um decréscimo substantivo na área plantada, ou estão sendo abertas novas áreas ou está havendo um replantio."

As rusgas do governo boliviano com os Estados Unidos também atrapalham o combate ao narcotráfico, segundo as fontes. A crise nesse campo piorou em 2008, quando Morales expulsou do país, junto com o embaixador Philip Goldberg, a agência antidrogas DEA. Na época, Morales acusou o órgão de ingerência política, espionagem e de realizar operações por conta própria em território boliviano. No mês passado, os dois países assinaram um convênio para normalizar as relações, mas a Bolívia descartou a volta da DEA.

"Do ponto de vista logístico e da capacidade de inteligência das forças de combate ao narcotráfico, a expulsão da DEA foi prejudicial", afirma Komniski.

As divergências com os americanos também estão atrasando a assinatura de um convênio entre os dois países e o Brasil para o mapeamento dos plantios da folha de coca na Bolívia. Pelo acordo, o Brasil forneceria imagens de satélite e atuará na capacitação da polícia boliviana para a leitura desses dados. Já os americanos forneceriam equipamentos de GPS e outros para fazer a medição dos cultivos excedentes. Mas, diante da resistência de setores do governo Morales, a formalização desse acordo vem sofrendo sucessivos adiamentos.