23 de Novembro, 2011 - 09:33 ( Brasília )

Geopolítica

Crise nos EUA, risco global


Más notícias para todo o mundo partem mais uma vez de Washington. A recuperação da maior economia do mundo, a americana, deverá ser mais lenta e acidentada do que seria se os políticos houvessem chegado a um acordo sobre um plano de ajuste para os próximos dez anos.

A preocupação com as eleições de 2012 prevaleceu, mais uma vez, e a oposição republicana decidiu ser mais importante criar problemas para o presidente Barack Obama do que apoiar a criação de empregos. Outra novidade ruim foi divulgada na manhã dessa terça-feira: o Produto Interno Bruto (PIB), a soma dos bens finais e serviços gerados pela economia num dado período, cresceu no terceiro trimestre em ritmo equivalente a 2% ao ano. Números divulgados anteriormente haviam indicado uma expansão de 2,5%. Na revisão, o aumento dos gastos dos consumidores passou de 2,4%, estimados inicialmente, para 2,3%.

O endividamento das famílias, ainda elevado, e o desemprego acima de 9% continuam desestimulando o consumo. O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) mantém os juros básicos entre zero e 0,25% e tem procurado estimular a concessão de crédito pelos bancos, mas sem resultado significativo. Nem os consumidores estão em busca de mais empréstimos nem as empresas estão animadas para investir, diante da perspectiva de baixo crescimento dos negócios.

Os americanos devem cortar US$ 2,2 trilhões de seu déficit público em dez anos, para manter algum controle sobre uma dívida de cerca de US$ 15 trilhões, aproximadamente igual ao valor de toda a produção de um ano. Um corte de US$ 1,2 trilhão deveria ser decidido até esta quarta-feira por um supercomitê bipartidário, mas o fracasso da negociação foi reconhecido oficialmente dois dias antes.

Para tornar o ajuste menos doloroso, o Executivo propôs a redução de benefícios fiscais concedidos a contribuintes muito ricos. Vários deles, a começar pelo multibilionário Warren Buffett, apoiaram publicamente a proposta de Obama. Buffett declarou pagar muito menos impostos, proporcionalmente, que suas secretárias e defendeu uma tributação mais equitativa.

A iniciativa desses bilionários fracassou, porque não houve acordo entre os membros do supercomitê. Os democratas defenderam a antecipação do fim daqueles benefícios fiscais, prevista para dezembro de 2012. A oposição rejeitou, mas, em contrapartida, sua proposta de cortes de gastos combinados com uma reforma tributária foi recusada pelos democratas.

No balanço geral, a resistência republicana tem sido o principal obstáculo à execução de um ajuste menos penoso e socialmente mais equitativo. Antes do fracasso do supercomitê, a oposição já havia derrubado um plano de estímulos de US$ 447 bilhões apresentado ao Congresso pelo presidente Barack Obama.

O governo, apesar da forte resistência republicana, mantém certo espaço de ação. Em agosto, conseguiu a elevação do teto da dívida e não precisará rediscutir esse problema antes da eleição do próximo ano. Também já foi definido um corte de US$ 1 trilhão do déficit público. Além disso, o acordo de agosto criou uma alternativa para o caso de fracasso do supercomitê. A partir de 2013 será acionado um corte automático de US$ 1,2 trilhão, dividido igualmente entre o orçamento da saúde e o da defesa.

Oposicionistas já revelaram a intenção de votar uma lei para eliminar esse compromisso. O presidente Obama prometeu vetar qualquer projeto desse tipo.

O impasse nos Estados Unidos e a prolongada crise das dívidas soberanas na Europa tornarão muito difícil uma retomada do crescimento no mundo rico, no próximo ano. Na Europa, também as economias até agora em melhores condições, como as da Alemanha e da França, têm perdido impulso e dão sinais de estagnação. A troca de governos na Itália e na Espanha talvez facilite o ajuste e apresse a recuperação da atividade nesses dois países, mas também isso não é garantido.

As economias emergentes têm sido os principais motores da atividade global, mas também deverão crescer menos. Se isso se confirmar, países como o Brasil terão mais dificuldade para limitar os efeitos da crise.