07 de Novembro, 2011 - 09:39 ( Brasília )

Geopolítica

Farc partem para a retaliação

Grupo responde à oferta de deposição de armas do presidente com novo ataque

Os rebeldes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) levaram menos de 48 horas para responder ao apelo do presidente Juan Manuel Santos pela deposição de armas, após a morte do chefe máximo do grupo, Alfonso Cano, em uma ofensiva do Exército colombiano. Ao menos uma pessoa morreu e 19 casas sofreram danos após um ataque em Piendamó, no departamento de Cauca, a mesma região em que o chefe guerrilheiro havia sido morto. A retaliação já era esperada por analistas, como sinal de que, apesar de ter sofrido duro golpe, as Farc continuam em operação.

O ataque foi feito com morteiros artesanais, lançados a partir de uma caminhonete. Somente um dos artefatos explosivos atingiu o alvo, a sede da Polícia Nacional. A ofensiva resultou na morte de um civil, que animava festa infantil, e deixou três policiais feridos, levados para a clínica Estancia, em Popayán. Segundo Alfredo Rangel, diretor da Fundação Segurança e Democracia, o atentado é compatível com as últimas ofensivas do grupo, de maior frequência e menor intensidade:

- Isso mostra que a guerrilha não está em condições de lançar ataques devastadores como no passado, mas tem incrementado o número de operações - disse.

Grupo guerrilheiro lança manifesto
Após a morte de Cano, considerado o ideólogo da organização guerrilheira, Santos afirmou que o grupo não tinha outra opção e que deveria aproveitar a oportunidade para depor as armas. Mesmo sem um sucessor definido, as Farc expressaram por meio de um comunicado oficial a disposição para permanecer em combate.

"A única realidade que simboliza a queda em combate do camarada Alfonso Cano é a imortal resistência do povo colombiano, que prefere morrer a viver de joelhos mendigando. A história das lutas deste povo está repleta de mártires, de mulheres e de homens que jamais deram o braço a torcer na busca da igualdade e da justiça", afirma o comunicado, disponível na página da agência de notícias Anncol.

O texto do secretariado das Farc afirma ainda que a paz na Colômbia não nascerá de nenhuma desmobilização guerrilheira, e sim da abolição definitiva das causas que deram início ao levante.

Santos havia afirmado ontem que o governo não havia fechado as portas ao diálogo, mas que qualquer avanço nas negociações de paz dependeria da manifestação de sinais claros por parte da organização.

- Têm sido frequentes as manifestações do governo e das Farc de disposição para negociar, mas nunca há acordo quanto às condições necessárias para que isso ocorra. As Farc estão debilitadas e não deveriam exigir as mesmas condições de que quando estavam em posição vitoriosa, há dez anos - avalia Alfredo Rangel.

Outro sinal da debilidade do movimento de guerrilha foi a confirmação do presidente de que a operação contou com informações de pessoas de dentro da organização.

Recompensas altas para delatores
O governo americano deu parabéns aos esforços do governo colombiano na luta contra os guerrilheiros das Farc e classificou a morte de Cano como uma "importante vitória" para o país.

Na imprensa colombiana, análises atribuem o sucesso da operação a uma combinação de política de Estado, investimentos em inteligência, aparelhamento das Forças Armadas com base em recursos dos EUA e compartilhamento de informações entre diversos órgãos.

O uso de tecnologia de ponta para rastrear as comunicações entre os membros do secretariado das Farc e as recompensas milionárias pelas informações sobre os chefes do grupo são apontados como fatores fundamentais para o sucesso da operação "Odiseo", que resultou na morte de Alfonso Cano.

De acordo com o "El Tiempo", o único elo entre o período de maior êxito do grupo guerrilheiro e o atual esfacelamento de lideranças das Farc é a presença de Juan Manuel Santos no governo. Em 2002, quando as Farc romperam o processo de paz com o então presidente Andrés Pastrana, Santos era ministro da Fazenda. Depois disso, ocupou o cargo de ministro da Defesa no governo de Álvaro Uribe e esteve à frente das principais ações contra o grupo.

Apesar destes esforços e das dificuldades envolvidas na substituição de Alfonso Cano como chefe do grupo, as Farc tendem a continuar suas operações movidas com o dinheiro do narcotráfico. Para especialistas, ataques regionais, descentralização e grupos menores de atuação passarão a ser a nova realidade da guerrilha na Colômbia.

O próprio presidente da Colômbia indicou que a guerrilha passará a operar de forma mais fragmentada. Segundo ele, o substituto de Cano não terá o mesmo nível de comando dentro da organização. Até agora os nomes mais cotados entre especialistas são os de Ivan Marquez e Timochenko, que tem o nome de Rodrigo Londoño.

Independentemente do escolhido para o cargo, a avaliação de especialistas é que, com a morte de Cano, a Colômbia começa a derrubar mitos e o Estado volta a exercer autoridade em todo o território.