16 de Outubro, 2011 - 22:00 ( Brasília )

Geopolítica

A “Chechênia norte-americana”


Blog Da Rússia – José Milhazes

A Rússia acompanha atentamente a situação no Afeganistão não só devido à experiência da União Soviética entre 1979 e 1989, mas também porque a retirada das tropas ocidentais pode desestabilizar a situação na Ásia Central e no Cáucaso.
 
Os analistas russos consideram que, na fase inicial da intervenção norte-americana, os êxitos das tropas de Washington foram inegáveis.
 
"Até 2003, os talibãs não apresentavam séria resistência, ficava-se com a impressão de que eles tencionavam chegar a um acordo", escreve Nikita Mendkovitch, analista do Centro de Estudos Contemporâneos do Afeganistão.
 
"Porém, depois, eles mudaram de tática. Por isso, em 2008, os talibãs conseguiram regressar em muitas províncias e apenas Cabul goza de relativa segurança", acrescenta.
 
Depois de tomarem consciência do erro dessa estratégia, os americanos tiveram de revê-la. Em 2009, o Presidente Obama sancionou o envio para o Afeganistão de mais 30 mil homens.
 
"Começaram verdadeiros combates, a coligação passou a combater em terra: Construir postos de controle, realizar ataques, cercar as posições dos talibãs, tomá-las e, depois, a realizar buscas, ou seja, a empregar, na prática, a tática russa na Chechênia. Como resultado, as coisas passaram a ser favoráveis para coalizão", acrescenta Mendkovitch.
 
Os analistas russos divergem quanto ao futuro do Afeganistão depois da retirada das tropas dos Estados Unidos e da NATO.
 
"É impossível prever como se irá desenvolver a situação militar, mas sem dúvida que o futuro governo do Afeganistão será de coligação, os talibãs vão fazer parte dele. Será triste se forem os talibãs de Hakkani", considera Alexei Malachenko, do Centro Carnegi de Moscou.
 
"Nós, agora, vemos no Afeganistão o que ocorria na Chechênia em 2004: os terroristas pareciam encostados nas cordas, a luta nas frentes tinha praticamente terminado, mas deu-se um surto de terror: Escola de Beslan, assassinato de Akhmat Kadirov. Trata-se do desenvolvimento lógico da guerra terrorista, quando a guerra de frentes termina e aparecem recursos para realizar ações terroristas mediáticas e eficazes", defende Mendkovitch.
 
Este analista está convencido que os talibãs não vão conseguir reunir forças para reagir se a coligação manter a atual dinâmica até 2012, mas frisa que isso não é um dado definitivo.
 
Moscou receia que se repita o "cenário soviético", ou seja, que o atual regime em Cabul não resista após a retirada das tropas da coalizão ocidental.
 
"A probabilidade do regresso dos talibãs ao poder é alta, as conversações de paz com os Estados Unidos são para eles um passo tático, mas, depois da saída das tropas, o regime de Karzai não aguentará", pensa Vladimir Sotnikov, analista do Instituto de Relações Internacionais da Academia das Ciências da Rússia.
 
"A chegada ao poder dos talibãs é perigosa porque pode desestabilizar a situação na Ásia Central e no Cáucaso do Norte russo", sublinha.
 
Daí a importância que a Organização do Tratado de Segurança Coletiva, que reúne a Rússia, Bielorússia, Armênia, Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão e Tadjiquistão, concede ao reforço do seu papel nessas regiões. Nessa organização discute-se a possibilidade de aprovar um documento que preveja a intervenção de tropas de um dos membros "em caso de instabilidade".
 
"Vemos como de forma surpreendente a saída dos americanos do Afeganistão coincide com o aparecimento de certos contingentes militares junto às fronteiras russas no Tadjiquistão. Começarão provocações, tentativas de exportar o radicalismo islâmico. Por isso, os Estados Unidos não estão interessados na reconciliação nacional no Afeganistão", estima o historiador e escritor Nikolai Starikov.
 
"Eles precisam, nessa região, de uma caldeira instável, da qual salte agressão contra os países vizinhos. Mas podem-se enganar", conclui.